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Pernambuco, 03 de março de 2024

Agronegócios

O comércio de água potável como renda adicional no semiárido

Estamos em junho de 2023 e ontem, quarta-feira, dia quatorze, foram observadas chuvas em quase todo o estado, destacando-se volumes acentuados de Recife à Custódia.

Postado em 15/06/2023 2023 19:05 , Agronegócios. Atualizado em 15/06/2023 19:05

Colunista

Todos os anos, todos os dias

Na maioria das cidades sertanejas o comércio de água potável ocorre todos os dias do ano, independente do ano ser bom de chuva ou não, mesmo naquelas que são abastecidas pela empresa de águas e saneamento do estado, a Compesa.

É importante lembrar que desde 2019 o Rio São Francisco não oferece restrições volumétricas para o uso em seus perímetros e adutoras. O que, teoricamente deveria implicar em abastecimento total da demanda das cidades, vilas e comunidades.

A realidade é um pouco distinta. Ao se tomar Serra Talhada como amostra e os programas matinais de rádio como tradutores da voz do povo, não são poucos os bairros em que a água na torneira das residências chega a cada quinze dias. A alegação de sempre é que a empresa provedora deste serviço não conta com a devida capacidade de processamento e, portanto, em especial as regiões periféricas são sacrificadas, o que é lamentável.

Na verdade, o mais fácil dos problemas neste circuito de captação, transporte e tratamento de águas do Rio São Francisco e cidades do Sertão e Agreste é o tratamento. Afinal há conhecimento prévio da população, da demanda, do crescimento e não se pode imaginar que as obras fixas de tratamento não sejam planejadas com antecedência que permita um abastecimento pleno em anos normais de suprimento de água pela fonte de captação.

É  importante destacar a figura do comerciante de água. Personagem importante na história das comunidades do semiárido desde quando os primeiros aglomerados humanos surgiram. Primeiro, vem à mente a figura do cidadão com seu jumento e quatro ancoretas de madeira com sua agenda de semanas de entrega. Depois, essas ancoretas passaram a ser confeccionadas com borracha de pneus usados e somente o fundo e a parte superior eram de madeira, em seguida substituídas barris, também conhecidos como bombonas que são vendidos à unidade ou, dependendo da capacidade de armazenamento, quase sempre limitada, por caminhões pipas.

Baixa exigência no controle de qualidade

Uma das principais implicações da venda avulsa de água é a qualidade. Muito embora se saiba que na maioria dos casos um poço com cinquenta ou mais metros de profundidade produz água livre de contaminantes biológicos e que, em algumas áreas o nível de salinidade ou de metais pesados é baixíssimo ou nulo, a situação da água muda substancialmente desde quando repassadas a esses containers transportados em pequenos caminhões uma vez que nem sempre a higienização dos mesmos é a mais adequada, o mesmo em se tratando de carros-pipas.

A esperança de que as adutoras mudassem de modo definitivo a questão de abastecimento de água não se resumia apenas à entrega de água no hidrômetro, mas tão importante quanto na disponibilidade de uma água pura do ponto de vista físico-químico e microbiológico. O que dificilmente é garantido por entregas avulsas e muitas vezes sequer por empresas que comercializam água mineral. Não sendo à toa que vez por outra haja denúncias de engarrafamento de botijões em torneiras do sistema de abastecimento Compesa. Aí se conta com um risco menor uma vez que a água tratada e distribuída à exceção de quando há vazamentos ou danos na tubulação é uma água de excelente qualidade.

Como será em 2024?

Estamos em junho de 2023 e ontem, quarta-feira, dia quatorze, foram observadas chuvas em quase todo o estado, destacando-se volumes acentuados de Recife à Custódia. Algo maravilhoso para a época. Enquanto isto, há meses instituições que tratam de previsão climática, à exemplo do Laboratório Lapis, da UFAL – Universidade Federal de Alagoas, do NOAA – National Oceanic and Atmospheric Administration, dos Estados Unidos alertam para a elevação de temperatura das águas no Pacífico e a consequente formação do fenômeno conhecido como El Niño, com conhecidas implicações sobre o regime de chuvas em todo o mundo e de modo mais pontual no semiárido. Neste caso há uma correlação forte entre a intensidade do fenômeno El Niño e secas na região Nordeste, que se destacam.

Recebendo o aviso com a devida antecedência, como é o caso, quais providências foram tomadas para se receber esse ciclo de chuvas abaixo da média anual, prelúdio da visita de nossa irmã e amiga a seca? Talvez haja alguma discussão, mas com certeza em dimensão e densidade inferior ao que a urgência demanda.

Planejamento é essencial

Ao não se confiar nas previsões climáticas e alertas emitidos por entidades públicas de competência e respeito indiscutíveis, os governos que as financiam tendem a esperar a instalação do período seco para que providências sejam tomadas, a exemplo: 1. Aumento do número de carros pipas contratados, monitorados pelo exército, na distribuição de água a comunidades difusas ou até cidades de porte médio; 2. Instalação de programas emergenciais de apoio a famílias carentes. Atualmente, razoavelmente bem administrado pelos programas sociais, como o Bolsa família; 3. Decretação de estado de emergência permitindo que os governos federal, estaduais e municipais fiquem livre das obrigações legais de compra de bens e contratação de serviços. Esta é a realidade que prevalece há décadas.

Intensificação da venda de água potável na distribuição porta a porta

Salvo equívocos nos sistemas de alerta, a disponibilidade de água proveniente das chuvas será menos e consequentemente a demanda por água potável receberá ainda maior pressão em um sistema que não está cumprindo totalmente sua função. Os aquíferos de Roças Velhas, Belmonte e Mirandiba, mais uma vez serão a redenção de um número significativo de cidades e comunidades do Pajeú e Sertão Central. O número de veículos transportando as conhecidas bombonas azuis crescerá e o preço da água também subirá com a demanda. Filme conhecido.

As famílias mais humildes, como sempre, serão as mais afetadas e a distribuição efetiva de água potável irá para as páginas de jornais eletrônicos, blogs e televisão exigindo-se mais investimentos em um eterno ciclo de adiamento a solução de um problema histórico. Ainda bem que se conta com os vendedores ambulantes de água, esta é a realidade.

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 15 de junho de 2023