Facebook jornal do sertão Instagram jornal do sertão Whatsapp jornal do sertao

Pernambuco, 21 de setembro de 2021

Economia

É o fim do poder de negociação de compradores de carros novos ou seminovos?

Durante muitos anos o Brasil teve forte crescimento na quantidade de novos veículos vendidos, principalmente entre 2006 e 2012. 

Postado em 31/08/2021 2021 17:12 , Economia. Atualizado em 31/08/2021 17:55

Economista João Ricardo de Lima Prof. da Facape de Petrolina, escreve quinzenalmente sobre Economia & Negócios para o JS.

Um período com relativo crescimento da renda real das famílias e inflação controlada, mas juros elevados. Uma grande quantidade de pessoas acabou aproveitando os longos prazos para comprar o primeiro carro. É verdade também que muitos tiveram dificuldades em quitar os financiamentos e os que conseguiram pagaram um valor suficiente para comprar dois automóveis. Por outro lado, muitos consideraram que estavam melhorando de vida no período. Em 2020, em plena pandemia, com crescimento do número de desempregados e queda da renda de muitas famílias, este setor não sentiu tanto impacto. Em Petrolina/PE, lojas relataram que conseguiram ter recordes de vendas. Possivelmente um efeito direto da fruticultura, que viveu um ano com crescimento de vendas tanto no mercado interno quanto no mercado externo. 

 

Lei da oferta e demanda

O ano de 2021 está diferente. Como boa parte de outras áreas da economia, os custos de produção aumentaram muito. Além disso, faltam peças. O setor de bens intermediários, afetado na pandemia, não tem conseguido atender toda a demanda dos setores de bens finais. A oferta cai, dada a escassez de matéria-prima e os preços aumentam tanto pelo maior custo quanto pelo desequilíbrio existente entre a oferta e a demanda. Para se comprar um carro zero quilômetro, em algumas concessionárias, a fila de espera pode chegar a 90 dias. Os preços são surreais e aumentam a cada 15 dias, em alguns casos. E isso impactou fortemente os preços dos carros seminovos, que tiveram forte crescimento na demanda. O preço de um seminovo hoje pode ser igual ou mais elevado do que o preço dele em 2018, por exemplo. O carro desvaloriza  a cada mês, inverteu a tendência e passou a se valorizar a ponto de ter seu preço nominal mais elevado do que o pago em um período anterior, desconsiderando a inflação.

E o mais interessante é que acabou o que chamávamos de negociação. Não existe mais o processo no qual o vendedor dá um preço, sem saber o preço de reserva do comprador, ou seja, quanto ele estaria disposto a pagar pelo carro, mas sabendo que irá receber uma contraproposta menor. O comprador, por outro lado, sempre fazia uma contraproposta por um valor menor que o seu preço de reserva de forma que ele poderia pagar um pouco mais do que propôs e o vendedor também reduziria até que ambos concordassem no preço do carro e o negócio se concretizasse. 

 

Dificuldade de negociação na compra

Hoje isso não existe mais. Os vendedores basicamente não aceitam negociar. É o preço que eles pedem e ponto final. “Se quiser, pague. Caso contrário, deixe o carro aí pois ele irá se valorizar ainda mais na próxima semana”, eles dizem. Com muito esforço e paciência talvez reduzam 1 mil reais se o carro for acima de 100 mil. E são indiferentes se o pagamento é à vista ou parcelado dado que para eles sempre é a vista. A financiadora, depois do crédito aprovado, deposita imediatamente o valor integral na conta do vendedor. Em suma, os compradores de carros seminovos, nos dias de hoje, estão sem conseguir argumentar para fechar negócios. O mercado está complicado para todos os compradores, sejam os de carros novos e os de seminovos. É aguardar para verificar se isto é uma bolha ou até onde irá prosseguir desta maneira. Infelizmente, mesmo com tudo isso, nós brasileiros continuamos comprando esses carros.

 

Quem é João Ricardo Lima: Doutor em Economia Aplicada. Coordenador da Pesquisa sobre a evolução da Pandemia no Vale do São Francisco realizada pelo Colegiado de Economia da Faculdade de Petrolina (FACAPE).