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Pernambuco, 22 de outubro de 2021

Bem Estar

A pane nas redes sociais e a dependência quase que umbilical delas. Por Daniel Lima

As redes sociais da empresa comandada por Mark Zuckerberg saíram do ar nessa segunda-feira. 

Postado em 06/10/2021 2021 21:54 , Bem Estar. Atualizado em 06/10/2021 22:05

Colunista

 

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @daniellima.pe

 

Para alguns foi uma maravilha, para outros, motivo de desespero e ansiedade, mas também houve prejuízos financeiros para outros. Muitos de nós criamos uma relação de dependência com as redes sociais. Muitas pessoas relataram ansiedade na ausência das redes sociais como a sensação de desamparo. Para quem se sentiu assim, o momento é apropriado para rever  a relação com as redes sociais, ou seja, a chance para mudança de hábitos em relação as plataformas. Já temos estudos e análises sobre nossa dependência em várias camadas das redes sociais, porém, na última segunda-feira (04/10/2021) tivemos a oportunidade de observar esse fenômeno é suas consequências afetivas e emocionais, econômicas, políticas, comportamentais, etc. 

 

Achei interessante um comentário de uma colega que disse

“Nossa! Foi muito boa essa paralisação das redes sociais, porque só assim,  pude conversar e almoçar com meu marido olhando nos olhos, sem ter que dividir aquele momento com o smartphone.” Também tiveram aqueles que perceberam que tem pet, família, de tão aprisionado que estava as redes sociais. Mas é curioso porque temos o livre arbítrio de excluir nossa rede social, mas não o fazemos, o que acaba manifestando um pouco de nossa dependência das redes sociais. Por exemplo, pessoas que viajam para um lugar que nunca foram, mas que  ao invés de desfrutarem da experiência estética do lugar,  priorizam tirar fotos,  no afã de publicar e conseguir curtidas e comentários. Agindo assim, perdema possibilidade de usufruir, de aproveitar aquele momento. Outro exemplo,  é quando uma família sai para jantar e ficam em suas ilhas interagindo com os que estão longe, tiram foto do prato, comida, bebida, marcam o restaurante e depois ficam respondendo os comentários das fotos. Transformando o momento que deveria ser de lazer em um momento silencioso, vazio e solitário. Isso sem falar do quão prejudicial é isso para saúde mental dos jovens.

 

O eu ideal e o ideal do eu

É muito comum observar adolescentes pensar no deveria e poderia ser, visando alcançar, supostamente,  o sucesso que uma determinada pessoa que está no Instagram representa para ele, a quantidade de curtidas, comentários, etc. Então, existe um abismo entre duas estruturas que Freud nos apresenta no texto “Introdução ao narcisismo” (1914), ele vai apresentar o “eu ideal” e o “ideal de eu”. O “eu ideal” é um resultado do narcisismo primário, ou seja, quando este bebê vem ao mundo,  ele é totalmente onipotente, com um corpo auto-erótico, as suas pulsões são satisfeitas no próprio corpo, mas também é ampliado com o desejo dos pais para o bebê, exemplo: ele vai ser um empresário bem sucedido; ela vai ser modelo.

 

 

O “eu ideal” é a base da nossa autoestima e sentimento de segurança.

Quando vemos um comportamento que não queremos para nós mesmos,  porque sabemos as nossas referências e não precisamos da validação do outro,  para poder ser aceito. Já o “ideal de eu” vem do lado de fora, muitas vezes o desejo dos pais ajuda a construir o ego do bebê, mas ao mesmo tempo,  essa imposição do sonho dos pais,  como meta a ser realizado pelas crianças, acaba sufocando a própria existência, em outras palavras, acaba sufocando a possibilidade de vir a ser. Hoje existe um anseio dos pais para que as crianças ganhem fama e reconhecimento, assim, começam a filmar vídeos engraçados e compartilham para ganharem curtidas, comentários e a criança cresce em torno destas imposições externas. Essas imposições externas diminuem o “eu ideal”, o que nós essencialmente somos e, acaba criando imposições, muitas vezes inalcançáveis. Sendo assim, tudo aquilo que eu tomo como modelo passa a ser o fator que vai validar a minha existência – “se eu comprar o produto que o(a) digital Influencer,  talvez eu me aproxime mais daquela realidade e seja feliz”. 

 

“Se eu tiver tantas curtidas na minha foto, talvez eu consiga ser feliz”. 

Tem uma série de imposições que vem de fora para dentro e vão esmagando a essência do nosso eu. Em “Luto e melancolia” (1917 [1915]), Freud vai falar das identificações narcísicas com os objetos, ou seja, pessoas só existem na companhia, na presença, misturado com  aquele objeto. Por exemplo, pessoas que ao invés de falar o nome,  diz: “sou digital Influencer com tantos seguidores”, ou “sou dono de tal empresa”. Então, como podemos perceber, existe uma fusão entre essa posição e espaço social e cultural que a pessoa ocupa, de modo que isso certifica a sua existência, mas existe aqui um conflito entre o “eu ideal” e o “ideal de eu”. Se a pessoa permite essa identificação com o objeto, com o lugar que ele ocupa, quando perde esse objeto, quando perde o lugar, ele também perde essa validação de existência e daí vem o sentimento de vazio inominável. Este foi o sentimento de muitas pessoas quando as redes sociais entrou  em colapso e saíu  do ar, muitos se perguntaram: “o que vou fazer agora se eu passo horas assistindo vídeos e vendo a vida dos outros?”. O feed de Instagram está carregado de informações e o nosso cérebro acaba tendo que se adaptar a esse excesso. Sobreviver às redes sociais  implica em sabermos filtrar o que é bom para nós e o que não é, identificando o que desperta em nós uma angústia, ansiedade, vazio e saber o momento de se afastar para não adoecer.

 

Será que precisamos esperar acontecer um apagão das redes sociais para percebermos o quanto elas são tóxicas para nós? 

Essa queda das redes sociais, embora tenha causado inquietação, também denuncia as nossas próprias formas de existência que são assinaladas e demarcadas pelo uso que fazemos delas. Atualmente as pessoas decidem por hábitos mais saudáveis, fazendo exercícios e se reeducando na alimentação quando percebem que estão muito cansadas,  quando sobem escadas, assim também devemos ser com nossa saude mental, se você percebeu uma ansiedade nesse pane das redes sociais, é sinal que precisa entender os efeitos negativos que isso está tendo sobre você.


Quem é Daniel Lima Gonçalves: Psicanalista, Filósofo e Teólogo.
Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF; Membro da International Sándor Ferenczi Network – ISFN; Membro Emérito – Sociedade Pernambucana de Estudos Psicanalíticos – SPEP; Estudo Permanente em Psicanálise no Instituto Nebulosa Marginal – INM; Especialista em Psicanálise e Teoria Analítica – FATIN; Especialista em Filosofia e Autoconhecimento – PUCRS; Extensão em Certificação Profissional em Neurociências – PUCRS; Pós-graduando em Ciências Humanas – PUCRS; Cursando Formação na clínica psicanalítica com adultos – CPPLRecife.
@daniellima.pe    daniellimagoncalves.pe@gmail.com