
Sem capacidade de se apaixonar pelos dias Por Daniel Lima
É cada vez mais comum ouvir pessoas dizerem que têm sentido uma espécie de vazio, apatia. Os relatos vão-se multiplicando. Isso não significa que a pessoa esteja deprimida, ma, que ela tem uma perturbação psiquiátrica associada, mas também, claramente, não se sente bem.
Postado em 16/06/2021 19:34

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @daniellima.pe
Todavia, o conceito não nasceu com a pandemia — foi introduzido pelo sociólogo norte-americano Corey Keyes, na sequência de investigações realizadas nos anos 90 do século XX —, mas quem tem se sentido assim nos últimos meses reconhecerá os sintomas. É aquela procrastinação, que vamos adiando as tarefas, até as últimas instâncias e, vivendo esse adiar com uma espécie de angústia culposa.
Desmotivação e Incapacidade de Projeção
A pessoa vive uma desmotivação que se entranha. Além da incapacidade de nos projetarmos no futuro. Porém se não fizermos nada, isto não passa, porque isso não é uma coisa que o tempo resolva. Pelo contrário, se mantivermos a inércia, vamos continuar a definhar. A investigação científica diz que o languishing é um fator de risco para futuras situações de doença mental. Então, é muito importante identificar o que está se passando conosco. Estarmos atentos aos nossos pensamentos, emoções e comportamento. Entretanto, essa positividade tóxica que nos força a termos de estar sempre otimistas não ajuda em nada. Tudo bem não está bem o tempo todo.
Reforço das Sensações e Controles de Metas
Ter uma vida ativa, manter uma certa rotina. Criar momentos sem interrupções. Hoje um dos fatores mais importantes para a motivação e alegria diárias é a sensação de progresso, então, definir objetivos realistas e curtos, para reforçar a sensação de controle e de cumprimento de metas. Também existe a ajuda profissional especializada e daí surge a pergunta para um milhão de dólares: qual é o momento em que se percebe que essa ajuda é necessária? Como não há uma resposta universal, isso vai de acordo com a singularidade de cada caso. Para isto é preciso perceber o nível de desconforto que a situação provoca. Se começa a condicionar a vida da pessoa, a provocar um sofrimento intenso e com significado, a pessoa deve procurar ajuda. A conversa com uma escuta qualificada (psicólogo e psicanalista) é bastante organizadora e dá algum significado àquilo que a pessoa está sentindo. Também ajuda-a a compreender um pouco melhor o que está acontecendo. Afinal de contas, não deprimidos não significa que não estão com dificuldades ou em algum sofrimento psíquico. Não esgotados não quer dizer que estejamos cheios de energia. Ao reconhecermos que tantos de nós estamos num processo de languishing, podemos dar voz a uma angústia silenciosa e encontrar um caminho para sair do vazio.
Quem é Daniel Lima Gonçalves: Psicanalista, Filósofo e Teólogo.
Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF; Membro da International Sándor Ferenczi Network – ISFN; Membro Emérito – Sociedade Pernambucana de Estudos Psicanalíticos – SPEP; Estudo Permanente em Psicanálise no Instituto Nebulosa Marginal – INM; Especialista em Psicanálise e Teoria Analítica – FATIN; Especialista em Filosofia e Autoconhecimento – PUCRS; Extensão em Certificação Profissional em Neurociências – PUCRS; Pós-graduando em Ciências Humanas – PUCRS; Cursando Formação na clínica psicanalítica com adultos – CPPLRecife.
@daniellima.pe daniellimagoncalves.pe@gmail.com