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Pernambuco, 17 de maio de 2024

Agronegócios

Infraestrutura, condição indispensável ao desenvolvimento humano

A importância da governança No ano passado, é bem verdade um ano eleitoral, algumas questões vieram à tona quanto a estrutura viária de Pernambuco e sua conexão com o oeste do estado. Primeiro foi o fato de se ter enterrado o projeto da Ferrovia Transnordestina em seu eixo principal, aquele que liga Eliseu Martins, no […]

Postado em 02/11/2023 2023 12:40 , Agronegócios. Atualizado em 02/11/2023 12:40

Colunista

A importância da governança

No ano passado, é bem verdade um ano eleitoral, algumas questões vieram à tona quanto a estrutura viária de Pernambuco e sua conexão com o oeste do estado. Primeiro foi o fato de se ter enterrado o projeto da Ferrovia Transnordestina em seu eixo principal, aquele que liga Eliseu Martins, no Estado do Piauí, ao Porto de Suape, no litoral pernambucano. A pá de cal foi posta em dezembro de 2022 quando o governo federal e a empresa concessionária da obra anunciaram que o trecho Salgueiro-Suape estaria fora do projeto e o que interessava naquele momento era a interligação com o Porto de Pecém, no estado do Ceará. Para a importância do que uma decisão desta representa, o impacto foi mínimo. Não houve cobrança, busca de esclarecimento. Os políticos de Pernambuco, envolvidos na campanha presidencial e parlamentar, preferiram fazer de conta que esta decisão não era problema deles, muito menos o que representava em dano à autoestima do pernambucano.

Uma outra questão estratégica negligenciada é a que diz respeito à duplicação da rodovia BR 232, a coluna vertebral de Pernambuco. As obras de expansão ficaram paradas por 22 anos até ser iniciado no início de 2022 o acréscimo de uma terceira faixa no trecho final da Av. Abdias de Carvalho e o acesso ao TIP – Terminal Integrado de Passageiros, um percurso de oito quilômetros que já consumiram uma bela soma de recursos e quase dois anos em obras. Algo difícil de se justificar. É nesta rodovia onde estão trafegando as pessoas e as cargas. É ela que representa a integração Leste-Oeste do estado e o eixo em que se desloca não apenas a riqueza mas a autoestima dos pernambucanos.

Anunciou-se a retomada de um conjunto de obras estruturadoras do país, incluindo o eixo Salgueiro-Suape da Ferrovia Transnordestina. Uma série de iniciativas de entes públicos e privados germinaram de imediato criando comissões e grupos de trabalho para acompanhar e cobrar a execução das obras. Interessante pois não se testemunhou esta iniciativa quando a obra foi riscada do projeto. Também esqueceram de ao menos emitir um sinal de agradecimento a quem de fato recolocou a questão da ferrovia de Pernambuco na agenda do PAC, o Presidente Lula.

Logo a seguir vem o anúncio da duplicação da BR 232 entre São Caetano e Serra Talhada. Algumas questões ainda não foram esclarecidas. Em primeiro lugar, onde está o dinheiro do projeto de engenharia. Não é caso, deve custar ao redor de R$ 25 milhões, mas ninguém se manifestou informando que haverá uma licitação a ser aberta. O segundo ponto diz respeito à fonte de recursos para a obra em si. Não estando incluído no orçamento do PAC, nem na LDO, de onde virá? Serão destinadas todas as emendas de bancada do orçamento 2024 para o início dos trabalhos da rodovia? O governo estadual priorizará a obra e bancará parte substancial do orçamento requerido?

A sociedade se movendo

No próximo dia 06 de novembro de 2023, segunda-feira, o sistema Fecomércio PE, Sesc e Senac realizam, em Serra Talhada, um debate importante para o sertão e todo o estado intitulado “Impactos dos projetos de infraestrutura na região”. Uma discussão bem vinda particularmente quando ainda se encontram os governos federal e estadual em início de mandato, demonstrando que a sociedade pode também ser propositiva, apresentar soluções, propor iniciativas que aceleram o dinamismo da economia de Pernambuco e da região.

 O comércio, as indústrias, os serviços estão à espera de uma nova atitude frente ao desenvolvimento regional. Vale lembrar o que ocorreu com a Europa há quarenta anos quando os países ricos compreenderam que não havia como ter um continente próspero com bolsões de pobreza, direcionaram investimentos para as regiões mais deprimidas de Portugal, Espanha e Grécia, além de investimentos elevados nas estradas, portos, aeroportos e ferrovias desses países. Muitos, inclusive consideravam um desperdício, outros achavam que eram investimentos indevidos, o resultado é o que se vê hoje. Apesar da crise sistemática vivida pela Europa, as regiões citadas são exemplos de prosperidade e são aquelas menos afetadas pelas turbulências migratórias, econômicas e geopolíticas.

Qual a diferença entre se contar ou não com uma estrutura viária moderna?

E aí, com a BR 232 recuperada e duplicada, seja até Serra Talhada ou Salgueiro e a Ferrovia Transnordestina em funcionamento, o que se pode esperar da fruticultura do vale do São Francisco e do Vale do Moxotó? Que vantagens espera o setor avícola? Dará para o setor gesseiro notar que seu mercado preferencial será o cerrado, onde mais de cinquenta milhões de hectares cultivados com grãos que necessitam de gesso e calcário? E a indústria regional como reagirá a um fluxo de cargas mais seguro, rápido e de menor custo? 

Citou-se a Europa, em um período mais recente, os investimentos em infraestrutura na Ásia têm sido marcantes, mas se não quisermos ir muito distantes basta ver o que os estados vizinhos à Pernambuco têm procurado fazer.

O que se pode esperar?

Após os vários avanços alcançados na região Semiárida nas últimas três décadas: eletricidade no meio rural, estradas vicinais mesmo necessitando de mais atenção, acesso à água, disponibilidade e uso da internet, incremento no uso das energias renováveis eólica e fotovoltaica, dinamização do turismo no litoral e educação superior em todo o território Chegou o momento de se investir substancialmente na infraestrutura viária nos próximos dez anos. Iniciativas mais robustas não podem ser planejadas para um mandato. São empreendimentos que transcendem governos específicos. Caso não haja continuidade, o prejuízo é visível. Logo, este pacto pela modernização das estradas, portos, aeroportos e ferrovias da região Nordeste e, em especial do Semiárido deve ser levado a sério. A sociedade tem sido de certo modo complacente e não tem procurado acompanhar quais as políticas e ações tendem ou não a beneficiar a região e sua economia. Tendo como base o que tem sido testemunhado em outros países, a nação necessita ser gerida com mais ousadia, dando a prioridade ao que de fato interessa. Sem arroubos messiânicos ou soluções imediatistas mas com um plano que se perceba começo, meio e fim.

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 02 de novembro de 2023