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Pernambuco, 26 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Como gerir as secas? Há saídas?

  Ela é a irmã imprevisível. De repente bate à porta. As previsões de chuva, ao que parece, estão sendo confirmadas e divulgadas por alguns institutos de meteorologia prevendo   uma intensificação do fenômeno La Niña, a partir de abril de 2023 e, consequentemente um maior risco de precipitações abaixo da média para o semiárido. Apesar […]

Postado em 02/03/2023 2023 20:30 , Agronegócios. Atualizado em 02/03/2023 18:50

Colunista

 

Ela é a irmã imprevisível. De repente bate à porta.

As previsões de chuva, ao que parece, estão sendo confirmadas e divulgadas por alguns institutos de meteorologia prevendo   uma intensificação do fenômeno La Niña, a partir de abril de 2023 e, consequentemente um maior risco de precipitações abaixo da média para o semiárido. Apesar das boas chuvas ocorridas nos meses de novembro e dezembro de 2022 e na primeira quinzena de janeiro, desde então não se conta com chuvas fortes e que apontem para recuperação dos volumes das fontes de água e, consequentemente de águas superficiais ou profundas.

Os boletins têm informado que a nossa conhecida seca poderá se fazer presente e para isso, ações de preparação à sua chegada devem ser tomadas. Valendo aí do acúmulo e racionamento das águas disponíveis, o melhor uso das plantas forrageiras ou até o gerenciamento do tamanho do rebanho. A seca não se instala do dia para a noite, mas emite seus avisos que vão chegando e, em muitos casos não são levados em consideração.

Como se dá a gestão das secas?

Em nosso Semiárido quem relatou muito bem as idas e vindas na gestão de recursos durante as secas foi o Professor Humberto Barbosa, em um livro que mostra como se deram as escolhas e opções técnicas e políticas durante os últimos cem anos. Há uma diferença gritante entre estados, períodos, instituições e atores. Uma questão é cristalina: o estado do Ceará foi aquele que mais avançou quanto a gestão das águas, a infraestrutura e ao aparato de normas e procedimentos que seguem rigorosamente há aproximadamente trinta anos.

Na maioria dos casos, as políticas relacionadas a gestão de secas são pulverizadas entre ministérios, autarquias, empresas em seus diversos níveis e, quando a situação se encontra em momentos críticos, em comitês, normalmente efêmeros, para contribuir com a gestão de algo permanente.

Ocorreram avanços, mas mesmo no último período de secas, entre 2012 e 2018, foi comum se deparar com gestores de governo de estado ou ministérios cantando loas aos números de carros pipas que estavam locados por município, ou região com um mapa político sobressaindo-se às necessidades da população.

Foi instituída a ANA – Agência Nacional de Águas, inicialmente direcionada a trabalhar com a gestão dos recursos hídricos. Recentemente incorporou às suas atribuições o saneamento urbano, que aparentemente se tornou mais atrativo para a casa uma vez que deixou de dialogar com as cidades do interior, os distritos e vilas ou até mesmo com a população difusa do mundo rural, para sentar à mesa das empresas internacionais de saneamento que não têm medido esforços e dólares para adquirirem os serviços de gestão de águas e esgotos, a exemplos das parcerias estabelecidas pela Compesa ou da venda da Casal ( Alagoas), por valores exorbitantes.

Será que pode ser diferente?

No caso das secas, pode ter algo distinto do que se vê? É melhor apostar que sim. Primeiro as secas, historicamente, atingem de forma mais aguda o Semiárido nordestino, logo qualquer aprendiz de gestão dirá que se há alguma entidade ou órgão a gerir os esforços de previsão, preparação, mitigação e recuperação deve estar localizado não apenas no Nordeste, mas em uma cidade no centro do semiárido. É importante esquecer em definitivo de que haverá um maior esforço na solução do problema a partir de gestores, por melhores e mais capazes que sejam, que não conheçam e convivam com o fenômeno.

Esta foi a opção de alguns países, a exemplo de um que sempre é citado em qualquer discussão sobre o tema, os Estados Unidos da América, em uma dimensão geográfica equivalente ao Brasil. A tendência brasileira é outorgar à uma instituição como a ANA, que a partir de Brasília “tomará conta do problema”, o que não parece a melhor opção devido à complexidade regional e a necessidade de imersão no problema, o que não será feito à distância.

Somente a partir do uso racional dos recursos humanos e da rede entre instituições de pesquisa, ensino, governos estaduais e federais e, não menos importante a clientela, aqueles que vivem nesse ambiente.

Que se aposte na tecnologia e na organização da sociedade

É importante também deixar bem claro que não dá para tentar emplacar o discurso do pobrezinho, esquecido, maltratado que perdurou durante séculos e foi fundamental na construção do patrimônio político de dezenas de oligarquias na região.

O Semiárido brasileiro é uma região com uma ampla rede de distribuição de água completa ou a completar, com estradas pavimentadas em toda sua extensão, com energia em quase todas as habitações do campo, com acesso à internet, à energia renovável, contando ainda com uma centena de instituições de ensino superior instalado nos municípios da região.

O que se esperar de 2023

Primeiro que não se insista em que as soluções recomendadas sejam o crédito fácil, o incentivo à inadimplência e a prorrogação ilimitada dos empréstimos concedidos por bancos públicos. A ânsia em querer convencer a população que em não havendo milhares de carros pipas distribuindo uma água nem sempre de boa qualidade o apocalipse estará à porta e que a se justifique a passagem da boiada, permitindo que municípios e governos estaduais sejam isentos de qualquer responsabilidade fiscal.

 

Testemunha-se o quinto ano de estações chuvosas acima do que se considera médio para a região. É importante que se inicie um processo de preparação para o próximo período de seca numa visão de médio e longo prazo, aproveitando-se da melhor maneira o patrimônio social e o conhecimento acumulado na região.

 

1Professor Titular da UFRPE-UAST