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Pernambuco, 29 de fevereiro de 2024

Agronegócios

O cultivo de frutas, hortaliças e ornamentais levará o Nordeste ao futuro

O Ceará ao final do século XX

Postado em 23/03/2023 2023 20:38 , Agronegócios. Atualizado em 23/03/2023 20:38

Jornalista ,

 

 

O Ceará ao final do século XX

Na última sexta me desloquei de Serra Talhada à Fortaleza para participar de um evento, em sua sexta edição, o Seminário Água Innovation 2023, uma iniciativa que traz uma leitura não convencional, com um público tendo como protagonista principal o agricultor empresários propensos a riscos e a mudanças.

Uma jornada iniciada em 1999, quando o governador Tasso Jereissati decidiu criar a Secretaria de Agricultura Irrigada e buscar um executivo na AJE – Associação de Jovens Empresários Ceará para liderar este desafio, o Sr. Carlos Matos.

Uma jogada de risco equivalente ao avanço no jogo de xadrez dos dois cavalos e dos dois bispos no campo adversário nas primeiras dez jogadas. Quase um tudo ou nada, com maiores chances de o caldo entornar e reconhecer que a vida continuaria como sempre foi e ter que admitir, em condições semiáridas, que o melhor era se contentar com os danos produzidos pelas secas, a migração do sertanejo e as políticas de erradicação da fome e da miséria. Ações tão importantes para a sobrevivência da população humilde, mas, com um horizonte de crescimento pouco consistente e lento, que não mudaria o cenário de incertezas ao qual um Ceará, com noventa por cento de seu território imerso no semiárido, estaria subjugado para sempre.

A produção de rosas na Ibiapaba,  uma vitória memorável

O secretário conseguiu convencer o governador de que a tecnologia seria a grande parceira para uma mudança disruptiva para o agronegócio local.  A partir desse pacto, aceitou o desafio e foi buscar técnicos que se destacavam no estado e em outras regiões do país, iniciou uma série de contatos com instituições de tecnologia agropecuária e inovação avançadas de modo rápido, como é seu costume, elaborou seu plano estratégico, e saiu aceleradamente em busca de construir as bases que permitisse alcançar os objetivos propostos.

O próximo passo foi convencer alguns empresários locais da viabilidade deste projeto de médio e longo prazos e, como ponto de inflexão, identificar e convencer investidores de outros estados brasileiros a apostarem no Ceará, a partir de um trabalho que mostrou suas potencialidades: logística, localização geográfica em relação ao mercado exterior, um plano de recursos hídricos que garantiria volumes consistentes e confiáveis de água e, mais ainda, a disposição para saltar barreiras.

O exemplo mais marcante desta série de ações foi a atração de alguns produtores que deixaram Holambra, em São Paulo, se decidiram por produzir rosas vermelhas na Serra da Ibiapaba. Uma miragem que em pouco tempo se tornou realidade e em menos de cinco anos, rosas eram embarcadas em direção ao exterior. O Ceará passou a ser o segundo maior produtor e exportador de rosas do país. Ao longo das últimas duas décadas construiu um mercado local e, hoje, uma fração substancial de sua produção é destinada às principais cidades do Nordeste e outras regiões do país. Cita-se o exemplo das rosas, mas não poderia deixar de registrar o que foi feito com culturas como a banana, o melão e várias espécies hortícolas.

Israel e Colômbia como referências

Dois países foram tomados como referência. Israel com sua capacidade reconhecida de produzir sob condições secas, pouca água e elevadas temperaturas. Algumas missões de técnicos e empresários foram organizadas e o deserto de Neguev, se tornou uma referência para o Ceará. No caso das rosas, o contato com os produtores de Holambra foram fundamentais no sentido de identificar um país que aportaria uma base tecnológica diferenciada ao cultivo de rosas em ambientes tropicais, a Colômbia. De lá vieram as primeiras mudas, os primeiros sistemas de produção, insumos e alguns técnicos que elegeram o estado do Ceará como sua casa, permanecendo até hoje.

O cultivo protegido ganha força

O interessante dessa história é que para o Água Innovation 2023, um workshop sobre cultivo protegido foi organizado. Durante a manhã de ontem, ao redor de sessenta empresários, a maioria técnicos, consultores e formuladores de políticas se debruçaram sobre os passos a serem dados de modo a consolidar o cultivo protegido, sob condições de estufas, telados, túneis plásticos na produção de frutas e hortaliças.

Algumas empresas já se consolidaram como produtores, entre essas as empresas Reijers, Trebeschi, Fazenda Santo Expedito e várias outras na região da Ibiapaba, no maciço de Baturité, no Vale do Jaguaribe, chegando ao Cariri, ao sul do estado.

Há uma expansão em curso em direção ao cultivo protegido. Do workshop, desafios foram identificados e servirão de base para uma agenda de trabalho contínuo durante o ano de 2023 de modo que ao se reunir no próximo ano, os avanços nas soluções sejam metrificados e as questões que não puderam ser tocadas de modo devido sejam revistas e tomadas e formuladas outras estratégias.

O fato é que, o que se vê no estado do Ceará nos últimos vinte e quatro anos não é comum. O estado superou os efeitos do último ciclo de secas sem desespero, várias de suas cadeias produtivas até cresceram, a exemplo da produção de leite e derivados. A pandemia causou danos maiores, várias empresas pereceram mas aos poucos foram superando, redefinindo-se, modernizando-se e a roda da fortuna voltou a girar.

Com o cultivo protegido não será diferente. Não se espere daqui em pouco tempo se contar com um mar de telados e estufas, como em Almeria, mas com certeza em menos de uma década o estado será reconhecido como um dos mais importantes centros de produção de tomate salada e tomate cereja no Brasil. E aí, outras hortaliças, frutas e ornamentais crescerão juntas. Que esta iniciativa encampada como estratégica pela iniciativa privada seja motivo de exemplo para outros estados do Nordeste. Vale a pena ver o que o futuro nos trará.