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Pernambuco, 29 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Energias renováveis versus aquíferos. Uma permuta de risco

Em alguns locais deste bolsão de águas subterrâneas tem se observado o uso intensivo do solo para instalação de placas fotovoltaicas sob a alegação de que há uma maior proximidade das linhas de transmissão, das subestações ou estações distribuidoras. Trata-se de um argumento razoável mesmo sabendo-se que é infinitamente mais fácil se construir uma malha de transmissão de energia do que a água em si.

Postado em 15/12/2023 2023 15:48 , Agronegócios. Atualizado em 15/12/2023 15:48

Colunista

A importância das energias renováveis

Não é algo tão distante lembrar que entre 2001 e 2002 o Brasil viveu uma situação de calamidade energética devido às baixas precipitações nas principais bacias hidrográficas, reduzindo a produção de energia a partir de hidroelétricas a um nível crítico. A solução, hoje até risível, foi a criação do Ministério do Apagão liderado por um político pernambucano com o objetivo de se encontrar soluções capazes de evitar o caos e ao mesmo tempo rezar para que as chuvas voltassem ao padrão normal. O gabinete de crise produziu documentos recomendando a redução do uso de energia no ambiente doméstico, industrial, comercial, institucional, instalando-se um verdadeiro ambiente de medo pelo que poderia ocorrer. 

Como em qualquer momento de desespero e aflição, há sempre quem lucre, neste caso as empresas concessionárias de usinas geradoras de energia termelétricas, cujo quilowatt produzido equivale a cinco vezes, no mínimo, ao valor da energia hidrelétrica. Este foi e é um fantasma que perdura até hoje o sistema de geração e distribuição de energia, uma vez que o governo ao acatar as cláusulas que eliminavam o risco dos investidores, transferiu à sociedade brasileira o ônus do pagamento de um valor fixo às empresas, queiram as usinas esteja funcionando ou não. Uma aberração característica do liberalismo econômico brasileiro.

A partir da primeira metade da década voltaram-se as atenções para as energias renováveis. Primeiro os parques eólicos, com os estados do Ceará e Rio Grande do Norte ocupando o papel de precursores na região, muito embora o pioneiro em advogar, desenvolver e atrair investimentos do Brasil e do exterior para o setor tenha sido o Engenheiro Mecânico e ex-professor da UFPE, o empresário Everaldo Feitosa.

A seguir, testemunhou-se o crescimento exponencial da geração de energia a partir de painéis fotovoltaicos ou a conhecida energia solar. Inicialmente, grandes parques passaram a ser instalados, seguindo de uma verdadeira avalanche de geração difusa que ocupa o espaço em todos os ambientes, de norte à sul. Há sistemas instalados variando de duas a dois milhões de placas. No futuro breve contar-se-á com placas mais eficientes, mais resistentes e de menor custo. Este novo perfil energético evitou a perpetuação do Ministério do Apagão e já não se ouve falar do risco de falta de energia por incapacidade de geração.

O que representa um aquífero no semiárido.

Que se inicie a viagem ao mundo das águas profundas, que não são notadas a olho nu e que merecem um investimento diferenciado e um conhecimento geológico apurado para o seu uso. Já foi posto em algum outro texto que não se trata de imaginar no Semiárido um Aquífero como o Guarani, na região central do país, que também contempla o Paraguai, a Argentina e o Uruguai ou mesmo o Aquífero Alter do Chão, contemplando os estados do Amazonas, Pará e Amapá constituindo no mais volumoso aquífero do mundo. A pretensão pernambucana é bem menor, quer se trate do aquífero do Moxotó, em Ibimirim, ou o de Fátima, em Flores. Este último como parte de um complexo que se inicia em São José do Belmonte, passando contempla Betânia, Floresta, Carnaubeira da Penha, Serra Talhada, Mirandiba e São José do Belmonte. Apesar dos avanços, o uso dessas águas ainda é muito tímido e abaixo do que é possível ser feito. Há uma aposta, da qual faço parte, de que a região em destaque se constituirá em um dos mais importantes e dinâmicos polos de agricultura irrigada do Nordeste.

Água versus linhas de transmissão

Em alguns locais deste bolsão de águas subterrâneas tem se observado o uso intensivo do solo para instalação de placas fotovoltaicas sob a alegação de que há uma maior proximidade das linhas de transmissão, das subestações ou estações distribuidoras. Trata-se de um argumento razoável mesmo sabendo-se que é infinitamente mais fácil se construir uma malha de transmissão de energia do que a água em si. Logo, usar de terras em que contam com águas subterrâneas para simplesmente produzir energia solar não é um grande negócio do ponto de vista econômico e ambiental. Sacrifica-se uma área potencialmente produtora de frutas, hortaliças, túberas, grãos, desertificando-a parcial ou totalmente. Do ponto de vista de desenvolvimento regional esta conta não fecha e merece ser refeita de modo que não se deixe de contar com os parques fotovoltaicos mas também que não se abdique do aproveitamento das águas armazenadas ao longo de milhares de anos, nesses aquíferos.

Precisamos da energia e de uma agricultura moderna e competitiva

Chamando a atenção para a inserção de milhares de jovens que estão concluindo seus cursos de graduação e pós-graduação nas escolas de nível superior no interior, condição indispensável para o desenvolvimento da região, o melhor aproveitamento dos imóveis do semiárido com atividades sustentáveis a partir de produto com melhor valor de mercado é algo que não se questiona

Cabe às prefeituras municipais, em uma primeira instância, seguindo-se do governo estadual e do governo federal avaliar se o custo de abdicar do uso de águas subterrâneas no Semiárido é maior ou menor do que  construir redes de transmissão e estações de distribuição para a geração de energia fotovoltaica uma vez que essas mesmas placas podem serem instaladas em áreas de solos com pedras ou declives não comprometendo o potencial produtivo da região e dos pequenos e micros aquíferos não apenas em Pernambuco mas em todo o Semiárido.