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Pernambuco, 13 de abril de 2024

Bem Estar

Qualidade de vida: algo cada vez mais almejado. Por Daniel Lima

O que seria ter qualidade de vida? Esta parece ser uma importante pergunta que tem gerado constantes pesquisas em sites de busca. São muitas as orientações, dicas e até aparentes receitas prontas com cinco passos.

Postado em 01/12/2021 2021 18:31 , Bem Estar. Atualizado em 02/12/2021 07:33

Colunista

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @daniellima.pe

“Viera a aprender que não se podia cortar a dor senão sofreria o tempo todo.”
(Clarice Lispector)

O que seria ter qualidade de vida? Esta parece ser uma importante pergunta que tem gerado constantes pesquisas em sites de busca. São muitas as orientações, dicas e até aparentes receitas prontas com cinco passos. Lembro que uma vez o psicanalista Jorge Forbes falou em uma aula no IPLA (Instituto de Psicanálise Lacaniana) sobre “Terra Dois” enfatizando a diferença entre “qualidade de vida” e “vida qualificada”.  Segundo ele, na maioria das vezes, ter qualidade de vida acaba significando ter um padrão e não deixa de ser um rótulo estabelecido pela sociedade, como por exemplo: acordar às 5 da manhã, fazer meditação, correr 10 km, ter uma casa na praia etc. Ter uma vida qualificada seria qualificar o que realmente é importante em sua vida e identificar o porquê isso lhe faz bem: beber um vinho à noite, rezar, ler um livro etc. Em outras palavras significa autoconhecimento. Sendo assim, o que de fato importa é ter uma vida integrada e que faça sentido. Isto significa balancear e até alternar as atividades entre criação, rotina, física, família e trabalho, de tal maneira que tudo esteja alinhado com as necessidades, os princípios e os valores de cada individuo.

Qualidade de Vida

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), qualidade de vida é “a percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. Envolve o bem estar biopsicossocial, ou seja, o bem estar espiritual, físico, mental, psicológico e emocional, além de relacionamentos sociais, como família e amigos e, também, saúde, educação, habitação, saneamento básico e outras circunstâncias da vida. Todavia, do ponto de vista psicanalítico é algo subjetivo e singular, de modo que o que é qualidade de vida para determinada pessoa pode não ser para outro membro da mesma família. Por esta razão criar cinco passos, ou até mais, falando sobre como ter qualidade de vida nem sempre funciona, pelo contrário, às vezes pode ser um meio de adoecimento a partir da pergunta: “Porque deu certo para aquela pessoa e não deu pra mim se estou fazendo a mesma coisa para ter qualidade de vida?”. Cada indivíduo a partir de suas reflexões entendendo o que se deseja e o que está fazendo que pode está reduzindo ou tirando a qualidade de vida.

Descobrir o que é qualidade de vida para si mesmo é um processo que requer tempo. O caminho trilhado por Freud na concepção dos conceitos de saúde e doença se diferencia do modo pensado pela saúde mental. Muitos querem obter a tão sonhada qualidade de vida através de medicamentos, de modo que é cada vez mais crescente o uso de psicofarmacos e quase sempre sem a orientação médica. Outros vinculam qualidade de vida a conquistas de bens, o que nem sempre é verdade, posto que a qualidade tem mais a ver com ser do que com o ter.

O psicólogo Edward Tory Higgins em 1987, desenvolveu a teoria da autodiscrepância e afirma que os indivíduos comparam seu eu “real” aos padrões internalizados ou ao “eu ideal / deveria”. A autodiscrepância é a falha entre duas dessas autorrepresentações que leva a emoções negativas. Ele descreveu três tipos de “si mesmo”: o si mesmo real (quem a pessoa é), o si mesmo ideal (como a pessoa gostaria de ser) e o si mesmo como deveria ser (que representa a identificação da pessoa com determinadas obrigações e tarefas apresentadas pelo ambiente social). Deste modo, o ambiente social tem, uma imagem de como o indivíduo é, e de como ele deveria ser, o que por sua vez pode afetar a qualidade de vida do indivíduo por querer sempre ser para um outro que nem ele mesmo sabe quem é. Isso pode até vir a comprometer a saúde mental da pessoa, por estar tão deslocada de si, o que por sua vez compromete o bem estar. Então, como diz Pitty na música “máscara”: “O importante é ser você mesmo que seja estranho, seja você”.
Portanto, se de fato e de verdade queremos ter qualidade de vida antes é preciso olhar para nós mesmo e sabermos o que desejamos e nos responsabilizarmos por este desejo. Todavia, é preciso ter cuidado para não cair numa espécie de armadilha de querer tanto esta qualidade de vida, preocupar-se tanto em querer ela, que cada vez mais nos distanciamos dela. Conhecer-se pode ser o começo do caminho, não o fim, mas pelo menos ajuda a esclarecer o que se quer e por que se quer. Então, ao invés de ser conduzido, ou conduzida, por vozes que não são suas, escute-se e assim, se realmente desejar siga, ou não, mas que seja fruto de uma decisão sua que te traga o bem estar que você tanto espera.