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Pernambuco, 21 de maio de 2024

Agronegócios

O milho como negócio. A vez do Agreste

No Agreste Meridional de Pernambuco e Agreste de Alagoas a temporada começou bem e há indícios de que continuará assim nos próximos meses. As áreas de milho são extensas. No Agreste alagoano há áreas pequenas e grandes de milho sendo cultivadas.

Postado em 29/06/2023 2023 13:00 , Agronegócios. Atualizado em 29/06/2023 13:20

Colunista

 

 

Chuvas erráticas no sertão e comprometimento da safra

Durante a temporada de chuvas de 2023 no Sertão de Pernambuco a caatinga permaneceu verde durante todo o período. Para um visitante vendo esta paisagem tão bonita e o verde das plantas tão intenso, a primeira impressão é que a colheita de culturas anuais como o milho, o feijão, a fava e a mandioca foi expressiva, nem tanto. Os veranicos corroeram os ganhos de produtividade e a safra 2023 será inferior ao que se esperava.

No Sertão do Pajeú, por exemplo, as primeiras chuvas ocorreram em novembro de 2022, seguindo-se um dezembro úmido que se estendeu até a metade de janeiro. Daí por diante a região testemunha uma série de Veranicos, sendo as chuvas reiniciadas com intensidade de constância a partir do mês de maio. A colheita não foi a esperada. Em alguns municípios, a exemplo de regiões de Custódia não houve acúmulo de água nos barreiros e barragens, o que não é um bom presságio para o que se espera é a ocorrência do El Niño e consequentemente uma temporada de seca na região.

Reprodução

A temporada de chuvas começou bem no Agreste de Pernambuco e Alagoas

Já no Agreste Meridional de Pernambuco e Agreste de Alagoas a temporada começou bem e há indícios de que continuará assim nos próximos meses. As áreas de milho são extensas. No Agreste alagoano há áreas pequenas e grandes de milho sendo cultivadas. Algumas delas totalmente mecanizadas. Em Pernambuco desde Bom Conselho até Garanhuns idem. Surpreende as vastas áreas plantadas para o padrão local no município de Terezinha.

O milho voltado à alimentação familiar se identifica facilmente. Já estes plantios mais extensos notam-se que híbridos são utilizados, pela uniformidade e pela altura. Normalmente são plantas que crescem, quando em situação ideal, a uma altura de dois metros.

O exemplo de Sergipe e Alagoas começa a surtir efeito

O que de fato está sendo demonstrado é que o padrão de cultivo conduzido no estado de Sergipe, um movimento que cresce desde o início do século, tornando o Agreste e Sertão sergipano um dos grandes celeiros agrícolas do país e consolidando-se como uma fonte insubstituível para a avicultura de vários estados, em particular o estado de Pernambuco.

Os dados estatísticos do IBGE têm mostrado que há um crescimento da produtividade com a cultura do milho em Pernambuco. Boa parte desta expansão se dá aos esforços dos empresários da Avipe – Associação dos Avicultores de Pernambuco que ao se defrontarem com os preços altos de 2020 a 2022 procuram devotar parte de seus esforços no cultivo do milho no Agreste meridional e no Sertão do Araripe.

Há outras iniciativas envolvendo empresas comercializadoras de insumos que também estão sendo desenvolvidas em várias regiões. Essas visam apoiar produtores que cultivam áreas pequenas tendo como principal objetivo mostrar que a tecnologia mais refinada de melhoramento, cultivo, controle de pragas, doenças e ervas podem e devem ser usadas na pequena e média propriedade. Uma iniciativa saudável uma vez que ao continuar com programas que visam a distribuição gratuita de sementes de cultivares não atuais e, em vários casos, com qualidade comprometida, seja do ponto de vista genético quanto à produção da semente em si, não há chances de se testemunhar um ciclo virtuoso já que durante décadas este modelo tem alterado em muito pouco a produtividade da cultura no estado.

Os programas em si também padecem de uma análise mais realista do cenário agrícola e pecam por tentarem convencer os produtores instalando unidades demonstrativas de forma gratuita e com compromisso apenas de cumprir com as recomendações técnicas específicas a cada tipo de cultivar. Nem sempre tem se conseguido identificar produtores disciplinados o suficiente para seguir a ´cartilha`, alguns deles chegando a desviar a produção, comercializando como milho verde e sacrificando o que seria uma ótima oportunidade.

O que se necessita atualizar neste tipo de trabalho de transferência de tecnologia é compartilhar os custos de produção. Não se justifica a entrega de todos os insumos de uma área, por menor que seja, sem o compromisso de que parte destes sejam de responsabilidade financeira do produtor. O que tem ocorrido é que mesmo com algumas unidades resultando em produções muito acima da média local, tão logo o programa deixa de doar os insumos, o agricultor abandona o sistema de produção que o leva a altas produtividades.

Neste aspecto cabe às Secretarias de Agricultura estaduais e municipais; aos bancos financiadores da produção; às escolas técnicas, às instituições de extensão, pesquisa e assistência técnica, às empresas envolvidas e os agricultores mudarem a abordagem ao produtor de milho de modo que ao invés de sentir um ser diminuído, marginalizado e que aposta no desastre, passar a ser um empreendedor que tenha sua propriedade como uma unidade de negócio e consciente de que tecnologia tem um custo mas quando ajustada aos diferentes sistemas de cultivo adotados em cada propriedade há um ganho, não somente em produtividade mas na elevação de renda deste empresário.

Voltando-se ao ditado que se ouve repetidamente. Não há almoço gratuito. Primeiro a agricultura necessita ser encarada como uma atividade econômica e em segundo lugar que o prêmio se dá a partir do investimento, seja próprio ou de crédito e do esforço em aprender e usar do aporte tecnológico disponível neste exato momento em todos os municípios do estado de Pernambuco. Fica a lição. Não dá para se encarar a atividade agropecuária no Século XXI com os arranjos empregados no século passado.

Uma coisa é certa, há espaço para a produção de milho no estado de Pernambuco. Porém, não o suficiente para atender sua demanda, mas pelo menos reduzindo significativamente a aquisição de aproximadamente um milhão de toneladas do cereal em outros estados e região

 

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 28 de junho de 2023