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Pernambuco, 23 de novembro de 2021

Agronegócios

Gesso agrícola: uma oportunidade à vista para o polo gesseiro do Araripe

O gesso agrícola é produzido a partir do minério da Gipsita natural, em jazidas localizadas no Polo Gesseiro de Pernambuco. Sua utilidade pode melhorar a produtividade do solo do cerrado brasileiro que, em sua maioria, é ácido e necessita de insumos e fertilizantes para captar os nutrientes. Ainda são poucas as indústrias no Sertão do Araripe que produzem o gesso em escala para fins agrícola, mas especialistas apontam um potencial mercado à frente para a indústria

Postado em 15/06/2021 2021 10:07 , Agronegócios. Atualizado em 15/06/2021 11:19

Jornalista ,

 

Entre as décadas de 1970 e 1980, quando os cerrados do Brasil eram ainda pouco utilizados, havia uma questão limitante: as lavouras não prosperavam, porque existia uma dificuldade a ser superada, de ordem química do solo. A quantidade de Alumínio existente no solo era alta, tornando o ambiente ácido, dificultando a absorção de nutrientes, em especial o Fósforo, e água pelas raízes das plantas. Este era o cenário do Cerrado e consequentemente da agricultura brasileira naquele momento. 

Porém, com o avanço da tecnologia e das pesquisas na agricultura, observou-se que o calcário poderia fazer a diferença nas plantas ao corrigir a acidez do solo.  E, foi exatamente o que ocorreu. “O calcário ao ser aplicado na superfície do solo reage com o Alumínio, tornando o ambiente propício ao desenvolvimento rápido e produtivo para as culturas agrícolas”, lembrou Geraldo Eugênio, engenheiro agrônomo, pesquisador do IPA e ex-diretor da Embrapa. Dessa forma, a região agrícola do Cerrado brasileiro tornou-se a maior produtora de grãos no país. Um problema grave havia sido resolvido.

Novos insumos para melhoria do solo

Além dos estudos com o uso do calcário, pesquisas adicionais foram desenvolvidas identificando o gesso como outra opção no sentido de permitir um melhor manejo do solo. O gesso tem a capacidade de carrear o Alumínio para camadas mais profundas do solo permitindo que os nutrientes possam ser absorvidos, potencializando o uso do calcário e demonstrando quão importante é esse produto, de Pernambuco, para o futuro da agricultura e do país. O gesso agrícola é um coproduto da rocha Gipsita que ao ser aquecido, desidratado e triturado em pequenos grânulos encontra-se apto a ser aplicado no solo.

Geraldo Eugênio é engenheiro agrônomo, pesquisador do IPA. Advoga o uso intensivo do gesso agrícola na agricultura do Araripe, em especial no Cerrado.

 “Apesar de não reagir com o alumínio como o calcário reage, o gesso agrícola quando aplicado propicia uma lavagem e leva o alumínio para baixo até dois metros de profundidade e faz com que as raízes de milho, soja, algodão fiquem livres para absorver os nutrientes e a água. Rico em enxofre e cálcio é uma solução natural para recuperar o solo e aumentar a produtividade e o lucro. O gesso é um aliado da vida microbiana do solo, aumentando a resistência das plantas às pragas, a doenças e a longos períodos de estiagem”, explicou Geraldo Eugênio. 

Pernambuco como principal “ator” do gesso agrícola

O Polo do Araripe corresponde hoje a 97% de minas de Gipsita existentes no Brasil. Compõem o recorte do Arranjo Produtivo Local (APL) cerca de 30 empresas de mineração, mais 256 calcinadoras, 300 fabricantes de placas de gesso, onde são gerados em torno de 13 mil empregos. Localizada no extremo Oeste de Pernambuco, a região produtora de gesso é composta pelos municípios de Araripina, Bodocó, Cedro, Dormentes, Exu, Granito, Ipubi, Moreilândia, Ouricuri, Parnamirim, Santa Cruz, Santa Filomena, Serrita, Terra Nova e Trindade. 



 

Apesar da potencialidade de produção do gesso destinado à agricultura, a maior parte dos produtores e empresários destinam o mineral para a construção civil, como formatos de placas, drywall, pó em gesso, entre outros fins. O uso do gesso para fins agrícolas ainda precisa ganhar escala de produção, na opinião de alguns produtores locais, se comparado aos vários tipos destinados principalmente a outros segmentos da economia.

Potencial à espera

O Brasil hoje cultiva 70 milhões de hectares por ano com grãos colhendo safras ao redor de 270 milhões de toneladas. Em uma estimativa preliminar,  segundo Geraldo Eugênio, em se necessitando de aplicar uma tonelada de gesso agrícola a cada quatro anos, conta-se com um mercado potencial anual de 17 milhões de toneladas de gesso agrícola. 

“O que não é nada desprezível para uma indústria que tem a cada dia sofrido com a elevação dos custos, competidores nacionais e estrangeiros e questões ambientais crescentes”, citou o engenheiro agrônomo e  ex-diretor da Embrapa. “Temos um espaço para explorar esse mercado”, avaliou Eugênio, que defende um maior engajamento da cadeia produtiva do polo gesseiro para produção do insumo agrícola.

Uso do gesso agrícola tem potencial de crescimento – SENAR-SC

A participação de Pernambuco no agronegócio ainda é pequena. O Estado importa mais do que exporta. Para Geraldo Eugênio, abre-se aí uma janela de oportunidade de negócio para que Pernambuco possa participar do agronegócio brasileiro como grande fornecedor de gesso agrícola, já que o Araripe conta com 97% das jazidas de Gipsita existentes no País.

Mas, para que isso ocorra, na avaliação de Eugênio, é preciso que haja esforços por parte de todos os atores envolvidos: empresariado, governos, órgãos de pesquisa rural para que o gesso agrícola seja de fato colocado à mesa dos grandes ‘players’ do agronegócio brasileiro inseridos nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Maranhão, Tocantins, Piauí, Goiás. 

“É fundamental chegarmos com o nosso gesso agrícola produzido no Araripe a essas regiões produtoras. Assim consolidaria nossa participação no agronegócio nacional, beneficiaria e aumentaria a produtividade agrícola do país e traria prosperidade para os habitantes da região do Araripe”, opinou.

Gargalos de logística e frete

A defesa do gesso agrícola é em parte corroborada pelo diretor geral da Indústria de Gessos Especiais Ltda, Josias Inojosa de Oliveira Filho, um dos grandes produtores industriais do gesso no Araripe, com um portfólio diversificado a partir do processamento industrial do mineral.  Segundo o executivo, para que, de fato, o gesso agrícola chegue aos grandes mercados consumidores do País, seria necessário um esforço e vontade política dos gestores em conceder mais infraestrutura para o escoamento da produção, além da redução de outros custos como tributação, combustível e diversificação da matriz energética na região. 

Josias Inojosa Oliveira Filho, da Indústria Gessos Especiais Ltda e da Supergesso aponta gargalos para escala do gesso agrícola – Crédito > Sinduscon-PE

“O gesso agrícola possui em sua composição nutrientes importantes para o setor agropecuário. Por exemplo, uma tonelada de gesso agrícola tem em média 130 quilos de enxofre em sua composição, além do cálcio. Esse produto já é gerado no setor gesseiro, mas ainda pouco usado no setor agrícola. É preciso difundir mais seu valor como condensador para a lavoura. Agora, no contraponto, a logística, hoje, o transporte é todo rodoviário e isso encarece o produto, além de outras questões”, opinou Inojosa.

De acordo com ele, o valor de uma tonelada de gesso agrícola gira em torno de 35 a 40 reais, enquanto o frete para a região de Barreiras, por exemplo, no Oeste baiano, que faz parte do cerrado nordestino, fica entre 120 e 130 reais. “Ou seja, o frete fica mais caro que o produto em si. Existe uma grande barreira a enfrentar e a perspectiva seria com ferrovias ligando os pontos produtores do gesso agrícola desses mercados”, avaliou. “Temos um país de dimensão continental que deveria ser entrecortado por ferrovias. A Transnordestina, por si só, não resolveria o problema, só ligaria ao sul do Piauí, mas ninguém sabe quando chegaria ao trecho Norte-Sul para descer e ligar até o litoral tanto do Recife com Suape, como Pecém , em Fortaleza”.

Outra limitação, segundo o empresário Inojosa Filho, é o valor agregado, por exemplo, de uma placa de gesso ou mesmo um drywall comercializados para a construção civil se comparados com o gesso agrícola. “Há também um forte desconhecimento por parte do produtor agrícola dos benefícios que o gesso agrícola pode trazer às suas lavouras, aliado ao preço baixo do produto. Todos esses fatores juntos impedem que o produtor gesseiro invista no gesso agrícola como produto mercadológico em seu portfólio”, opinou.

 

mao