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Pernambuco, 18 de maio de 2024

Bem Estar

Freud e a Guerra Por Daniel Lima

“[…]Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.”(Sigmund Freud, Por Que a Guerra? – Setembro de 1932)

Postado em 09/03/2022 2022 15:21 , Bem Estar. Atualizado em 09/03/2022 15:23

Colunista

Daniel Lima – Teólogo, Filósofo e Psicanalista/GBPSF/ISFN. @daniellima.pe

 

Temos visto nas mídias sociais e, meios de comunicações as tristes imagens do sofrimento desta guerra entre Rússia e Ucrânia. Por outro lado temos visto também diversos protestos clamando pelo fim da guerra. Enquanto isso, muitos moradores correm para os abrigos a fim de se proteger, por outro lado muitas pessoas partem em retirada deixando sua pátria sem saber quando regressará. O número de refugiados já passam 1,5 milhões, uma verdadeira tragédia humanitária.

Freud escreve em 1915 suas “reflexões para os tempos de guerra e morte” e nesta altura ele está em sua plenitude intelectual e clínica. Com a ausência forçada dos clientes de seu consultório por causa da guerra (Primeira Guerra Mundial, 1914-1918). O criador da psicanálise consegue tomar distância do que está acontecendo a seu redor e em 1915 encontra tranquilidade para elaborar suas considerações sobre a guerra e a morte, exatamente um ano depois de ter começado a Primeira Guerra Mundial. As mulheres tinham ensinado ao criador da psicanálise a escuta clinica, porém a guerra e o câncer no maxilar o ensinam o mais profundo da vida, aquilo que nos constitui humanos, as duas pulsões fundamentais: vida (Eros) e morte (Thânatos).

Campo de batalha

A cegueira intelectual que levou o mundo a se confrontar num campo de batalha é produzida pelos afetos, transformando o “diferente” num “inimigo”. Aqui temos a ambivalência dos sentimentos. Esta ambivalência começa nos primeiros relacionamentos e permanece vida a fora constituindo uma mistura de amor e ódio, ou seja, o amor não é quimicamente puro, do mesmo jeito o ódio. Eles caminham juntos!

A nossa atitude perante a morte poderiam ser sintetizadas mais ou menos assim: vivemos de costas para a morte, a guerra nos defrontou com ela. Freud, então se pergunta: qual era a atitude dos antigos perante a morte? E logo surge a resposta: era uma atitude contraditória, levava a morte a sério e, ao mesmo tempo, negava esta morte. É esta mesma atitude que está no homem civilizado, no inconsciente inexiste “uma representação da própria morte” e ao mesmo tempo a guerra nos transforma num “bando de assassinos”, como os homens primitivos. Freud fecha o texto dizendo: “se queres aguentar a vida, prepara-te para a morte”.



Freud, porém, escreve outro texto e este precede a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em um trecho ele diz: “Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? […] A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade”.

Albert Einstein foi um grande físico, mas também um pacifista atravessado pelas guerras mundiais, ele reuniu um grupo de grandes homens a convite de um projeto chamado Liga das Nações (que é a precursora da ONU) para pensar a paz na humanidade. Então, ele entra em contato com Freud via carta, e este por sua vez escreve uma carta resposta. O “Por que a guerra?” (1932) é composto por duas cartas de Einstein para Freud e, de Freud para Einstein. Nele, Einstein pergunta a Freud: o senhor que conhece tanto a alma humana, que contribuição o senhor poderia dar sobre como podemos evitar a guerra, como podemos manter a paz, como podemos criar pacifistas neste mundo atravessado por guerras horríveis? Freud recebe a carta e responde que há um quantum de agressividade em cada humano que impede esse projeto pacifista.

Freud com a humanidade

É curioso notar como esse aparente desgosto de Freud com a humanidade pode ser facilmente comprovado na história humana, não existe nenhum período na história da humanidade na qual a paz vingou de maneira uniforme por todo planeta terra. Freud dizia que a busca pelo poder se anelava com a violência, quer seja nos homens das cavernas ou nas civilizações mais avançadas com as leis e principalmente com as leis internacionais. Neste sentido, Freud se dar conta de que talvez uma única perspectiva para que o homem deixe este aspecto bárbaro um pouco mais para traz, seria a imediata assunção do que Freud chama de civilização.

Quanto mais civilização menos barbárie, porém, ainda assim Freud se dar conta de que a pulsão de morte sempre existiu, sempre existirá e, o ser humano de alguma maneira a acolhe dentro de sua lógica pessoal, ou seja, o ser humano não consegue se livrar dela porque ela leva a uma ausência de tensão, em outras palavras, ela leva a morte. A guerra também leva a morte, ou seja, talvez aqui resida uma reflexão importante: Se a guerra é tão ruim, por que os seres humanos continuam a guerrear até os dias de hoje? Parece-me que é um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência, isso não quer dizer são assim.