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Pernambuco, 18 de maio de 2024

Agronegócios

A importância da conservação dos solos do semiárido

Vale lembrar que são solos em evolução, o que exige centenas de milhares de anos, senão milhões de anos para a natureza intemperizar e, literalmente, triturar a rocha mãe transformando-a em partículas de argila.

Postado em 06/10/2023 2023 08:58 , Agronegócios. Atualizado em 06/10/2023 13:18

Colunista

Riqueza e fragilidade dos solos tropicais

Foi comentado nesta coluna há alguns meses sobre a qualidade do ponto de vista químico da maior parte dos solos do semiárido, apesar de rasos, com rochas aflorando, são férteis e quase sempre a adubação que requer é menor comparada com outras regiões. Há limitações físicas, especialmente nos casos em que a textura é predominante argilosa e não permite um melhor acúmulo de água no perfil.

Vale lembrar que são solos em evolução, o que exige centenas de milhares de anos, senão milhões de anos para a natureza intemperizar e, literalmente, triturar a rocha mãe transformando-a em partículas de argila.

Daí a importância de se preservar o que foi obtido ao longo do tempo evitando perdas por erosão de qualquer origem, seja hídrica ou eólica. Obviamente que a melhor proteção é manter o solo com sua vegetação natural, o que nem sempre é possível, uma vez que se houver a necessidade de terras destinadas para a produção de alimentos sempre terá que lidar em qualquer bioma ou país.

 Conservação de solos foi uma agenda importante no estado de Pernambuco

No que se refere ao estado de Pernambuco, uma experiência exitosa e exemplar de produção conservação através da construção de terraços e plantio em nível foi executada pelo empresário Moacir de Brito, em Pesqueira, quando o município entre os anos 60 e 70 era considerado o mais importante produtor de tomate para indústria do país. As fazendas do Dr. Moacir eram objeto de estudo e admiração. Serviam como unidades demonstrativas para os alunos de Agronomia da UFRPE que se deslocavam de Recife para ver como deveria ser tratado o solo em um ambiente tropical e de risco.

Depois de sua partida, os gestores e novos proprietários consideraram a conservação de solos como algo trivial, deixaram de fazê-lo e em alguns casos o plantio morro abaixo voltou a ser uma prática nas áreas que antes eram tão bem protegidas.

Coincidentemente, à mesma época, o Engenheiro Agrônomo Elias Margolis, professor da UFRPE e pesquisador do IPA liderava um programa de pesquisa em que se contava com parcelas protegidas e tanques coletores de erosão nas Estações de Serra Talhada, Caruaru e, em Glória do Goitá, em uma área do Ministério da Agricultura.

Para tristeza, o IPA não conseguiu ao longo dos anos manter o programa e, pior, quase destruiu a área experimental construída visando a mensuração das perdas de solo e água, em suas estações experimentais, o mesmo ocorrendo com a base do Ministério em Glória do Goitá.

Vale informar que no momento a CONFAEAB – Confederação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil, coordena um esforço em que se integram instituições, visando aprovar no Congresso Nacional uma legislação específica sobre conservação de solos, o que considero de uma importância ímpar para a nação. Os exemplos de valas, conhecidas como vossorocas e perdas do solo arável são inúmeros, em particular na região dos Cerrados antes da adesão ao plantio direto e à ILPF – Integração Lavoura-pecuária-floresta. Práticas que são exemplos da sustentabilidade da agricultura brasileira, mas que seja importante lembrar não atinge sequer a metade das áreas cultivadas com grãos no país.

 Retomar o trabalho desfigurado

Aí vem nossa surpresa ao visitar o Campus de Vijayapur, da UASD, a Universidade Rural do Estado de Karnataka, na Índia ser apresentado com orgulho três projetos que remetem à sustentabilidade que normalmente propalamos. O primeiro deles com ênfase à produção de compostos a partir de estercos e palhadas contando com o auxílio de minhocas. Os números são mais do que impressionantes em termos de adensamento do produto e dos macros e micronutrientes que voltam ao solo agricultável, além do custo em caso de pequenas e médias propriedades em que o custo do adubo químico é um fator limitante.

O segundo diz respeito a captação de água in situ. Isto é, impedir que a água da chuva se desloque horizontalmente no solo e ao invés disto, penetre e seja disponível ao cultivo local. Para cada solo e declive existem práticas específicas, no caso ao qual me refiro, me foi exposto o uso de um laminador que aplicado a um trator de esteira, em solos de até 2% de declive, constroem ´quadros` com uma parede de aproximadamente dez centímetros de altura, impedindo a perda de água e forçando a infiltração dela no local onde ela cai.

O terceiro exemplo foi o que mais me comoveu, exatamente uma bateria de parcelas e tanques medidores de erosão tal qual aos que existiam nas estações de Pernambuco há quarenta anos. Ontem estive discutindo com o colega José Nunes Filho, pesquisador do IPA na Estação Experimental de Serra Talhada, um discípulo do Prof. Elias Margolis e responsável pela condução dessa atividade ao longo dos anos, o que houve e porque chegou-se à situação atual.

As causas, as omissões e as ações descabidas são o de menos. Nunca é tarde para corrigir o que se pode e, neste caso, rogo a nós que fazemos parte da academia, aos pesquisadores e principalmente aos gestores que voltem a interessar-se por um assunto que jamais deveria ter saído da agenda prioritária de ciência e tecnologia em qualquer região brasileira.

Para concluir quero louvar o trabalho que tem tentado ser feito pelo colega Pedro de Freitas, Agrônomo, pesquisador da Embrapa Solos, no Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica que ao longo de décadas, tal qual o José Nunes, continua bravamente lutando para que além de uma legislação se conte com um programa nacional em defesa do solo agricultável. A milenar índia demonstra que o tema continua sendo atual e estratégico.

 

1Professor Titular da UFRPE

Serra Talhada, 04 de outubro de 2023