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Pernambuco, 17 de maio de 2024

Cultura

Na terra dos tabaqueiros, a saudade toma de conta dos foliões

Saudade toma conta dos foliões de Afogados da Ingazeira, cidade-pólo do carnaval pernambucano. Terça-feira sem carnaval amanhece chuvosa e triste.

Postado em 16/02/2021 2021 14:17 , Cultura. Atualizado em 16/02/2021 14:52

Jornalista ,

É fato que o carnaval une povos e valoriza tradições há gerações em Afogados da Ingazeira, conhecida como a terra dos tabaqueiros, no Sertão do Pajeú. Com a pandemia, não haverá festejos ou blocos nas ruas, somente silêncio nas avenidas. Esse ano a terça-feira não terá foliões correndo atrás dos trios elétricos e as famosas virgens desfilando com seus trajes extravagantes.

Apesar de tudo, falar de carnaval na cidade é sinônimo de alegria,ia; por isso o Jornal do Sertão entrevistou o influenciador digital Pedro Acioly, conhecido Corujão do Pepeu, que atua no marketing digital e de influência na região desde 2017 e tem mais de 15 mil seguidores no instagram. “Eu costumo dizer que já nasci pulando, já nasci estralando chicote, correndo tabaqueiro. Desde os 5 anos de idade eu lembro que minha mãe me fantasiava de tabaqueiro para que eu pudesse sair nas ruas e pudesse me divertir acompanhado dos meus pais; sentir a cultura do carnaval afogadense, esse carnaval que vem crescendo ao longo dos anos”, declara.

Pedro Acioly (Corujão do Pepeu).

Carnaval com muito trabalho e conquistas

Afogados da Ingazeira é uma cidade pólo do carnaval de Pernambuco e atrai multidões em diversos blocos por toda a cidade. O influenciador destaca que é muito gratificante poder participar dos festejos. “Não só como folião, enquanto blogueiro e comunicador eu fui convidado a participar de outros blocos para fazer a cobertura. Pela Rádio Pajeú, por exemplo, eu cobri o Bloco das Virgens da Pedro Pires, as Virgens da Cohab e Asa do Frevo.  Fui convidado também a fazer a cobertura do Bicho, bloco da década de 90 que saiu novamente nas ruas ano passado após 11 anos, Bloco A Onda e o carnaval fora de época Arerê, uma parceria que abriu as portas para mim enquanto comunicador.”

Pandemia entristeceu os foliões

O Corujão  do Pepeu, que também realizou coberturas de outros carnavais em cidades da região, a exemplo de São José do Egito e Iguaracy, disse ao Jornal do Sertão que foi um choque muito grande não ter carnaval esse ano. “Eu gosto muito do carnaval e vivo o carnaval. A gente que é do nordeste, pelo menos boa parte das pessoas, torce pra chegar dois meses: fevereiro e junho. Quando a gente não brinca, não vive, tem aquela tristeza. Carnaval é aquela festa que une todo mundo, é uma festa que, independente como você curta, é bastante animada e mexe com a gente. O impacto, não só financeiro, mas também cultural foi muito grande. Tanto para o vendedor que vai atrás dos trios com o seu carrinho de mão até um produtor de um evento de grande porte. Eu fiquei bastante triste por não ter carnaval esse ano”, lamenta.

Fantasias guardadas no Ateliê de Luciano Pires.

Carnaval de inovação e pioneirismo no Pajeú

O conhecido artista plástico e carnavalesco Luciano Pires, 43, é fundador de dois blocos Carnavalescos em Afogados, o Bloco das Virgens com 18 anos e Bloco infantil Unidunitê Kids com 10 anos de existência. “O carnaval pra mim é alegria, é arte, é trabalho e responsabilidade, o carnaval é a maior “vitrine” que um artista pode ter, uma vitrine gratuita onde a criatividade te leva para o mundo. Quero ficar velhinho mas sempre contribuindo com o carnaval de nossa cidade.”

Bloco da virgens de Afogados da Ingazeira.

Luciano Pires e as crianças no seu bloco Unidunitê Kids.

Talento afogadense que leva o Pajeú para o Brasil

Pires, que foi homenageado no Carnaval em 2017, relata destaques da sua carreira, entre fantasias e alegorias que ultrapassam as fronteiras do sertão pernambucano. “Em 2014 o bloco infantil fez uma homenagem ao nosso inesquecível Ayrton Senna onde fabriquei uma réplica de um carro de Fórmula 1 em tamanho original, onde essa arte saiu em muitos jornais do nosso brasil. Também trabalho nos carnavais no Bloco do Jacaré da Beira Rio na cidade do Recife, onde fabriquei o mascote do bloco com 12 metros e 50 centímetros. Tive a oportunidade de conhecer o trabalho de algumas escolas de samba do Rio de Janeiro e, através do meu talento, fui aprovado em 2 escolas.”

O artista afogadense e defensor da cultura, trabalha intensamente para oferecer ao público um momento único, repleto de alegria e muita diversão. Os seus blocos reúnem milhares de foliões fantasiados. “No último carnaval, investi muito nas alegorias, principalmente no bloco infantil onde fiz a nave e um reboque mini-trio, confecção dos personagens da TV e muito mais. Houve a participação de 1.500 foliões. No Bloco das Virgens fizemos o desfile com premiações de um carro Monza e prêmios em dinheiro, feijoada e bebida de graça para as virgens. Um público de 2.500 foliões,” ressalta Luciano Pires.

Ano sem carnaval causa grandes prejuízos 

É consenso entre os entrevistados que o prejuízo é incalculável, tanto culturalmente como financeiro. “Eu, no último sábado, estive nos lugares onde saem os blocos e confesso que me emocionei vendo aquela imagem sem ninguém, é inacreditável ver um ano sem o nosso carnaval. A saudade é grande em só imaginar que não temos nosso momento carnavalesco. É como diz a música é de fazer chorar, mas creio em Deus que ano que vem possamos voltar ao normal e realizar um dos melhores anos carnavalescos de nosso município”, comenta o carnavalesco.

Na Princesa do Pajeú, a paixão carnavalesca começa desde criança. 

Edgley Brito, 39, é um premiado artista, conhecido na região pela sua criatividade, originalidade em fantasias, peças, obras e desde os sete anos participa do carnaval.“Eu perdi a minha mãe com 11 meses de vida. Eu tinha que cobrir essa falta, então cobria fazendo arte. Eu não tinha dinheiro pra comprar brinquedos, mas eu tinha a capacidade de fazer meus brinquedos e consegui viver da arte”, relata ao Jornal do Sertão.

Edgley Brito acima.

Brito é vencedor do desfile de fantasias do tradicional baile de carnaval municipal desde 2011. “Depois de vencer sete vezes, eu virei hors concours, que é quando não disputa mais, apresenta mas não concorre. Eles já dão o prêmio por apresentação e em 2015 eu fui homenageado do carnaval. Também ganhei 3 vezes o concurso de tabaqueiros, fora as vezes que fiquei em segundo lugar, que também são conquistas”, lembra. 

Premiações e títulos são resultado de talento e muito empenho

Os diversos títulos são resultados de muita dedicação ao longo dos meses e apoio das pessoas. “Eu me preparo e vivo o ano quase todo, cheguei a esses títulos pois eu não faço essas roupas de um dia para o outro. Eu vejo a entrada, vejo quem pode me ajudar, uma costureira, um cara da luz e do som”, relata Edgley.

Por fim, a folia do Rei Momo traz não apenas o sentimento de alegria, há também renovação para o resto do ano. “O carnaval eu renovo, acho uma força muito grande de alegria, tanto em mim como nas pessoas, que você vê o ano todo com cara fechada e no dia do carnaval vê aquela alegria. Então, no meu momento triste que sinto falta da minha mãe, eu me apego ao carnaval”, diz o artista premiado.

Live de carnaval é transmitida para foliões festejarem em casa

Para amenizar a saudade, entre ontem e hoje, ocorre a transmissão de live carnavalesca direto da terra dos tabaqueiros no canal do Youtube 3M Home Studio. A iniciativa é resultado da parceria entre a Associação de Secretários de Turismo de Pernambuco (Astur), a Secretaria Estadual de Turismo, a Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), Empetur e a Rádio Pajeú. A live inicia às 20h, com apresentação de Beto Café e a participação de orquestras e artistas regionais.

Transmissão da Live promovida pela Astur.

 

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