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Pernambuco, 06 de março de 2021

Cidades

É do Sertão! Capital da Rapadura que une tradição e modernidade aos Engenhos do Pajeú

Santa Cruz da Baixa Verde é hoje uma das maiores produtoras de rapadura do País. Localizada no Sertão do Pajeú, faz divisa com Triunfo e o estado da Paraíba. Derivados da cana de açúcar movimentam 80% da economia local e empregam diretamente mais de 3 mil pessoas nessa atividade.

Postado em 23/02/2021 2021 13:23 , Cidades. Atualizado em 23/02/2021 14:05

Jornalista , Editor Antônio José em Cidades

Conhecida como Capital da Rapadura e com identidade econômica agrária fortemente ligada à produção de cana de açúcar, Santa Cruz da Baixa Verde é hoje uma das maiores produtoras de rapadura do Brasil. Localizada no Sertão do Pajeú, a cidade faz divisa com Triunfo e o estado da Paraíba. Em primeiro de outubro de 1991, realizou-se um plebiscito que homologou a emancipação e passou a ter sua independência política. Hoje o município conta com mais de 12 mil habitantes (IBGE).

Feira movimenta a economia local

De acordo com a Prefeitura, o contato direto da população com os derivados da cana deu origem a Feira da Rapadura do Nordeste, que teve sua primeira edição no ano de 1996. A feira ganhou relevância no cenário cultural da região e todos os anos atrai grande número de turistas, contribuindo de forma decisiva na construção da identidade e na sua projeção nacional.

A iniciativa é fruto da parceria entre secretarias municipais, apoiadores e o Sebrae, que orienta os produtores da rapadura para expor seus produtos. Além de shows de artistas regionais e nacionais, uma grande atração é a Maior Rapadura do Mundo, que pesa cinco toneladas e é repartida gratuitamente entre os visitantes.

Além disso, há uma réplica de engenho, que possibilita aos visitantes vivenciar o processo de produção dos derivados da cana de açúcar, a exemplo do alfenim e o melado. A última Festa da Rapadura foi realizada em 2019, com a participação de artistas do cenário nacional e produtores da região. Em 2020, devido às restrições impostas pela pandemia da Covid-19, não foi possível celebrar a 25ª edição, que movimenta a economia do Sertão pernambucano.

Em entrevista ao Jornal do Sertão, o Prefeito Irlando de Souza destacou o  impacto da pandemia na Festa da Rapadura. “Por causa da Covid-19, em 2021 também não haverá a tradicional festa. A gente vai tentar fazer ações que reforcem o potencial de Santa Cruz para outras cidades e estados, mostrando para as pessoas a nossa capacidade de produção.”

Perspectivas para a economia da cidade

O gestor destaca o potencial do município no segmento dos derivados da cana de açúcar. “Na verdade, a economia hoje gira 80% em torno da rapadura. Nossa região pode ser considerada a maior produtora de rapadura do mundo. Nós empregamos, em média, 3 mil pessoas diretamente. A gente tem indústria rapadureira que manda rapadura para fora e o Brasil inteiro. Desde o açúcar mascavo, a rapadura de amendoim e outros diversos derivados da cana de açúcar”, enfatiza.

“Nosso município tem um potencial muito grande, não tem crise no que diz respeito à rapadura. Nossa cidade hoje tem um poder aquisitivo muito bom”, diz o prefeito.

Na região há o Engenho Góes, que produz rapadura pura, alfenim, melado e outros derivados da cana.  Os irmãos Ene Kleuber e Ed Kerlys são responsáveis pela gestão do local. “A gente que trabalha com cana se torna uma comunidade. Todo mundo sobrevive da cana de açúcar, gera bastante emprego. Tanto na fornada de açúcar quanto na cana”, relatou Ene Kleuber ao Jornal do Sertão.

A rapadura é doce mas não é mole não: desafios para manter a produção de rapadura pura da cana 

Os responsáveis pelo Engenho Góes relataram os desafios para atrair clientes. “Um tempo atrás nós fazíamos nossa rapadura e entregávamos para atravessador. Ouvimos que o pessoal não estava mais querendo rapadura de cana, então a gente mudou e começou a fazer açúcar mascavo. Depois começamos a viajar ainda no ano passado e o povo começou a pedir rapadura de cana, então voltamos”, destacaram. Segundo Ene Kleuber, que comercializa os produtos no Ceará e Pernambuco, a estratégia na pandemia gerou um aumento das vendas em Caruaru e Juazeiro, por exemplo. Contudo, ele explicou que no fim de 2020 houve uma queda.

 

Rapaduras, açúcar mascavo e melado de cana em supermercados. Foto: Divulgação.

De acordo com o produtor, um dos desafios para manter a produção de rapadura pura da cana é o custo. “A rapadura de açúcar fica bem mais em conta. Para fazer 2 mil quilos, por exemplo, eles precisam de 4 pessoas. Nós que trabalhamos na forma tradicional de engenho precisamos de 31”, destaca.

Na entrevista ao Jornal do Sertão, o Prefeito relatou que a produção de rapadura pura diminuiu, entretanto aumentou centenas de vezes mais a rapadura de açúcar. “O pessoal está investindo muito nesse mecanismo pois tem açúcar todo ano e não há entressafra, isso favorece ao atravessador, ao cliente, pois tem produto o ano inteiro. A rapadura de cana ele vai comprar durante 6 meses, depois não tem mais e a gente fica refém de um produto que não vai ter durante 6 meses. Então preferem investir na rapadura de açúcar pois tem toda hora, todo tempo. ”

Segundo o gestor, havia quase 100 engenhos no município e hoje só tem cerca de 15.

Apoio une tradição e modernidade para manter engenhos

Para manter a tradição e a comercialização da rapadura de cana, foi necessário adequar o maquinário. “Nós, do Engenho Góes, modificamos bastante. Compramos máquina para encher caminhão, tem uma rampa que não precisa o trabalhador carregar cana nas costas até o pé do engenho. A gente modernizou muito. Tanto pela questão de mão de obra, quanto para competir”, destaca Kleuber.

Açúcar mascavo produzido no Pajeú. Foto: Divulgação

Para apoiar o setor, o Prefeito de Santa Cruz da Baixa Verde irá para Brasília. “Estou indo para viabilizar e fomentar mais a agricultura familiar até a rapadura, pois hoje o engenho antigo ele não está mais sobrevivendo, o pessoal só quer comprar rapadura de açúcar. Então o que a gente vai fazer é, dentro de cooperativas, comprar alambique para tentar produzir cachaça artesanal e, até mesmo, o álcool; também o açúcar mascavo, para incentivar o pessoal a plantar mais cana e salvar os engenhos antigos”, finaliza o gestor.

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