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Pernambuco, 29 de fevereiro de 2024

Educação

CONCURSO EM FOCO

A banalidade do mal

Postado em 10/04/2023 2023 20:00 , Educação. Atualizado em 10/04/2023 18:36

Jornalista ,

 

Termo cunhado por Hannah Arendt, “a banalidade do mal”, reflete um tempo em que é possível que ocorram trágicos acontecimentos sem que as pessoas os sintam com a devida gravidade que têm; como os do dia 05 de abril, em  Blumenau, e o que ocorreu em Teodoro Sampaio há cinco dias: assassinatos cruéis, cujas motivações são inconcebíveis a qualquer pessoa que tenho o mínimo de prumo moral. Justamente aí seu perigo, pois há que se refletir muito sobre os fatos, porque se chegou à hecatombe do que se tem por lastro moral da sociedade ocidental.

Primeiramente, meus sinceros sentimentos às vítimas, como pai me solidarizo com a dor dos que perderam seus filhos em tão tenra idade de maneira absurdamente torpe. Parafraseando, Belchior, nem um canto é maior do que a vida de qualquer pessoa. Dessa maneira, eu já adianto que não gostaria de me deparar com o fenômeno de violência que assola minha geração, tendo que o estudar de forma orgânica, ou seja, dentro do objeto de estudo.

Como professor, digo que chegamos ao limite do estresse, eis que, pelo que se pode ver nas últimas semanas, lecionar é nos dias autuais no brasil é correr risco de vida. Como policial sinto que entramos em contato com um tipo de crime que necessário treinamento especializado para combater e, como jurista e estudioso da criminologia, que existe a necessidade de rever a forma como tratamos fatos como esses, que ultrapassam a medida do escândalo, mesmo se comparados com os abjetos crimes hediondos.

Quando me referi aos estudos de Arendt sobre a banalidade do mal, termo cunhado pela filósofa  para se referir aos horrores de proporções globais ocorridos entre 1939 e 1945,  quis traçar um  paralelo com os episódios de extremo desrespeito com a vida humana que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial e os Violence spike (picos de violência) de contemporaneidade que são  crimes altamente violentos (como os que citei no início da matéria) fora da curva da criminalidade, cometidos por indivíduos que não estão sob ordem ou influência direta de grupos paramilitares ou terroristas. Assim, percebe-se que a ligação entre eles e os eventos assassinos da segunda grande guerra não é a motivação dos homicídios – vai mais além – é o não  comprometimento com a vida humana, é matar alguém sem perceber o outro como um ser humano, é: “ banalidade do mal é um mal que virou comum de ser praticado.”, conforme sintetizado o pensamento de Hannah Arendt pelo professor da SEC/BA, Dirlêi A Bonfim.

Ao tornar o mal algo corrente se retrocede ao que se enxerga sobre direitos e garantias fundamentais,  abrindo-se espaço para que se expanda o desrespeito ao princípio da dignidade humana, introjecta-se bordas mais folgadas para o que se tem como aceitável  no trato do outro, possibilitando que se forma a consciência coletiva de uma geração que aceite atos abjetos com mais naturalidade, pois  conforme teorizou Émile Durkheim, 2010, crimes como esses serão aceitos sem maior crivo da consciência do ato em si, pois já se tem um “conjunto de crenças e de sentimentos comuns para os membros de uma mesma sociedade”, neste caso, que se calejaram com atos borderlíneos à barbárie.


 

 


O grande perigo disso é, conforme Hengel, o estabelecimento de uma alteridade subjetiva em que se oponha  a empatia do homem com seus pares, tornando-lhes esse conceito sintético, artificial em relação ao que se tem por moralidade, e, por isso mesmo emergente nas resoluções da autoconsciência sobre o fenômeno e sua interpretação pelos mecanismos de freio naturais ao ser humano, viabilizando ao indivíduo o desconhecimento do ser humano como igual, o que nos coloca, conforme dito por André Oliveira Costa, 2008 no conceito dedutivo que a unidade leva à diferença (a unidade leva a supressão de heterogeneidade):  “A Filosofia de Hegel, para Labarrière, apresenta o silogismo que leva a unidade à diferença de seus extremos (imediatidade imediata e imediatidade mediada). Para isso, entretanto, faz-se necessária a presença do termo médio como função reflexiva. Assumimos a compreensão assumida por Labarrière de que também ‘há uma lógica por trás da consciência’”.

Em síntese, aceitar o mal extremo como normal nos possibilita recepcionar com naturalidade outros desrespeitos ao ser humano. Desrespeitar o outro faz com que não o percebamos como um ser humano da mesma qualidade que nos, ou de grupos aos quais pensamos pertencer. Entender que há grupos com menos e mais valores de humanos macula o princípio da dignidade humana. Maculando-se o princípio da dignidade, torna-se possível que grupos de pessoas se associem para defender ideias como as que fomentaram a criação do partido Nazista.

 

Referências:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BONFIM, Dirlêi. BRASIL: As diversas Faces do Fascismo. Disponível em: < https://blogdojorgeamorim.com.br/2023/01/brasil-as-diversas-faces-do-fascismo-prof-dirlei-a-bonfim/>. Acesso em  06 abr. 2023.

COSTA, André de Oliveira. LÓGICA DA ALTERIDADE DE HEGEL: Uma leitura lógica da figura do Senhor e do Servo segundo P.-J. Labarrière. Disponível em: <https://repositorio.pucrs.br/dspace/bitstream/10923/3557/1/000408191-Texto%2bCompleto-0.pdf>. Acesso em 06 abr. 2023.

DURKHEIM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. São Paulo: Martins Fontes,  2010.

HEGEL, G.W.F. (1807). Fenomenologia do Espírito. Tradução de Paulo Meneses. Petrópolis: Editora Vozes, 2ª ed., 2003