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Pernambuco, 24 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Vamos falar de milheto, um conjunto de espécies negligenciadas

Pernambuco, em especial o IPA, é pioneiro na pesquisa com sorgo e milheto na região e um dos precursores no país. Atividades científicas com sorgo e milheto são desenvolvidas no estado desde os anos 70 do século passado com amplos resultados e aplicações conforme se segue.

Postado em 06/07/2023 2023 22:59 , Agronegócios. Atualizado em 06/07/2023 22:59

Colunista

 

O que é isto?

Dentre os mais importantes alimentos humanos e animais destacam-se os cereais. São espécies vegetais da família Poacea, antiga Graminea, grupo este em que todos os capins fazem parte. Na relação dos mais conhecidos entre nós destacam-se o milho, o arroz e o trigo. Ainda bem conhecidos são o centeio, a cevada e a aveia. Ainda há neste grupo, um conjunto de plantas denominadas genericamente de milhetos ou cereais de grãos pequenos.

No que tange aos milhetos, alguém deve ter ouvido falar no sorgo, no milheto pérola (Panicum glaucum), no ´finger millet` pela semelhança de sua panícula ao formato da palma da mão (Eleusine coracana), o proso millet (Panicum miliciaceum) e o ´foxtail millet` ou rabo de raposa (Setaria italica).

Essas plantas foram domesticadas na Ásia, particularmente na Índia e no continente Africano. Têm como característica comum, além dos grãos diminutos, um ciclo de vida curto, portanto são precoces, adaptadas a elevadas temperaturas e a estresses hídricos. Logo desde há mais de dez mil anos vêm sendo cultivadas na Índia, China, Nigéria, Niger, Mali e Burkina Faso. São tão ou mais antigas do que o trigo e o arroz, cereais citados na literatura clássica em vários idiomas e em livros sagrados.

Para que serve?

Os grãos são usados especialmente na alimentação humana ou animal, no caso do sorgo, a palha é considerada uma forragem amplamente usada em áreas áridas. De seus grãos, farinhas são processadas e usadas na fabricação de pães, biscoitos e em papas ou mingaus, conhecidos por diversos nomes em cada país ou região.

No Brasil, o mais conhecido entre esses cereais é o sorgo, seja em seu formato granífero ou como sorgo forrageiro. No caso do primeiro os grãos são base par formulação de rações de aves e gado de leite. Em se contando com milheto tipo pérola disponível, há uma demanda crescente na ração de galinhas poedeiras.

Do ponto de vista nutricional é mais saudável do que a maioria dos grãos mais conhecidos. Não têm glúten e contam com um maior teor de aminoácidos essenciais. Se essas espécies têm tantas características positivas, por que não utilizadas no país?

Vale lembrar que à exceção do milho, que tem seus grãos revestidos por uma camada de palha, formando espigas, nos demais casos as panículas têm seus grãos expostos, o que facilita o ataque de pássaros em cultivos de áreas reduzidas. Sabe quem o que isto que plantou ou acompanhou um pequeno roçado com sorgo. O fato é que nada é completamente fácil ou totalmente difícil. Há vantagens e dificuldades a serem ultrapassadas.

Algo foi feito em Pernambuco sobre milhetos?

Pernambuco, em especial o IPA, é pioneiro na pesquisa com sorgo e milheto na região e um dos precursores no país. Atividades científicas com sorgo e milheto são desenvolvidas no estado desde os anos 70 do século passado com amplos resultados e aplicações conforme se segue.

Sorgo – Dentre as variedades desenvolvidas e liberadas destacam-se IPA 1011, de dupla aptidão, granífero ou forrageiro e IPA SF 15. A primeira obtida em um trabalho conjunto entre o IPA e a UFRPE e a segunda do esforço compartilhado entre o IPA e um técnico da Secretaria de Agricultura do estado de Alagoas. Há um caso emblemático ocorrido em uma visita a um produtor de soja no município de Pedro Afonso, em Tocantins. 

O objetivo da missão foi verificar como se dava a integração lavoura-pecuária-floresta no estado e o que as fazendas estavam usando em rotação à soja. Foi aí que o produtor respondeu que rotacionava com o sorgo. Então quis saber qual o híbrido ou variedade de sorgo que ele usava. Ele prontamente falou que eu não conhecia, ele usava o Zebu dos sorgos. Insisti na questão e ele me falou que o material que ele usava era o IPA 1011, no que argumentei que trabalhei por longos anos no programa que havia desenvolvido aquela cultiva e tão logo chegássemos à sede da fazenda, colocaria ele em contato com o colega José Nildo Tabosa, coordenador do programa de Cereais, do IPA. Um fato que orgulha a instituição.

Milheto (Pennisetum glaucum) – A variedade IPA Bulk-1 BF foi ´criada` pensando-se no semiárido do Nordeste, mas não foi o caso. Entretanto é importante lembrar que o milheto desenvolvido pelo IPA é fundamental em uma das práticas que fazem com que a agricultura brasileira seja considerada uma das mais sustentáveis do ponto de vista ambiental em todo o mundo. O milheto em largas áreas passou a ser a cultura preferencial de rotação com a soja, sendo semeado através de avião, chegando a ser usado em aproximadamente quatro milhões de hectares.

Importante também o registro de que as principais senão todas as cultivares comercializadas por diversas empresas de sementes nada mais são do que um nome de fantasia da IPA Bulk-1 BF. Ao conhecer o Cerrado, muito poucos sabem de quão importante tem sido a contribuição da pesquisa pernambucana para a moderna agricultura brasileira.

Merece destaque permanente a menção a dois pesquisadores que lideraram o programa de pesquisa de sorgo e milheto, o egípcio Mahammed Faris que deixou o IPA para exercer a função de Professor na McGill University, no Canadá, uma das mais renomadas universidades em várias áreas do conhecimento e o Dr. Mário de Andrade Lira, pesquisador do IPA e professor da UFRPE conhecido por sua contribuição não apenas na pesquisa com plantas forrageiras, mas, particularmente na formação de pessoas.

Em relação a este capítulo, vale lembrar que o amigo e companheiro de trabalho, Dr. Gabriel Alves Maciel, um dos pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da variedade IPA Bulk 1 – BF, por seu pioneirismo em ser o primeiro brasileiro a concluir um curso de mestrado no ICRISAT – Índia e na APAU – Andhra Pradesh Agricultural University, em 1980 sob a orientação de um renomado pesquisador inglês e líder do programa naquele instituto, o Sr. David Andrews. Para quem não conhece é importante informar que Gabriel trabalhou por vários anos na Estação Experimental do IPA, em Serra Talhada, imóvel que hoje alberga a UFRPE-UAST e a Escola de Medicina da UPE.

2023 – Ano Internacional do milheto

Por último, também se faz necessário chamar a atenção para o fato de que a FAO – Food and Agricultural Organization, atendendo a uma petição da Índia apresentada em 2018 estabeleceu 2023 como o Ano Internacional do Milheto. Têm sido vários os eventos realizados em comemoração a estes pequenos grãos em vários países. Em um deles, há pouco tempo, encontravam-se presentes os ministros de Agricultura, Ciência e Tecnologia e Relações Exteriores, da Índia. Algo notável considerando-se que o Ministro Subrahmaniam Jayshankar é considerado um dos mais importantes diplomatas da atualidade e figura simbólica na política externa indiana.

A Índia, devido a sua relevância, estar dando a importância devida aos milhetos demonstra quão estratégicas são essas espécies para as áreas áridas e semiáridas do planeta.

O fato é que neste ambiente comemorativo é relevante comunicar que o programa de melhoramento de milheto liderado por equipes do IPA e da UFRPE-UAST continua vivo, atuante e espera contribuir com a agricultura regional e nacional na mesma ordem daquilo que foi realizado até o presente.

1Professor Titular da UFRPE-UAST