Facebook jornal do sertão Instagram jornal do sertão Whatsapp jornal do sertao

Pernambuco, 03 de março de 2024

Agronegócios

O turismo ganha força no semiárido

Neste universo merece atenção de uma entre inúmeras comunidades ao longo do rio. A Ilha do Ferro, que não é uma ilha, fica em Pão de Açúcar. A cada dia esta comunidade se torna mais conhecida. Caracteriza por sua renda e bordado e, a seguir pelos artesãos que trabalham as madeiras leves dos mangues e os caules das plantas da caatinga.

Postado em 27/07/2023 2023 14:04 , Agronegócios. Atualizado em 27/07/2023 14:04

Colunista

Seguindo-se o exemplo do litoral

O litoral entre os estados do Rio Grande do Norte e Sergipe se caracterizou por muito tempo por suas belas praias e cidades que no imaginário estariam habitadas por pescadores, trabalhadores das fazendas de coco ou cortadores de cana. As três categorias continuam sendo importantes e parte da história passada e recente, entretanto um novo componente veio à tona e passou a ser o componente da economia litorânea, o turismo.

A infraestrutura viária ganhou novos contornos e o acesso às praias, balneários e condomínios se tornou fácil. O clima tropical durante todo o ano é um atrativo a visitantes de todo o país e do exterior. O custo não é excessivo, a culinária regional é um diferencial e a população local hospitaleira para com seus hóspedes. 

Por falar em culinária, houve uma mudança radical no que se oferece no litoral, a cozinha local sucumbiu ao modismo. São poucos os restaurantes que oferecem uma peixada ao molho de coco ou uma porção de sururu ou agulha frita. Os peixes mais ofertados, a pescada branca e a tilápia. Nada mal, mas se pode contar com um maior cardápio de opções. A culinária peruana além de ser reconhecida como algo mágico em todo o mundo refinado conseguiu conquistar as instituições que capacitam os chefs da região e o ceviche passou a ser o mais presente das opções gastronômicas.

É importante lembrar que um turista vem ao Nordeste conhecer os atributos regionais. Sem isto tem-se a sensação de que a viagem atende aos olhos, como um bom filme, mas não aguça o olfato e o paladar para o que a região tem de maravilhoso a oferecer. Que se avance, mas não deixando de contar com a história e a tradição.

 O São Francisco, uma fonte inesgotável de riqueza e beleza

O Velho Chico, de Minas à foz entre Alagoas e Sergipe, é um colar de pérolas preciosas e de magia. Primeiro foi o caminho mais lógico para a conquista dos Sertões e a penetração da gente e do gado; depois o principal suporte à industrialização do Nordeste e do país pelo fornecimento de energia através de uma série grandes de hidrelétricas: Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó, além de dezenas de unidades menores de geração e distribuição ao longo da calha do rio.

Em se tratando de energia e industrialização não dá para passar na região sem enaltecer a figura de Delmiro Gouveia. Empresário visionário, corajoso, símbolo de uma nação moderna em um mundo feudal. Como todo herói, também tinha seu calcanhar de Aquiles: galanteador e mulherengo, terminou sendo abatido por um marido traído nos confins do sertão. Não entendeu o que significa a Lei da Terra em Pedra, em Alagoas, que hoje tem seu nome, imaginou que se encontrava nos salões de Recife ou do Rio de Janeiro.

Os encantos e as estórias ouvidas em qualquer comunidade ribeirinha são apaixonantes. Somente ao se conhecer de perto este mundo mágico é que se entende o que se passa por aqueles que deixam seus países ou terras distantes e se fixam no entorno do grande rio convivendo com pequenos agricultores, pescadores, artistas, comerciantes e todos os grupos que constituem a sociedade ribeirinha.

Os lagos, os cânions, as ´praias`, as bordadeiras, os escultores de peças de cerâmica ou madeira, os designers de móveis, os tanoeiros, os vaqueiros, o misticismo e o cangaço se constituem em valores dificilmente encontrados em outro local.

A Ilha do Ferro se tornou uma parada obrigatória

Neste universo merece atenção de uma entre inúmeras comunidades ao longo do rio. A Ilha do Ferro, que não é uma ilha, fica em Pão de Açúcar. A cada dia esta comunidade se torna mais conhecida. Caracteriza por sua renda e bordado e, a seguir pelos artesãos que trabalham as madeiras leves dos mangues e os caules das plantas da caatinga.

As mulheres através de estampas únicas conseguiram se inserir no mundo da moda tendo suas peças usadas por vários estilistas brasileiros. Os homens desenvolveram um estilo próprio. Uma visita ao Sr. Vanvan, um loiro, com sotaque e linguajar sertanejo, comunica-se muito bem mostrando sua arte. Estátuas inspiradas na cultura de ex-votos, carrancas, cadeiras que parecem tronos, bancos em formato de animais e cores que fazem dele um artista único. Como ele há uma dezena de autodidatas que conquistou o respeito do mundo da arte, de decoradores, arquitetos e usuários. Encantador.

Há um bar com características de museu ou galeria sertaneja que me fez lembrar o Monte Olímpia, de Zé Ramalho, uma viagem ao imaginário sertanejo. O empresário/marchand/artista, depois de uma longa passagem em Nova Iorque ou Chicago, não importa o nome, foi atraído pelo sertão do Velho Chico e montou sua tenda na Ilha do Ferro. Uma história e tanto. A verdade é que a então modesta Ilha do Ferro se tornou um ambiente cult não apenas para os alagoanos.

Fato interessante. A Ilha dista dezenove quilômetros de Pão de Açúcar por uma estrada não muito amigável. Foi apresentado um projeto para pavimentação do percurso, iniciativa esta que, no momento, não conta com uma boa receptividade dos habitantes. Consideram que facilitar o acesso é comprometer a imagem e a visão do que é e o que representa o local. Talvez tenham razão. O fato é que preferem ver o asfalto passando por longe.

O nordestino precisa voltar o olhar para seu interior

Ainda hoje, a maioria das pessoas do interior do Nordeste têm como objeto de consumo as praias. Seja feriado ou férias vamos organizar uma excursão. Havendo um dinheiro extra que se invista em imóveis no litoral, o que não deixa de ser uma opção recomendável. Poucos notavam que o interior é tão rico quanto o que encontrariam próximo ao mar. Esta visão vem mudando ao longo dos tempos, movimento este que tem contato com a colaboração dos turistas de outros estados e das capitais da região, conforme testemunha de uma empresária de hotelaria de Piranhas, AL.

O poder público abriu os olhos. O estado de Alagoas, por exemplo, investe em na duplicação da rodovia AL 220, ligando Maceió à Delmiro Gouveia. Uma obra que além de passar uma forte mensagem quanto a integração entre o sertão, o agreste e o litoral, impactará de modo irreversível o turismo no Sertão. Um esforço de tamanha magnitude para os Sertões da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe foi a ativação do aeroporto de Paulo Afonso, BA, com voos diários a partir de São Paulo.

O Sertão de Pernambuco deve aproveitar esta dinâmica e fazer valer o que tem de melhor. Figuras icônicas como Lampião, Maria Bonita e Luiz Gonzaga merecem receber um tratamento diferenciado, inclusive na nossa Serra Talhada. Os estados de Alagoas, Sergipe e Bahia consideram a história do cangaço como algo marcante e a ser conhecido. Lampião está presente em dezenas de festivais, no comércio local, no artesanato e tudo que diz respeito à cultura regional. Independentemente do juízo a seu respeito, se foi bom ou não, isto pouco importa. Trata-se de uma figura que captura o imaginário popular e a atenção de estudiosos do Brasil e do mundo. Tornou-se uma figura cult, sendo um grande desperdício não fazer uso deste ativo para incrementar o turismo e a economia pernambucana.

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 26 de julho de 2023