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Pernambuco, 27 de fevereiro de 2024

Agronegócios

O Nordeste e a revolução energética em curso

Neste capítulo, uma homenagem especial deve ser prestada ao Professor e Engenheiro Mecânico Everaldo Feitosa. Everaldo iniciou há quarenta anos uma batalha particular e titânica de convencimento à sociedade e gestores públicos de que o futuro da matriz energética nacional passaria pela energia eólica.

Postado em 03/08/2023 2023 13:09 , Agronegócios. Atualizado em 03/08/2023 13:09

Colunista

 

Delmiro Gouveia, um homem além de seu tempo

O município mais ao oeste do estado de Alagoas recebe merecidamente o nome de Delmiro Gouveia. De origem cearense, um homem inquieto, intrépido e de coragem invulgar. De uma vida repleta de aventuras, ainda jovem, após uma saída intempestiva de Recife se instala na antiga vila de Pedra, em Alagoas, retoma seu comércio de peles e, vendo que a região era uma grande produtora de algodão inicia sua imersão no fabrico de linhas e na geração de energia.

Imagine o que é alguém no início do século XX criar as condições de ver instalada a primeira usina hidroelétrica no Rio São Francisco e utilizar-se da energia para suprir a demanda de sua fábrica de linhas. Vale notar que a energia elétrica já se fazia presente a partir de geradores à diesel ou à carvão, mas usando a força motriz das águas, sua iniciativa era a primeira do Nordeste.

Após sua morte, um concorrente adquiriu a fábrica de linhas Estrela que foi literalmente engolida pelas linhas Correntes, de boa lembrança para quem cresceu vendo a roupa sendo feita por costureiras e alfaiates. A verdade é que Delmiro Gouveia abriu os olhos e alimentou a imaginação de outros grandes brasileiros a exemplo do Engenheiro Agrônomo Apolônio Sales, ligado à produção de energia, inicialmente nas usinas da Mata Sul do Estado de Pernambuco e depois, como um dos primeiros dirigentes do complexo hidrelétrico de Paulo Afonso.

Pouco se houve falar em Delmiro, mas deveria ser o símbolo da industrialização do Nordeste. O que faria hoje, um empreendedor com sua verve e tirocínio, atuando em um mercado extremamente competitivo e vendo a indústria brasileira definhar? Ainda se conta com empresários dessa estatura ou nossa sina é de reclamar da concorrência estrangeira e não apresentar soluções para nossos problemas?

Paulo Afonso e a energia hidrelétrica

O fato é que, a partir do exemplo concreto da Fábrica da Pedra, o governo brasileiro, em especial os Presidentes Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra conseguiram instalar as primeiras turbinas geradoras de energia nos cânions de Paulo Afonso. Durante a segunda metade do século XX, a energia produzida pelas águas do São Francisco atendeu a demanda das cidades, vilas e indústrias da região. Na segunda década desse século, uma seca intensa demonstrou que já não seria possível contar apenas com a dádiva do grande rio e, assim, iniciava-se uma busca incessante por novas opções para o suprimento energético. Alguém há de se lembrar muito bem do Ministério do Apagão e das pressas em contratar a construção de usinas termoelétricas que ainda hoje custam um valor elevado, queiram ou não produzam algum quilowatt.

Para os nordestinos é importante estarem atentos ao fato de que as hidroelétricas que se iniciam em Minas Gerais, com Três Marias; seguindo-se rio abaixo pelo lago de Sobradinho, às usinas de Itaparica, Luiz Gonzaga, Paulo Afonso e Xingó haverem por um longo período serem determinantes para a economia nacional desde Minas até o Maranhão.

 As energias renováveis, o papel de Everaldo Feitosa

A partir da crise energética dos anos 20 do século XXI o Brasil e o mundo foram obrigados a procurar outras formas de energia para produção em escala e a um custo razoável. Aí surgiram as pesquisas que resultaram na maior eficiência dos motores instalados nas torres eólicas e, a seguir, graças à indústria alemã e chinesa, o desenvolvimento de placas fotovoltaicas cada dia mais eficientes. Os parques de geração eólica são a prova disto. Enquanto que no caso específico da energia solar, a produção difusa invadiu o mercado e hoje são centenas de milhares de residências e imóveis supridas pela energia proveniente do sol. Algo inimaginável há muito pouco tempo.

Mais uma vez o Nordeste demonstra seu pioneirismo e não é atoa que os mais importantes sítios de produção de energias renováveis se encontram na região. 

Neste capítulo, uma homenagem especial deve ser prestada ao Professor e Engenheiro Mecânico Everaldo Feitosa. Everaldo iniciou há quarenta anos uma batalha particular e titânica de convencimento à sociedade e gestores públicos de que o futuro da matriz energética nacional passaria pela energia eólica. O início não foi fácil e os céticos superaram em muito os convertidos. Depois de longos anos, finalmente a tese preconizada pelo professor e hoje, empresário, prevaleceu e não há quem conheça a história e passe por um parque eólico que não se lembre de seu nome. Parabéns, dileto amigo. Você é um dos privilegiados em ver suas ideias sendo reconhecidas e postas em prática ainda quando estão em plenas condições de aproveitar o esforço dispensado.

O hidrogênio verde, a terceira onda

 E quando tudo parecia estar se acomodando, vem a nova revolução energética, com diversas vantagens, uma vez que se trata de uma geração com baixa capacidade poluente, não sendo à toa que é considerada uma verdadeira energia verde. E onde se encontra a liderança do processo? Nos estados do Ceará, da Paraíba e de Pernambuco.

Nos últimos cinco anos o assunto tem ocupado o imaginário dos empresários e governo do Ceará que correram atrás, atraíram empresas internacionais interessadas na produção e disposta a se instalarem no estado. Pernambuco foi beneficiário do fato de que não se deve por todos os ovos em uma mesma cesta e surgiu como a segunda melhor opção, seguindo-se do estado da Paraíba para atração de investimentos visando a produção de energia via Hidrogênio.

A história do empreendedorismo nordestino é algo louvável e saber que a região a cada dia se constitui em um ativo de valor estratégico para a nação deixa orgulhosos a todos. Resta à região perceber o que ela representa e passar a lutar por oportunidades que otimizem suas riquezas naturais e o empreendedorismo de seu povo. Aproveito para recorrer à figura do Prof. Mário de Oliveira Antonino, Presidente da Academia de Engenharias, que aos noventa anos, tal qual Prometeu, encara a saga de provar que o semiárido é uma terra de riquezas e oportunidades. Basta procurar a série de Cadernos do Semiárido com trinta números dedicados aos mais diversos aspectos da tecnologia e da inteligência nordestina.

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 02 de agosto de 20