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Pernambuco, 23 de abril de 2024

Agronegócios

Abelhas e o mundo vegetal, uma coevolução perfeita. Por Geraldo Eugênio

A vida no planeta é única. Entre as espécies, centenas de milhares de genes são comuns.

Postado em 10/02/2022 2022 19:13 , Agronegócios. Atualizado em 10/02/2022 19:14

Colunista

Geraldo Eugênio Foto: Divulgação

Sem as abelhas poucas plantas existiriam

A vida no planeta é única. Entre as espécies, centenas de milhares de genes são comuns. No caso do homem (Homo sapiens), seu genoma tem uma similaridade de 95% com algumas espécies de macacos e, pasmem, 65% com a mosca, um valor considerável.

Isto mostra a interrelação entre as espécies em um movimento assíncrono, mas impressionante de evolução que se iniciou desde quando o Carbono, o Nitrogênio, o Hidrogênio e o Oxigênio se tornaram mais próximos e concordaram em serem tijolos nesta construção maravilhosa. A vida é tão impressionante que dificilmente alguém acredita que isto tenha se iniciado apenas como obra do acaso.

Mas o processo evolutivo não se deu apenas a partir da diversificação de uma poça de genes que se destinou a formar o reino Animal, a outra que se sentiu dona do reino Vegetal, um outro amontoado que se arvorou a fabricar microrganismos, vírus e outras formas de vida ou em transição com esta. Nada disso. Ocorreram as transações entre grupos e acertos prévios de que muitos animais dependeriam de plantas, microrganismos. E, no frigir dos ovos, uma das outras.

E aí, no desenrolar da peça, entra um conjunto especial de atrizes, as abelhas. Juraram que trabalhariam incansavelmente em coletar néctar para alimentar suas rainhas e prometeram às plantas que as acolhessem com os cálices mais coloridos e com anteras mais prolíficas, que não pereceriam. Foi assim que se deu este contrato entre plantas, flores e abelhas no mundo encantado da vida.

O mel sempre foi um condimento especial

Milhões de anos após este acerto, outros animais, inclusive o homem, descobriram que naquela casa lindamente decorada e de uma engenharia invejável, nossas amigas também produziam um líquido viscoso, adocicado e que produzia um efeito quase que anestesiante nas papilas: o mel. Nossas abelhas passaram a ser cobiçadas muito mais pelo mel, pela cera e pelo própolis do que por seu efeito encantador de permitir que as plantas, que não aceitavam cruzar entre si, pudessem receber o gameta masculino de uma outra flor, transportado por esta operária dedicada, no magnífico processo de polinização.

É onde se consegue perceber quão frágil a nossa memória e tão logo a foice e o machado foram inventados, além de serem úteis nos afazeres domésticos passaram a ser fartamente empregados no corte das árvores. A natureza está cobrando sua parte e não é à toa que além dos desastres naturais frequentes, o operador do machado, em alguns momentos tem parado e lembrado de quão saboroso era o mel, especial era a própolis na cura de várias enfermidades, útil é a cera produzidas nas colmeias e que centenas de outros produtos estão associados à apicultura e meliponicultora, ou criação de abelhas sem ferrões, as nativas.

Os guardiães da caatinga

Com o mel em alta e sendo mais demandado a cada dia que passa, a inteligência volta pouco a pouco a funcionar e o homem nota que sem flores não se produz mel e sem plantas não há flores. Uma outra constatação é a de que sem as abelhas sãs e produtivas não há de se contar com o mel que todos apreciam. Resultado disto tudo, há uma retomada da consciência coletiva em defesa do conjunto, tendo como no pico da nossa pirâmide, a rainha, a abelha.

A caatinga, já foi comentado aqui, ainda conta com aproximadamente 55% da cobertura vegetal. Isto é, 45% ou quase a metade já se tornaram lenha, carvão, escoras, estacas, móveis. Ainda hoje, em Pernambuco, se encontra regiões especializadas na produção de carvão vegetal. Lembrando que com a elevação descontrolada do preço do gás de cozinha, este passou a ser mais utilizado. Não há dúvida que o que naquele ambiente o que falta é um programa de educação ambiental mostrando quão mais valioso do ponto de vista financeiro é se contar com a caatinga em pé e com as nossas operárias em pleno emprego.

Vamos trabalhar juntos

Já que está demonstrado por “a + b” de que a apicultura e a meliponicultora são grandes negócios, podendo ser mais bem valorizados e encaixar-se na vida econômica da população do semiárido de modo ainda mais contundente chegou a hora da nossa contribuição em defesa não apenas do meio ambiente e das abelhas, o que por si só é algo nobre, mas em prol de uma vida mais digna para o nosso homem do campo.

Além de associações, cooperativas, produtores isolados, beneficiadores e comerciantes, as instituições demonstram haverem sido despertadas e uma tendência positiva é sentida em defesa do trabalho conjunto, cooperativo e onde cada um possa assumir sua função respeitando a particularidade do próximo.

Que este embalo não passe de modismo, que seja algo consistente e que os participantes da peça permaneçam fiéis ao roteiro em que os objetivos permaneçam claros: a delícia do mel, a importância farmacológica da própolis, o valor da cera, a beleza da caatinga e a sinfonia de nossas abelhas. O futuro dirá se esta geração foi sábia ou inepta. Apesar dos desencantos, vamos apostar na primeira opção degustando em uma rica cartola, um fino mel de angico.