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Pernambuco, 19 de junho de 2021

Cultura

Viva a diferença, ó pá!

Viva a diferença, ó pá!
Aqui em Lisboa, onde moro, somos sempre qualificados como lusófonos. Continuo sertanejo, petrolinense, pernambucano quase baiano e brasileiro. Porém, principalmente neste 5 de maio, quando se celebra o dia mundial da língua portuguesa, somos incorporados ao mundo de 250 milhões de pessoas integrantes da lusofonia – dos quais mais de 210 milhões vivem no Brasil, o restante em países como Portugual, Angola, Moçambique e mesmo em locais específicos da Índia (Goa) e China (Macau).

Postado em 05/05/2021 2021 18:32 , Cultura. Atualizado em 07/05/2021 13:00

Colunista
Jornalista , Editor Antônio José em Cultura

Foto : Divugação

Aqui em Lisboa, onde moro, somos sempre qualificados como lusófonos. Continuo sertanejo, petrolinense, pernambucano quase baiano e brasileiro. Porém, principalmente neste 5 de maio, quando se celebra o dia mundial da língua portuguesa, somos incorporados ao mundo de 250 milhões de pessoas integrantes da lusofonia – dos quais mais de 210 milhões vivem no Brasil, o restante em países como Porgual, Angola, Moçambique e mesmo em locais específicos da Índia (Goa) e China (Macau).

Revi dia desses uma tese de que o mundo moderno será pós a era da Torre de Babel, ou seja, ninguém precisará mais aprender outra língua porque ou falaremos apenas uma ou seremos capazes, por meio de aplicativos, de nos comunicar com fluência, seja com quem for. Compreenderíamos bem os anglofônicos, francofônicos etc. e, inclusive, não teríamos mais dificuldades, no nosso caso, com os mal-entendidos entre nós, filhos da língua portuguesa. Muitas vezes não é fácil para um brasileiro perceber o que um português ou angolano, um moçambicano ou goense nos diz.

De modo geral, entretanto, a globalização já fez muito desse serviço de pasteurização. Os mercados financeiros ditam as regras, a moda, os costumes, as posições nas pirâmides de consumo. O resultado é que uma figura de classe média em Bodocó ou Afrânio age e pensa quase do mesmo jeito que outra de Madagascar ou do Alentejo. Querem tesla, nike, gucci, big mac e saber da vida alheia nas redes sociais, principalmente dos famosos. É assim também em Ouricuri, Beja, Lausanne, Londres, Franca, Zhouzhuang e Catolé do Rocha. As classes são recortadas mundialmente e não mais apenas no nível local.

Foto Divulgação

Mas isso é legal, é bom? O que temos a ganhar com o abandono da palavra saudade, por exemplo, que só existe na nossa língua? O que seria do fado e do samba sem saudade? Por que abriríamos mão do fado? Por que devemos abandonar nossas diferenças? As grandes revoluções do mundo só ocorreram por causa do encontro de culturas muito diversas, já dizia Claude Lévi-Strauss, em “Raça e história”, muitos anos atrás. A revolução industrial aconteceu na Inglaterra por causa dessa diversidade. Juntaram gente do mundo inteiro e o caldo disso deu um clique pro uso do vapor. Nada ocorreu porque os ingleses são mais evoluídos do que ninguém. Foi a babel cultural.

Portanto, no 5 de maio, muito mais do que festejar o nosso umbigo e lamber o mundo com os versos de Pessoa, devemos celebrar a diversidade – linguística, cultural, ambiental e política. Tem certos “avanços” que só interessam a Elon Musk e outros bilionários, cada vez mais bilionários enquanto você empobrece e pensa que o mundo está a avançar. Como diriam os franceses amantes de Lévi-Strauss, vive la différence!

Cesar Rocha

Quem é Cesar Rocha .

Jornalista, consultor em comunicação, sertanejo de Petrolina, vive em Lisboa

cesar@wcomportugal.com