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Pernambuco, 21 de setembro de 2021

Cultura

Crenças de Mãe POR BRUNO ALEXANDRE

Ninguém acredita mais em nada.” Esse é sempre a justificativa para qualquer questionamento acerca desses mistíssimos por trás desses e de outras crenças. 

Postado em 13/08/2021 2021 14:43 , Cultura. Atualizado em 13/08/2021 14:46

Jornalista , Editor Antônio José em Cultura

Bruno Alexandre
Professor e Escritor
Colunista do Jornal do Sertão

Herança de família

Ainda criança eu era terminantemente proibido de tomar qualquer coisa que envolvesse manga e leite ao mesmo tempo. Comer algo quente e abrir a geladeira? Era sentença de morte. E beber água gelada com o corpo quente?  Se te uma coisa que tenho certeza que a minha mãe herdou da minha vó nos tempos que ela morava na roça, com certeza essa coisa foi as crenças que as acompanha até hoje. “Hoje em dia o povo não teme mais a Deus, ninguém acredita mais em nada.” Esse é sempre a justificativa para qualquer questionamento acerca desses mistíssimos por trás desses e de outras crenças. 

A besta no telhado. 

O que será que um simples assovio pode causar? Para a minha mãe, a presença de um ser nada desejado. Segundo essa crença, assoviar dentro de casa é sinal de mal agouro e é interpretado como um convite para a besta. Quando eu era criança, “mainha” contava que quando se assovia na parte interna do nosso lar, o tal monstro da besta sobe em cima do telhado e faz morada ali. A história até podia parecer absurda, mas sempre tinha o vizinho de um tio distante, ou a amiga de uma prima do interior cujo sua casa já tinha virado lar para a besta, mas ninguém nunca lembrava o nome dos envolvidos para comprovar a história.

E o que essa tal de besta faz? Depois dai não tinha muita explicação, parafraseando o personagem Chicó, do Auto da Compadecida: “Não sei, só sei que foi assim.” E logo se mudava de assunto. O fato é que assoviar era terminante proibido, afinal, ninguém queria a tal besta morando no telhado, mas não para por ai. Parece que tudo que acontecia dentro de casa tinha explicação. Se um talher cair, é alguém que está chegando. Não pode varrer os pés, senão não casa. Alguém te pulou? Vai ter que voltar, isso se tu quiseres crescer. Eu sempre me perguntava de onde vinha tanta criatividade para tanta história e até hoje faço a mesma pergunta, sem beber manga com leite, claro!

 

Bruno Alexandre. Licenciado em química e professor de ciências no ensino fundamental II, em Petrolina. Conta lendas, causos e histórias sobre o sertão no tik tok e no Instagram.