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Pernambuco, 26 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Arborizaçao urbana, um processo civilizatório

Colunista: Geraldo Eugênio

Postado em 27/04/2023 2023 22:00 , Agronegócios. Atualizado em 28/04/2023 13:14

Jornalista ,


A cidade como ambiente cidadão

As cidades do Sertão normalmente se caracterizam como arborizadas, mais limpas e, apesar de nem sempre se comentar, bem mais assistidas em termos de saneamento urbano.

A calçada, apesar de ser um ambiente voltado para o público, nem sempre é transitável devido àsirregularidades, descaso e ausência de uma adequada arborização. Nas cidades do interior a calçada também faz parte do ambiente familiar e utilizada como fórum de fofoca ou reuniões familiares, políticas e esportivas. Nos municípios em que a arborização é comum, o sombreamento torna a calçada um ambiente agradável durante todo o dia. Nas ruas e avenidas menos arborizadas, a assembleia de vizinhos dependerá de quando se conta com alguma sombra ou durante o período noturno. O fato é que se contar com árvores sombreando as calçadas, parques e praças é um diferencial entre uma cidade bem cuidada.

Durante os dias 27 e 27 de abril de 2023 está ocorrendo, em Serra Talhada, o III Seminário de Arborização Urbana, o que pode se considerar como algo louvável. Há de se ressaltar que trazer esta discussão para o interior é o reconhecimento de um esforço que tem sido premiado ao longo dos anos pelos municípios do Sertão e um alerta aos municípios que cuidam menos do ambiente urbano para a importância de crescer com a cobertura verde e o número de árvores e ornamentais, inclusive cobrando-se dos gestores a atenção devida à secretaria responsável pela arborização de suas ruas, praças, parquese jardins.

Gente que não suporta ver uma árvore

Não são poucos os desafios que enfrentam os profissionais que se dedicam à arborização e ao cultivo de plantas ornamentais. A primeira linha de confronto são os gestores. Não é incomum se encontrar prefeitos que preferem colocar árvores abaixo do que semeá-las. O cidadão, que testemunha esta sanha devastadora em frequentes casos acompanha o raciocínio e quase sempre não cuida dos jardins internos ou das árvores à frente de casa. As desculpas são as mais estranhas, do incômodo que representa a limpeza da folhagem, ao sistema radicular atinge os drenos e fossas, como hóspede de pássaros e morcegos, pelo odor de suas flores e folhas ou qualquer outro álibi.

Duas questões podem ser objeto de abordagem. A primeira é um programa de educação ambiental aos munícipes convencendo-os dos aspectos positivos de se contar com árvores nas calçadas e nos espaços públicos, remunerando através de redução no IPTU e tributos municipais aqueles que preservam; a segunda é manter um programa permanente de controle das árvores, identificando uma a uma. O terceiro aspecto é negociar um contrato com as empresas prestadoras de serviço no sentido de que os recursos sejam parcelados, pagando a última parcela para se avaliar como estão essas árvores plantadas há doze meses. Contratar o plantio sem acompanhamento é um grande equívoco e, na maioria dos casos, um percentual mínimo sobrevive aos primeiros três meses após serem semeadas.

A necessidade de um plano diretor que contemple o futuro

Dificilmente um local em que seja exemplo dos cuidados com o verde, o sombreamento e as calçadas e o bem-estar de seus cidadãos deixa de contar com um plano diretor inspirado no futuro. É também importante notar que, em Pernambuco, as cidades de porte médio do interior vêm demonstrando um vigor mais acentuado do que a região metropolitana. São locais que devem estar pensando vinte anos à frente, quando alcançaram cento e cinquenta mil habitantes ou similar. Onde está o desenho das novas avenidas devidamente arborizadas, dos parques públicos e da arborização?

Um plano diretor que consiga estabelecer metas para além de seu período de vivência é o ideal. Um documento que não trate apenas da expectativa de desenvolvimento econômico, mas que obrigatoriamente planeje uma cidade em que o cidadão se sinta confortável e da qual não queira se afastar. Uma urbe que reúna todas as condições de atendimento às suas demandas de educação, logística, comunicação, saúde, segurança e ocupação.

A escolha de espécies adequadas

Um outro desafio quanto a arborização e cultivo de plantas ornamentais é a escolha acertada das espécies. A caatinga conta com espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas de apelo visual e rara beleza. Será importante que seja dada prioridade às plantas nativas, inclusive incentivando-se pequenas e médias empresas produtoras de mudas e de jardinagem. Instituições públicas são importantes estarem envolvidas neste processo, embora, devido a volatilidade administrativa não se possa contar além de um plano quadrienal.

A sugestão acima não significa que espécies exóticas deixem de ser utilizadas. Há uma tendência em se criticar o uso de mudas dessas espécies justificando atributos que nem sempre são baseados em conhecimento científico. Trata-se de algo danoso ao melhor uso dos recursos genéticos disponíveis e em alguns casos uma desculpa para o não avanço dos projetos de arborização.

A caatinga é um bioma que a cada dia torna-se mais importante do ponto de vista estratégico. A contribuição que sua flora, fauna e microbiota devem ofertar à humanidade é pouco conhecida, entretanto não é recomendável se fechar as portas para também no paisagismo se utilizar de espécies exóticas e, originalmente de outros países e regiões.

Aqui vale chamar a atenção para o que tem sido o comércio de mudas de espécies da caatinga, não apenas cactáceas, ao longo da rodovia BR 232 à altura das comunidades Riacho Doce e Roças Velhas, município de Calumbi. Há alguns anos não passava de um agrupamento de família humildes vendendo mel de abelha em garrafas penduradas em galhos retorcidos. Hoje, o principal produto à vendo são mudas de cactáceas, da coroa de fradeao mandacaru sendo visível o progresso dos membros dessas comunidades.

Que mais e mais encontros, simpósios, congressos venham ao Sertão. Assim se faz mais conhecido o ambiente a um público visitante, bem como de mostrar a todos o potencial visual, turístico e econômico do Semiárido brasileiro.