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Pernambuco, 29 de fevereiro de 2024

Agronegócios

A gestão das secas deve seguir o manual

Independentemente do que ocorra o país deve estar preparado

Postado em 20/07/2023 2023 20:41 , Agronegócios. Atualizado em 20/07/2023 20:42

Colunista

 

A ciclicidade dos períodos climáticos entre anos de fartura e escassez é bíblica. Vale lembrar os anos de vacas magras que se abateram sobre o Egito antes da saída do povo Judeu em direção à Israel. Bem mais próximo de nós são fartos os registros de civilizações da América Central que pereceram por anos secos, outras por excesso de chuvas.

No sertão nordestino, desde 2019 não se sabe o que é uma seca sistemática. Pode ter havido falta de chuvas em regiões limitadas ou mesmo se identifique locais em que a quantidade tenha sido insuficiente, mas não se pode falar de calamidade estrutural. A caatinga que o diga. Neste período ela se manteve verde e tão logo esmaecia e amarelava ocorriam chuvas mais ou menos intensas, mas que de imediato as plantas retornavam à sua cor verde característica.

Desde o terceiro semestre do ano passado várias instituições de monitoramento climático têm alertado para o surgimento do fenômeno El Niño de forma intensa, iniciando-se pela elevação da temperatura das águas do oceano Pacífico e o consequente impacto sobre o regime pluvial do Oeste e Leste da América do Sul. É lugar comum associar o El Niño com um período seco no semiárido Nordestino. Caso a seca anunciada evolua ou não se faz necessário a região está preparada para o que ocorrerá nos próximos meses ou anos.

As previsões climáticas e a modelagem biológica ou física avançaram significativamente nas últimas décadas. Importante se chamar a atenção para os produtos disponibilizados pelo LAPIS – Laboratório de análises e processamento de imagens de satélites, da UFAL – Universidade Federal de Alagoas, a partir do trabalho que o Prof. Humberto Barbosa e sua equipe realizam bem como os esforços liderados pelo Prof. Rômulo Menezes, do Departamento de energia nuclear da UFPE quanto a previsão de disponibilidade de suporte forrageira para os rebanhos de Pernambuco, a partir de dados atuais e de um histórico nem sempre levado em consideração nas tomadas de decisão.

Os danos causados por um período de seca

Os investimentos a serem dispensados antes da instalação de uma seca são enormemente inferiores às atitudes imediatistas a serem tomadas, como é o usual, após a seca se instalar em seu formato mais severo.

O custo de contratações de última hora de milhares de carros-pipas, por exemplo; em programas emergenciais; em renegociação e isenção de reembolso de dívidas públicas é algo impressionante. Em sendo políticas esporádicas, o problema persiste, seca após seca.

Vale chamar atenção para o fato de que no último período de seca, entre 2012 e 2018, o impacto sobre a população mais vulnerável foi notadamente reduzido. Não houve notícias de saques ou algum tipo de violência diretamente relacionado à falta de alimentos ou de água. Este fato é a melhor constatação de que as políticas sociais implementadas desde o governo do Presidente Fernando Henrique foram positivas e com resultados contundentes.

Programas como o Bolsa Família; as aposentadorias no meio rural; o programa de um milhão de cisternas; os investimentos em obras hídricas, seja a perfuração de poços, construção de barragens subterrâneas, adutoras, canais mudaram a vida no campo e nas cidades de pequeno e médio portes quanto às alternativas de convivência com as secas, entretanto há de se convir que há a necessidade de se investir na construção de um novo pacto pelo desenvolvimento para a região Semiárida brasileira.

 É mais sensato crer na ciência

Em se tratando de cenários é inegociável seguir as recomendações das dezenas de instituições brasileiras ou não que antecipam o que pode ocorrer com o clima regional a partir dos próximos meses.

Em assumindo que um alerta foi dado, o fenômeno seca deve ser gerido tal qual um empreendimento e para tal deixar claro que há algumas etapas claras neste processo, iniciando-se pela previsão climática de curto e médio prazos. Este quesito somente será otimizado a partir de que as várias instituições brasileiras estejam agindo de forma sincronizada e em conexão com as instituições de outros países que monitoram as alterações climáticas.

O segundo momento se dá a partir da instalação das secas, considerando que o período preparatório foi o suficiente divulgado de modo que decisões quanto o descarte de parte dos rebanhos; armazenamento de forragem na forma de silagem, feno ou grãos; plantio de palma-forrageira; limpeza de açudes e barragens, manutenção de poços, dessalinizadores tenham sido tomadas.

O terceiro passo, se refere à gestão do dia-a dia. Seja através dos programas sociais de apoio às comunidades vulneráveis, à saúde pública e a organização de redes de apoio e conselhos que acompanhem o melhor emprego dos recursos públicos destinados às iniciativas e políticas implementadas. Importante também que se monitore o que ocorrerá com os empresários da região. Esses são afetados de modo direto pela redução do consumo, aumento da inadimplência, elevação dos custos dos produtos e matérias primas

Normalmente o registro da seca se dá até o retorno das chuvas. Não deixa de ser um momento de júbilo após anos de privação e sacrifício, entretanto é importante também ficar claro que a seca deixa um passivo extremamente pesado a ser administrado pelos trabalhadores e empresários locais.

Os empreendimentos rurais quase sempre restam desprovidos de seus rebanhos, parcial ou totalmente; de sua pastagem; de cercas; dos galpões;das casas, das estradas em estado de calamidade. É neste sentido que se contar com um programa de reconstrução do aparato produtivo rural e urbano deve ser prioritário e inadiável.

Não dá para encararmos um período de secas como se fosse algo trivial e com receitas ultrapassadas. A situação da região Semiárida e da ciência, no Brasil e no mundo asseguram que o fenômeno secas é algo difícil, mas que pode e deve ser gerido com princípios básicos como a boa governança e uma abordagem que tenha começo, meio e fim.

        

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 20 de julho de 2023