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Pernambuco, 24 de abril de 2024

Agronegócios

Será que todo leite é branco? Pode ser ainda mais. Por Geraldo Eugênio

No semiárido não se conhece um pequeno produtor que não conte com uma vaca de leite ou quem não gostaria de ter. O diminuto rebanho faz parte da família.

Postado em 17/02/2022 2022 19:30 , Agronegócios. Atualizado em 17/02/2022 17:44

Colunista

Geraldo Eugênio, Engenheiro Agrônomo


Pecuária de leite, uma cumplicidade sem igual

No semiárido não se conhece um pequeno produtor que não conte com uma vaca de leite ou quem não gostaria de ter. O diminuto rebanho faz parte da família. Vive ao redor da casa e em muitos casos o curral fica ao lado. Do outro lado da janela. As vacas têm nomes, a bezerrada também. Quase sempre atribuídos ao nascer como presente aos filhos do casal.

Na realidade, dependendo da região, a vaca e a cabra são os bichos de estimação do meio rural. Lá, os cães não contam com o luxo da cidade e, com todo respeito, se contentam em aceitar os bichos e criações como primeiros na hierarquia do carinho bruto. Aquele desenvolvido desde que o homem domesticou a vaca e descobriu quão importante era o leite na sua alimentação.

Uma breve análise do pós-seca

Não é à toa que se há de encontrar produção de leite em todos os municípios de Pernambuco, até na minúscula área de Recife. Já não se contam com as vacarias que por anos a fio eram responsáveis pela maior parte da produção e venda do leite. O caso é que, durante a seca que ocorreu na maior parte do Nordeste entre 2012 e 2018, alguns estados sofreram bem mais que outros. O Ceará, por exemplo apresentou variações mínimas e ao chegar ao final do período conseguiu apresentar produções superiores ao início da seca. Pernambuco não teve um comportamento similar sofreu uma queda drástica de produção em 2013 e 2014, somente retornando a crescer a produção a partir de 2015. Atualmente produz algo similar ao que produzia em 2011.

Mesmo a produção de leite havendo recuperado seu volume, o produto se encontra em dificuldade. Os preços não têm respondido, até diminuído nos últimos meses enquanto os insumos não param de crescer. Logo a margem de lucro, se é que existe, a cada dia é mais restrita.

O produtor à deriva

Para que se possa apoiar o nosso pecuarista, algumas medidas podem ser sugeridas. A primeira é rever a legislação que permite a importação quase que indiscriminada de leite em pó, em outros mercados por parte das indústrias. Foi uma conquista do setor industrial em 2013, mas que não cabe mais em 2022. Um segundo ponto é revisar a política de apoio, via incentivo a produção de alimentos e melhoramento genético para os pequenos e médios produtores. Neste estado é plenamente sabido por quem lida com o setor a contribuição dada a pecuária leiteira de Pernambuco e Alagoas pela disponibilidade de tourinhos e novilhas do rebanho Holandês da Estação do IPA em São Bento do Una. Atualmente a situação do rebanho e da Estação Experimental de São Bento e das demais que contam com atividades ligadas à produção de leite, a exemplo de Arcoverde, Serra Talhada e Sertânia, no caso dos caprinos e ovinos, é questionável. Com isto, os rebanhos minguam, diminuem ano a ano e a probabilidade de fornecimento de material genético de qualidade é cada vez, menor. Um outro caso estranho é o programa de pesquisa com palma forrageira.

É sempre bom lembrar que este conjunto de espécies constituem as mais estratégicas plantas no semiárido e o IPA, em Arcoverde, conta com dois tesouros: o banco de germoplasma e o programa de melhoramento. Merecem maior atenção e apoio. Vale salientar que se não houvesse este trabalho há quatro décadas talvez ainda não tivéssemos a identificação de materiais tolerantes à cochonilha do carmim como é o caso da palma orelha-de-elefante mexicana. Vários exemplos de intervenção pública podem ser citados, mas o que fica claro é que o produtor se sente ao relento.

Redução de produtores e aumento de produção

Alguém pode dizer, mas é isto que ocorre em todo o mundo. A cada dia pequenos produtores saem do negócio, finalizam com seus rebanhos e partem para outras atividades. É verdade. Mas não significa que se cruze os braços quando a principal atividade econômica do agronegócio do estado esteja sob risco. Antes imaginava que isto somente valia para o semiárido, hoje não, há levantamentos que mostram que ao se mensurar o ativo e os investimentos na exploração pecuária, o setor ultrapassa em valor bruto setores tradicionais como o sucroalcooleiro e a fruticultura irrigada.

O problema é que ele não tem uma história secular nem é grife para as revistas e programas de TV mas quem anda no estado de leste a oeste sabe muito bem quão importante é a pecuária para a Zona da Mata, onde engenhos de cana se transformam em fazendas de gado e no Agreste e Sertão, regiões em que a produção de carne e leite se confunde com o desbravar da caatinga e a formação da maioria das cidades e vilas.

O leite é o símbolo da vida

Por último não poderia deixar de tocar em um assunto espinhoso. A crítica que alguns segmentos fazem ao leite como alimento e dos riscos de seu consumo. Quando ouço algo me vem sempre a memória as hordas de Gengis Khan, os turcomanos deslocando-se da Ásia Central para construírem o império Otomano ou os Búlgaros com sua fama de haverem dominado a arte da produção de coalhada e queijo. São poucas as civilizações que cresceram sem apreciar o leite. Somente aquelas que não havia conseguido conviver com animais domesticados. A evolução da raça humana deve muito aos lácteos e, creiam, não é agora que o leite passará a ser a ameaça à saúde e ao bem-estar. Os ovos sofreram o pão que o diabo amassou, até que conseguiu-se provar os efeitos positivos de seu consumo.

Não há bola de cristal, mas certamente em breve esta história terá uma outra versão e o consumo do leite, do queijo, da manteiga, do iogurte, da coalhada crescerão de consumo, como deve ser e assim aquele que convive com seu par de vacas ou meia dúzia de cabras terá seu produto mais consumido e mais valorizado.