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Pernambuco, 03 de março de 2024

Agronegócios

A expansão da área irrigada empresarial no São Francisco, uma realidade

A calha do Rio São Francisco se estende por 2.830 km, mas durante longo tempo apenas a região que dirigiu o foco para frutas tropicais com apelo no mercado externo conseguiu ser bem-sucedida. Atualmente o binômio manga e uva para mesa e produção de vinho ou suco é a atividade econômica de maior destaque

Postado em 01/06/2023 2023 18:45 , Agronegócios. Atualizado em 01/06/2023 18:45

Colunista

O polo consolidado: Petrolina-Juazeiro

Sempre é bom lembrar que a história da agricultura irrigada no Vale do São Francisco teve início em Cabrobó com o cultivo da cebola. O que perdurou entre os anos cinquenta e início dos anos oitenta do século passado. Com o crescimento de Petrolina e os investimentos realizados ao seu redor, o município passou a ser o polo de desenvolvimento regional consagrando-se com a participação de Juazeiro como uma das regiões agrícolas mais dinâmicas do país.

Plantação de Cebola em Cabrobó \ Divulgação

O crescimento foi se irradiando e, no que se refere à Pernambuco, as áreas irrigadas alcançaram Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista em particular com as vinícolas a começar pela Vinícola Vale do São Francisco, na Fazenda Milano e seus vinhos Boticelli. Neste primeiro estágio, se destacou o investimento público através da Codevasf na estruturação dos perímetros irrigados. Teve um início lento. A grande maioria dos colonos nem sempre tinham relação com a agricultura e muito menos com as práticas de irrigação e comércio, fundamentos básicos para o cultivo de frutas e hortaliças.

Saltando-se esta fase de ajuste inicial, mas que durou por quase vinte anos, a atividade se profissionalizou, atraiu investidores, aporte tecnológico e, atualmente, Petrolina-Juazeiro é uma referência no cultivo e mercado de frutas em todos os continentes.

A opção pela fruticultura irrigada e o mercado exterior

A calha do Rio São Francisco se estende por 2.830 km, mas durante longo tempo apenas a região que dirigiu o foco para frutas tropicais com apelo no mercado externo conseguiu ser bem-sucedida. Atualmente o binômio manga e uva para mesa e produção de vinho ou suco é a atividade econômica de maior destaque. Aquela que melhor distribui os ganhos, mais emprega e mais desenvolvimento trouxe à região. Inclusive o fato de haver atraído milhares de técnicos, pequenos empreendedores e especialistas em todas as áreas relacionadas à irrigação e ao mercado internacional.

Reprodução DP

Os resultados são incontestáveis e não é à toa que somando-se a população de Petrolina e Juazeiro, ultrapassa 700 mil habitantes com um produto interno bruto per capita entre os mais expressivos do país.

O vazio de Belém do São Francisco a Jatobá

A Codevasf passou a ser uma agência de desenvolvimento de caráter nacional, com atividades abrangendo do Vale do São Francisco ao Norte de Minas e seguindo ao norte por estados amazônicos, reduziu substancialmente seus investimentos em termos proporcionais no Vale e na agricultura irrigada. Durante algumas décadas, em Pernambuco, a área irrigada comercial se localizava entre Petrolina e Santa Maria da Boa Vista. Alguns empreendimentos surgiram além desse limite, a exemplo da Agrodan, em Belém do São Francisco, hoje a maior empresa exportadora de manga do país. Há vinte anos um outro empreendimento fez história por seu caráter empreendedor, a empresa Agrícola Famosa que resolveu expandir sua base produtiva do Rio Grande do Norte e do Ceará, instalando uma unidade no município de Ibimirim, em Pernambuco. Neste caso apostando no volume a na qualidade de água do aquífero da bacia do Jatobá.

 Dois empreendimentos bem-sucedidos demonstrando que a ampliação da agricultura irrigada não deve estar diretamente relacionada à espera de investimentos públicos diretos ou instituições governamentais. O fato é que houve um despertar nesta última década e as áreas ribeirinhas passando por Tacaratu, Floresta, Petrolândia e Jatobá passaram a ser aproveitadas. Inicialmente no plantio familiar de melancia, o melão, cebola e posteriormente com instalações de área comerciais de coco e manga.

O Baixo São Francisco. Ainda mais desconhecido

O caso específico do baixo São Francisco, entre os estados de Alagoas e Sergipe, é mais emblemático. Apesar da proximidade de capitais como Recife, Maceió, Aracaju e Salvador e outras cidades de porte médio, a fruticultura irrigada não chegou a ser implementada em seu potencial e as regiões ribeirinhas continuaram sendo objeto de questões que, por incrível que possa parecer, frearam o desenvolvimento regional, à exceção de iniciativa isoladas como o polo turístico dos Cânions do São Francisco abrangendo os municípios de Piranhas e Canindé de São Francisco.

Investimentos privados estão chegando

 Recentemente o mercado imobiliário entre Belém do São Francisco e Jatobá saiu da calmaria e passa a viver um momento de excitação. A demanda por terras cresceu, vários empresários locais e de outros estados estão se instalando na região. Como isto, o valor da terra cresceu de forma consistente nos últimos dois anos. A região que era conhecida como um buraco negro em que o cultivo de drogas repercutia dos municípios ribeirinhos ao Fórum Federal da cidade de São Paulo, onde a maioria dos processados são provenientes do Nordeste são alagoanos ou pernambucanos.  

A verdade é que se vive um momento de expansão acelerada que resultará na extensão da área comercial irrigada de Petrolina à foz do São Francisco, abrangendo os 400 quilômetros de rio São Francisco que margeiam Pernambuco e as terras irrigáveis de Alagoas e Sergipe.

Ao que parece este movimento ainda não foi detectado ou recebeu a atenção dos governos estaduais da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. É importante que despertem e apresentem políticas de apoio à iniciativa de modo que gargalos legais e de logística sejam resolvidos. Em vinte anos quem subir o São Francisco encontrará um conjunto de cidades prósperas ao longo do rio. À bem da verdade, Alagoas está fazendo o dever de casa em duplicar a rodovia AL 220 entre Maceió e Delmiro Gouveia passando por Arapiraca.

Pernambuco ainda não deu sinais de reação quanto ao movimento em curso, correndo o risco de que as empresas que se instalam entre Itacuruba e Jatobá optem em exportar seus produtos pelo Porto de Maceió, o que parecia uma heresia tal hipótese sendo colocada à discussão algum tempo atrás. Que todos entendam o potencial da região e que estejam preparados para interagir com este cenário e se fazer presente.

 

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 31 de maio de 2023