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Pernambuco, 20 de fevereiro de 2024

Agronegócios

O preço da carne e o agronegócio brasileiro

Há uma questão que não é bem definida entre nós que é a da segurança alimentar. Em uma região sem conflitos, a oferta de alimento está diretamente ligada à capacidade produtiva dos solos e das variações climáticas

Postado em 08/06/2023 2023 19:27 , Agronegócios. Atualizado em 08/06/2023 19:27

Colunista

A época virtuosa das commodities agrícolas

As últimas três décadas foram virtuosas para o agronegócio brasileiro. Inicialmente a China, seguindo-se de vários outros países asiáticos passaram a comprar de modo crescente os produtos nacionais. Primeiro os grãos, seguindo-se as carnes bovinas e de frango. O Brasil se consolida como um dos principais suportes mundiais para a produção de alimentos, seguindo-se dos Estados Unidos e da União Europeia.

Não é à toa que temos acompanhado o crescimento aritmético da produção agrícola brasileira e a transformação do país em uma potência agrícola, situação em que o agronegócio representa 26% do PIB e emprega ao redor de 35% da mão-de-obra nacional.

Divulgação

Este movimento ascendente foi sustentado pela Ásia mesmo em situações de crise no capitalismo mundial como a última, em 2008, que resultou em uma quebradeira geral do mercado imobiliário americano e teve efeitos devastadores sobre um número expressivo de países. No primeiro momento o país saiu-se bem e conseguiu de forma exemplar fugir aos efeitos mais graves da crise até 2013, ano em que a recessão que chegou em forma de fatura.

A economia mundial voltou a crescer e com isto a demanda por alimentos também. O mundo como um todo se tornou mais próspero, deixou de consumir predominantemente carboidratos e passou a exigir proteínas na dieta diária. O que foi extremamente positivo para o agronegócio brasileiro.

 A China como fábrica e aspirador do mundo

Este movimento virtuoso do mercado agrícola coincide com a transformação da China em fábrica do mundo e provedora de bens dos mais simples aos mais sofisticados para os mercados os mais diversos. Não apenas na América Latina e África, mas para os Estados Unidos e Europa. A população chinesa, nada menos do que um bilhão e trezentos milhões de pessoas, passou a um padrão de consumo em que a produção interna, sozinha, não era capaz de atender e daí a obrigatoriedade de parceiros comerciais confiáveis.

Na América do Sul, países como Brasil, Argentina e Paraguai passaram a ser mercados estratégicos para grãos e carnes e, neste embalo, a China se tornou o principal parceiro comercial dos países latinos superando o segundo colocado em cifras inimagináveis há duas décadas.

Segurança alimentar e sanções ocidentais

Há uma questão que não é bem definida entre nós que é a da segurança alimentar. Em uma região sem conflitos, a oferta de alimento está diretamente ligada à capacidade produtiva dos solos e das variações climáticas, mas não se ouve falar em impedimentos devido a conflitos do fluxo de alimentos e de restrições à compra desde que se conte com recursos para tal. Não é o caso da Ásia.

A China e a Índia, mas também o Vietnam, Singapura, a Coreia e todos os países do Sudeste asiático têm a produção e oferta de alimentos como algo estratégico, sendo um tema de importância igual ou superior ao da segurança territorial e suas implicações sobre o tamanho de seus exércitos e o valor investido em tecnologia bélica. Esses países conhecem de perto o que são os grandes ciclos de fome e os efeitos sobre os governos e suas populações.

A China, por exemplo, desde quando iniciou seu processo de desenvolvimento acelerado sabia que em algum momento poderia confrontar-se com sanções comerciais que tentariam ela adquirir livremente no mercado os alimentos necessários para seu povo. O mais recente exemplo deste movimento se deu a partir da União Europeia, incentivada pelos Estados Unidos, em dificultar o comércio de produtos lácteos. Como antídoto, a China não investiu apenas no domínio de tecnologia eletrônica, robótica e espacial, mas também passou a investir na agricultura e pecuária e contar com safras recordes ano após ano em quase todos os produtos, à exceção da soja, por questões meramente comerciais.

A África começa a suprir parte da demanda asiática

Além disso, a África entrou no radar da China e com um clima tropical e solos de savanas, semelhantes ao Brasil, porque não se tornar um continente com potencial exportador de grãos, particularmente?

As vendas brasileiras permaneceram em alta, mas sinais de que as exigências estavam se tornando mais rígidas não faltaram, além do fato do Brasil, em algum momento, de modo inexplicável, considerar que poderia tratar seu principal parceiro comercial com arrogância, considerando que obrigatoriamente a China teria que adquirir o que aqui se produzisse pelo valor que o vendedor cotava. Por incrível que pareça esta teoria imperfeita de mercado foi adotada por várias lideranças do agronegócio nacional, resultando em um estremecimento e dúvidas em seu principal cliente.

E o Brasil, o que fazer? Chegou a hora da picanha no prato

Há alguns meses uma situação começa a preocupar o agronegócio nacional: o preço da carne. Uma arroba de boi gordo chegou a ser vendida a 320 reais e nesta semana, em alguns mercados, variou entre 220 e 230 reais. A causa mais clara é a baixa procura do produto por compradores que passaram a produzir mais ou encontraram outros mercados com disponibilidade de entrega, além de problemas recentes de sanidade no rebanho nacional que não devem ser tratados como questões secundárias.

Deixar o mercado desabar ainda mais não é algo a ser considerado, restando considerar iniciativas que revertam a curva descendente da procura e faça com que os preços reajam. Duas opções estão postas à mesa. A primeira é em se desencadear um programa intenso de busca de novos mercados sem se descuidar dos parceiros tradicionais. É o Ministério da Agricultura, do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e do Itamaraty irem à campo e reproduzirem o que os Ministros Roberto Rodrigues, Luiz Fernando Furlan e Celso Amorim fizeram no primeiro governo do Presidente Lula.

A segunda iniciativa é interna. A economia, depois de anos de marasmo, deve voltar a crescer e com ela o consumo de alimentos, bens e serviços e a picanha, voltar ao prato do brasileiro. Esta tendência começa a se tornar realidade a partir de indicadores como o decréscimo da inflação e do crescimento do PIB, destacando-se o agronegócio, mas não se consolidará enquanto os níveis atuais de juros persistirem.

Os principais atores que fazem as principais cadeias produtivas também devem fazer o dever de casa. Algumas lideranças cometeram erros crassos durante e após as eleições chegando ao ponto de sem aparente razão econômica ou lógica confrontarem o governo de modo pouco inteligente e desrespeitoso, como foi o episódio da Agrishow de Ribeirão Preto.

O diálogo é fundamental para que todos ganhem, inclusive os milhões de consumidores e de modo que o país assegure ao mundo o papel de maior exportador de alimentos até o final da década.

O que se aplica às carnes também se aplicará as frutas do semiárido ou ao açúcar da zona da mata, amanhã. Logo a associação de equilíbrio e racionalidade é fundamental para qualquer que seja a atividade econômica, desde quando o homem iniciou o comércio. Dinheiro não aceita desaforo.

1Professor Titular da UFRPE-UAST