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Pernambuco, 20 de julho de 2021

Agronegócios

Cebola, a prima-dona do Vale por Geraldo Eugênio

O cultivo da cebola evoluiu e com ele a demanda por insumos modernos, a começar por uma boa semente. As sementes híbridas se tornaram predominantes pela uniformidade, produtividade, precocidade, formato, cor, pungência. É bom lembrar que temos um clima em mudança e, nos últimos três anos, as chuvas nos meses de maio e junho nas regiões produtoras do Nordeste foram intensas e com isto mostrou uma característica indesejável desses materiais, a baixa capacidade de resistir a precipitações próximas a colheita.

Postado em 01/04/2021 2021 13:36 , Agronegócios. Atualizado em 01/04/2021 13:36

Colunista

Geraldo Eugênio Eng. Agrônomo e pesquisador do IPA Foto: Divulgação.

A pioneira nas áreas irrigadas

O Vale do São Francisco que se conhece hoje nem sempre foi assim. As culturas da manga e das uvas de mesa e vinícolas se tornaram preponderantes no submédio São Francisco a partir dos anos 80 do século passado. Antes disso a mais importante atividade agrícola na área irrigada era a cebolicultura. Iniciada na região de Cabrobó, nos anos 50 e que se expandiu rapidamente de Belém do São Francisco a Santo Sé, na Bahia. Os barcos carregados de tranças de cebola chegando aos mercados, na beira do rio, estão bem na memória de quem viveu este tempo. Certa vez, em visita com um professor americano ele ficou encantado em conhecer uma região em que se plantava a cebola, praticamente durante todo o ano.

A tecnologia eminente pernambucana

No período inicial do cultivo da cebola a variedade que se destacou foi a Amarela Chata das Canárias, como o nome bem o diz introduzida a partir dessas ilhas Espanholas. Após algum tempo outra material tornou-se o preferida, a Texas Grano, de bulbos amarelos, proveniente dos Estados Unidos. Apesar da adaptação longe estavam de suportar o verão do Vale e as doenças no sistema radicular. Foi aí que o conhecimento e o domínio da planta entraram em ação. Um pesquisador do IPA, o Eng Agronomo . Luiz Jorge Wanderley e sua equipe, a partir de experimentos simplificados utilizando-se de um simples refrigerador conseguiram provar que ao se armazenar os bulbos de cebola por um período de aproximadamente três meses à baixa temperatura, ao plantar, as plantas provenientes de tais bulbos, floresciam. Hoje se conta com treze cultivares desenvolvidas pelo Instituto que fazem parte efetiva do cardápio de variedades usadas no Vale e, recentemente, na região de Irecê, Bahia.



A importância econômica do cultivo da cebola

Esta história deixa duas grandes lições do ponto de vista econômica para o semiárido brasileiro. Tomando emprestado o raciocínio da Dudu, empresária da área de comida e bar, em Petrolina: quando a cebola tem preço, todos ganham. O mercado agradece uma vez que dos insumos aos bens de capital, de lazer, vestuário e alimentação são adquiridos na região. O lucro é inteiramente dividido entre os pequenos e médios empresários e os trabalhadores locais. Uma sábia lição de economia, desta dileta amiga. A segunda questão é que esta tecnologia permitiu a formação de uma rede de produtores de sementes que se estende de Petrolândia a Juazeiro, passando por Serra Talhada, indo até Canudos, na Bahia, que trata da produção, beneficiamento e comércio de um produto bem mais sofisticado do ponto de vista biológico e de mercado, a semente.

A importância dos híbridos e das variedades de polinização aberta

O cultivo da cebola evoluiu e com ele a demanda por insumos modernos, a começar por uma boa semente. As sementes híbridas se tornaram predominantes pela uniformidade, produtividade, precocidade, formato, cor, pungência. É bom lembrar que temos um clima em mudança e, nos últimos três anos, as chuvas nos meses de maio e junho nas regiões produtoras do Nordeste foram intensas e com isto mostrou uma característica indesejável desses materiais, a baixa capacidade de resistir a precipitações próximas a colheita. Sobressaíram-se de modo fenomenal as antigas variedades, renovadas em um programa contínuo de melhoramento genético da cebola, que continua sendo uma das principais cantoras desta lírica. Permitam-me tirar o chapéu para dois carregadores de piano neste teatro: os Engenheiros Agronomos  Luiz Jorge da Gama Wanderley e Jonas Candeia.

Quem é Geraldo Eugênio: Engenheiro Agronômo, com mestrado na Índia e doutorado e pós-doutorado nos na Texas A&M University, Estados Unidos, é pesquisador do IPA e colaborador da empresa Inovate Consultoria & Projetos Ltda. Foi secretário de agricultura de Pernambuco, Presidente do IPA, do ITEP e Diretor Executivo da Embrapa. Viveu parte de sua vida em Serra Talhada, dedicando-se à agricultura de sequeiro e no Vale do São Francisco, quando liderou o programa de Hortaliças, do IPA. Atualmente tem acompanhado de forma direta políticas, tecnologias e iniciativas de gestão de secas, no Brasil e no exterior. Considera essencial entender melhor o Sertão, visualizando-o como um grande ambiente de negócios e sucesso.