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Pernambuco, 19 de junho de 2021

Economia

É necessário aumentar a demanda por frutas! Por João Ricardo de Lima

Uma Crise à vista . É necessário aumentar a demanda por frutas. Em 2020 houve crescimento tanto do volume exportado
quanto das receitas de exportação com as duas frutas. No mercado interno, ocorreu aumento do consumo das famílias devido, principalmente, à melhoria de renda causada pela forte injeção de recursos do auxílio emergencial. Porém em 2021 , o mercado interno, responsável pelo consumo de cerca de 80% a 85% das mangas produzidas no Vale do São Francisco e de 85% a 90% das uvas produzidas, enfrenta um forte desequilíbrio entre a oferta e a demanda levando a uma redução de preços que não cobrem os custos de produção. As famílias perdem renda pelo desemprego e a renda perde poder de compra devido a inflação existente, principalmente no setor de alimentos. Isto afeta diretamente a demanda por frutas. E o setor externo, sozinho, não vai servir de “colchão” para amortecer os efeitos da crise provocada pelo aumento dos custos de produção da fruticultura

Postado em 19/05/2021 2021 10:29 , Economia. Atualizado em 13/06/2021 12:12

Economista João Ricardo de Lima Prof. da Facape de Petrolina, escreve quinzenalmente sobre Economia & Negócios para o JS.

Entre os anos de 2007 e 2008 ocorreu um processo denominado de crise do subprime, relacionado com problemas com as hipotecas americanas e que levou a falência de várias instituições financeiras pelo mundo. Uma crise econômica global com efeito no Brasil e, mais especificamente, na fruticultura do Vale do São Francisco. 

As duas principais culturas da região, a manga e a uva, sentiram o efeito da crise especificamente no ano de 2009, com redução do volume exportado e dos preços recebidos. O impacto foi bastante forte, mas o mercado interno estava aquecido devido ao crescimento da renda das famílias e aumento do consumo em geral. Desta forma, a venda de frutas para o consumidor doméstico serviu como um colchão para amortecer a crise existe no comércio internacional.

No caso da manga as exportações começam a se normalizar depois de 2012 e, desde então, tem crescido anualmente. Para a uva a situação foi um pouco mais complicada pela perda do mercado americano, que passou a produzir variedades mais tardias e a troca de variedades tradicionais sem semente pelas novas variedades. O processo de recuperação das exportações da uva ocorreu, assim, de forma mais lenta, mas por problemas intrínsecos da cultura, não for fatores exógenos. 



O ano de 2020 iniciou trazendo inúmeras incertezas para os produtores do Vale do São Francisco, devido a nova crise existente, causada pela pandemia do novo coronavírus. Uma crise diferente da econômica do subprime, pois foi causada na saúde, mas com reflexos na economia dado que afetava tanto o lado da demanda quanto o da oferta. Após algumas semanas de problemas diversos, notadamente em março e abril, o cenário acabou se tornando favorável para as exportações de manga e uva. Em 2020 houve crescimento tanto do volume exportado quanto das receitas de exportação com as duas frutas.

No mercado interno, ocorreu aumento do consumo das famílias devido, principalmente, a melhoria de renda causada pela forte injeção de recursos do auxílio emergencial. 

Em 2021, contudo, a fruticultura está enfrentando, até o momento, uma das maiores crises de sua história e que será muito mais difícil do que a crise de 2009, causada pelo subprime. As exportações, até o mês de abril, foram bastante expressivas, nunca se enviou, desde 2016, um volume tão grande de uvas para o mercado externo e os volumes de manga em abril também foram recordes na comparação com os últimos 9 anos. Porém, o mercado interno, responsável pelo consumo de cerca de 80% a 85% das mangas produzidas no Vale do São Francisco e de 85% a 90% das uvas produzidas, enfrenta um forte desequilíbrio entre a oferta e a demanda levando a uma redução de preços que não cobrem os custos de produção. 

O setor enfrenta hoje, na comparação com 10 anos atrás, um aumento forte do custo com mão de obra, devido ao aumento no salário-mínimo, aumento bastante expressivo nos insumos, que são dolarizados em sua maior parte e aumento também do frete, devido ao aumento dos combustíveis. Só que os preços estão mais baixos em termos nominais! Não precisa nem deflacionar, em termos nominais os preços são menores. Isto inviabiliza a atividade. Tanto a oferta de fruta tem crescido nos últimos anos, com o aumento da área plantada quanto a demanda se reduz em razão do elevado desemprego existente no país e a redução do auxílio emergencial tanto em valor quanto em número de pessoas contempladas. As famílias perdem renda pelo desemprego e a renda perde poder de compra devido a inflação existente, principalmente no setor de alimentos. Isto afeta diretamente a demanda por frutas. E o setor externo, sozinho, não vai servir de “colchão” para amortecer os efeitos da crise, ou seja, é uma crise muito mais complexa do que a enfrente no período do subprime.

Desta forma, algo precisa ser feito. O setor é bastante desorganizado, pouco profissional e muito desunido. Em geral não aceitam conversar em períodos de crise quando, na verdade, este é o momento de entender os problemas existentes e buscar, conjuntamente, mecanismos de superação. Se mantiver o discurso, de certa forma conformista, de que “a agricultura é assim mesmo” muitos devem quebrar e ocorrer uma forte geração de desemprego e problemas em outros setores, dado que a manga e a uva foram responsáveis, apenas no primeiro trimestre de 2021, por 85% de todos os empregos líquidos gerados pelo setor agropecuário no Vale e por 42,3% de todo o saldo de empregos gerados na região.

JS Economia

Quem é João Ricardo Lima: Doutor em Economia Aplicada. Coordenador da Pesquisa sobre a evolução da Pandemia no Vale do São Francisco realizada pelo Colegiado de Economia da Faculdade de Petrolina (FACAPE).