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Pernambuco, 21 de fevereiro de 2024

Educação

A Caatinga e seu potencial para indústria de cosmético e medicamentos fitoterápicos

Em um dos trabalhos publicados, “Bioprospecção de plantas da Caatinga com potencial para produção de fitomedicamentos”  ressalta-se logo na introdução que a  Caatinga tem sido apontada como o bioma brasileiro mais crítico no que se refere à conservação, sendo um dos mais ameaçados e alterados pela ação antrópica, o que coloca inúmeras espécies em risco de extinção.

Postado em 01/03/2023 2023 21:31 , Educação. Atualizado em 01/03/2023 21:33

Jornalista ,

 

 

Como já dissemos em outras oportunidades aqui nesse espaço, o bioma Caatinga é resiliente e biodiverso. Suas riquezas estão aí para serem exploradas de forma sustentável e responsável.

Comunidades do Semiárido nordestino já contribuem para diversificar a economia do bioma exclusivamente brasileiro, seja por meio da agricultura familiar com cultivos de grãos, plantas, flores e frutos, mas ainda de forma não escalável.

Pesquisas de médias e grandes indústrias de cosméticos e fitoterápicos vêm sendo desenvolvidas para extrair fragrâncias exóticas e para fins medicinais.

Algumas dessas pesquisas vêm sendo acompanhadas de perto pela Embrapa Semiárido e o Instituto Nacional do Semiárido (INSA) que, inclusive, possuem trabalhos científicos sobre a biodiversidade das espécies da região, identificadas como promissoras para produção de fitomedicamentos no território do Sertão do São Francisco, nos estados de Pernambuco e Bahia.

Conversamos com Lúcia Helena Piedade Kiill, pesquisadora e doutora em Caracterização de Ecossistemas e curadora do Herbário do Trópico Semiárido (HTSA) da Embrapa Semiárido, para nos atualizarmos das pesquisas em curso na Caatinga a cerca de plantas com potencial no futuro na indústria. 

Em um dos trabalhos publicados, “Bioprospecção de plantas da Caatinga com potencial para produção de fitomedicamentos”  ressalta-se logo na introdução que a  Caatinga tem sido apontada como o bioma brasileiro mais crítico no que se refere à conservação, sendo um dos mais ameaçados e alterados pela ação antrópica, o que coloca inúmeras espécies em risco de extinção.

‘Considerando esse potencial como fonte de recursos terapêuticos e econômicos, tornam-se cada vez mais importantes, pesquisas voltadas à bioprospecção, com a correta identificação e comprovação das propriedades medicinais das plantas nativas da Caatinga, além do estabelecimento de ações voltadas à sua domesticação.

A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), estabelecida pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde ressalta a importância de trabalhos nesta área, como forma de garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, além de promover o uso sustentável da biodiversidade e o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional neste segmento’_.

Mercado 

A demanda é grande para plantas nativas da caatinga, seja voltada ao cultivo por pequenos e médios produtores como o umbu, araçá, aracatu, mandacaru, macambira, grãos parentes do feijão, como também em pesquisas de porta-enxertos, como a araçá. As mudas do porta-enxerto BRS Guaraçá, inclusive, já estão sendo comercializadas por viveiristas credenciados pela Embrapa, em Petrolina (PE) e Casa Nova (BA). 

Potencial II

Além dessas pesquisas da Embrapa e do INSA no Semiárido nordestino, Lúcia Helena também enaltece o potencial para o mercado de plantas ornamentais da Caatinga. “Há mercado e a demanda é grande. Mas, ainda sem escala, até porque existe uma legislação que deve ser respeitada em prol da conservação das espécies”

Aqui sugerimos para vocês o livro “Plantas Ornamentais da Caatinga” escrito pela especialista e outros dois autores: Daniel Terao

Engenheiro-agrônomo, doutor em Fitopatologia, pesquisador da Embrapa Semiárido, Petrolina, PE e Ivan André Alvarez, Engenheiro-agrônomo, doutor em Fitotecnia, e também pesquisador da Embrapa Semiárido, Petrolina, PE. 

Incrível, a riqueza, beleza e astúcia da natureza catingueira, tão bem descrita pelos autores e revelada em fotos surpreendentes das plantas ornamentais made in Caatinga.

Divulgação

Para a especialista existe ainda uma lacuna de conhecimento por parte da população em geral acerca das riquezas nativas do bioma. 

“Além da flora, temos espécies de animais únicos que fazem seu devido trabalho de preservar a natureza. Avalio que o próprio sertanejo desconhece tais riquezas. Faz-se necessário um trabalho profundo de educação ambiental nas escolas. Já estamos num patamar positivo com algumas iniciativas, mas é preciso avançar mais”, pontua.

Projeto L’Occitane Brasil

Uma das iniciativas que ganhou o mundo foi realizado pela empresa franco-brasileira do Grupo L’Occitane que mantém, desde 2019, um projeto na Bahia por meio de uma parceria entre a COOPERCUC (Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá) e um produtor conhecido como Alcides Peixinho, ou simplesmente “seu Peixinho” na cidade de Uauá para produção de mandacaru. 

A linha Mandacaru, da marca franco-brasileira, é toda produzida por matéria prima cultivada em solo do sertão baiano. O mandacaru é um cacto comum na Caatinga e possui uma capacidade grande de armazenar água. Seu fruto é utilizado em preparações fitoterápicas para tratar problemas de pele como inflamações e queimaduras.  E seu óleo extraído das sementes do mandacaru tem propriedades emolientes e antioxidantes, sendo utilizado em produtos cosméticos para pele e cabelo.

O trabalho da COOPERCUC é reconhecido pela sua presença nos mais variados mercados, levando produtos do bioma da Caatinga para fora do Brasil e garantindo condições de vida a centenas de famílias no semiárido nordestino.

Além do Mandacaru

Outra planta bastante conhecida dos sertanejos é a Catingueira. Suas folhas e casca são utilizadas em preparações fitoterápicas para tratar problemas de pele como dermatite e psoríase. 

Do Juá, fruta rica em vitamina C por suas propriedades antioxidantes, extrai-se seu óleo a partir das sementes e também vem sendo usado pela indústria de cosméticos. 

A aroeira, outra árvore encontrada em diversas regiões da Caatinga, tem nas suas folhas e casca utilizadas em preparações fitoterápicas para tratar problemas de pele como acne e dermatite.  Assim como o Juá, o óleo extraído das sementes da aroeira tem propriedades emolientes e hidratantes, sendo utilizado em produtos cosméticos para cabelo e pele.

Então é isso.

O recado que queremos deixar é que apesar da riqueza e da biodiversidade da Caatinga é preciso que o uso de suas espécies seja feito com cautela, de forma sustentável e responsável, a fim de preservar a biodiversidade do bioma. 

Inclusive, durante nossa conversa com a especialista da Embrapa Semiárido, Lúcia Helena Piedade Kiill, ela fez uma observação interessante sobre os grandes empreendimentos de usinas solares e eólicas que chegam no Sertão. 

São bem-vindos, pois trazem oportunidades para a região além de contribuir com a mudança para uma matriz energética sustentável, entretanto, a Embrapa vem dialogando com tais empreendimentos sobre possíveis efeitos na conservação da vegetação do Bioma. Mas, essa pauta fica para uma outra conversa aqui na nossa coluna no JS.

Até a próxima.

 

Sugestões: lucianacarneiroleao@gmail.com