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Pernambuco, 24 de abril de 2024

Agronegócios

O plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta e o semiárido brasileiro

No início, a agricultura era o solo, a semente, a água e o homem. Elementos essenciais à produção agropecuária, ao apogeu e declínio de civilizações e evolução da espécie humana ao que somos hoje.

Postado em 09/12/2021 2021 21:43 , Agronegócios. Atualizado em 09/12/2021 22:59

Jornalista ,

Geraldo Eugênio Foto: Divulgação

O solo como substrato para as atividades agrícolas

No início, a agricultura era o solo, a semente, a água e o homem. Elementos essenciais à produção agropecuária, ao apogeu e declínio de civilizações e evolução da espécie humana ao que somos hoje. Não há dúvida de que desde o início o conhecimento do terreno foi fundamental ao surgimento e desenvolvimento agrícola e não é à toa que Nikolai Vavilov, o grande botânico Russo, que estabeleceu a teoria dos Centros de Origem das plantas cultivadas, soube conectar a capacidade de produção de uma sociedade e sua capacidade artística, social e cultural.

Mesmo os nossos irmãos que não viviam em Nínive ou às margens dos rios Nilo, Bramaputra ou YangTse distinguiam bem o que seria um solo fértil de um local menos qualificado ao cultivo. Ainda hoje meu primo, Nem Belo, separa muito bem o que é uma terra quente de uma terra fria. A diferença deste binômio está em tudo que se possa imaginar em termos de matéria orgânica, nutrientes e capacidade de retenção de água.

Vai aí também uma lição que jamais esqueci do Professor Rivaldo Chagas Mafra, que incentivando seus alunos a conhecerem mais sobre o que era um solo, recomendava a leitura de um livro, ainda hoje atualizado, tinha como título Geografia do Solo. Nesta pequena obra o autor deixava bem claro que a natureza usava entre 100 e 500 mil anos para formar um centímetro de solo agriculturável e que nós, por negligência ou ignorância aplicávamos métodos de agressão que levavam em um único dia de chuvas deixar erodir vários centímetros. Uma insanidade.

Conservar é importante

Na estação experimental do IPA em Serra Talhada, por um bom par de anos uma bateria de experimentos foi conduzida visando aferir a erosão dos solos do Sertão em diferentes sistemas de cultivo. Um trabalho laborioso do Prof. Elias Margolis com dois engenheiros agrônomos que continuam em atividade: o José Nunes Filho e o Antônio Raimundo. Dados preciosos foram coletados que invariavelmente levavam a um alerta quanto a fragilidade de nossos solos rasos, e nem sempre adequadamente manejados. E aí todos sabem: plantio morro abaixo, não terraceamento, aração e gradagem excessivas e outras blasfêmias contra a natureza. Não é que desde aquela época estudos intensivos foram iniciados, inicialmente nos Estados Unidos visualizando a oportunidade de se cultivar com a mínima remoção de solo, o que foi denominado entre nós como plantio direto.

O retorno à natureza

Como na natureza não há comida gratuita, como bem lembram os amigos Americanos, aquilo que no início era uma maravilha apresentava uma fatura e nem sempre pequena e que em muitos casos inviabilizada o uso das terras agrícolas, promovendo a erosão pelos ventos e pelas enxurradas. Foi descoberto que o efeito da subsolagem poderia ser feito com plantas de feijão guandú, por exemplo, e que como o solo tem vida, manter nível elevados de matéria orgânica é mantê-lo fértil, poroso e hospedeiro para milhares de microrganismos benéficos.

Primeiro viu-se que nem sempre ou quase nunca se faz necessário o uso de máquinas e implementos pesada. Segundo, que matéria orgânica é um grande recondicionador da saúde do solo e atributo indispensável para que a água disponível seja utilizada pelos cultivos, sejam grãos ou forragem. Foi aí que agrônomos como o amigo Pedro Freitas, da Embrapa Agrobiologia e colegas nossos do IPA como o Antônio Timóteo fizeram tudo que podiam para provar quão importante era não se usar os equipamentos desnecessários e incentivar o uso da palha como protetora e fundamental aos solos tropicais.

O plantio direto e a ILFP estão vencendo a partida

No Cerrado brasileiro, a área central do país, são milhões de hectares que adotam o plantio direto e a ILPF – Integração lavoura-pecuária-floresta. No semiárido a área ainda é pequena, mas aqui também se começa ver quão acertada é a conservação de parte da palhada para promover o condicionamento e melhorar a textura e a estrutura do solo, bem como promovendo o melhor aproveitamento da água e reduzindo a temperatura do solo que tanto maltrata as plantinhas que por se encontram.

Se essas práticas são saudáveis para o cultivo do milho e da soja, imaginem no caso do Nordeste Semiárido, as vantagens que implementarão às pastagens, à mandioca, ao feijão de corda e ao próprio milho. Algumas inciativas serão retomadas. Entre essas, as demonstrações de práticas que foram testadas com intensidade na região do Pajeú e que, de uma hora para outra se vêm esquecidas.

Esta equação não é difícil de ser entendida. À medida que se promove a saúde do solo, o agricultor usa uma menor quantidade de insumos e com isto se promove uma agricultura menos agressiva e mais sustentável do ponto de vista econômico. O sertanejo não sairá de sua casa ou de sua região. Chegou o momento de mostrarmos ao Brasil para o que viemos e suar tecnologias que nos aproxima da natureza, não a maltratar ou agredi-la. Uma vista aérea do nosso solo é preocupante. Nos deparamos com áreas íngremes e desmatadas sem que se saiba o fundamento da decisão, como solos nus e calcinados, voçorocas. A natureza sempre estará certa e felizes daqueles que sabem ouvi-la e interpreta seus sons. O exemplo dos pioneiros em plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta está aí para ser visto.