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Pernambuco, 03 de março de 2024

Agronegócios

O ano novo à porta, inclusive para o Semiárido

Deve-se reconhecer que foi um ano de expansão e reconquista de mercados ameaçados não apenas pelos competidores mas também por aspectos políticos que estariam perturbando as relações comerciais.

Postado em 28/12/2023 2023 18:44 , Agronegócios. Atualizado em 28/12/2023 18:49

Colunista

 

O Brasil assegura sua posição estratégica

De modo geral, o agronegócio brasileiro tem o que comemorar em 2023. A produção de grãos e carnes continua firme mesmo com a desaceleração dos preços em alguns produtos, a exemplo do preço do gado com impactos negativos sobre a produção e sem o devido reflexo no preço ao consumidor. A carne apresenta uma pequena redução no valor final, entretanto, uma queda insignificante que o pecuarista tem recebido por seu gado, quando consegue vender.

Deve-se reconhecer que foi um ano de expansão e reconquista de mercados ameaçados não apenas pelos competidores mas também por aspectos políticos que estariam perturbando as relações comerciais. A mistura de ideologia com mercado nem sempre anda bem e sacrificar clientes preferenciais não deixa de ser uma insensatez seja de onde partir. Há algum tempo o Brasil entrou nessa e, agora, vemos nossa vizinha Argentina ter a coragem de dizer que não precisa de seus principais parceiros comerciais. Obviamente os negócios dão ouvidos aos delírios de seus dirigentes, até certo ponto, mas todos sabem que insistir em medidas discriminatórias contra seus clientes é um erro crasso com consequências nefastas. Por aqui a teoria do caos ficou para trás e a racionalidade volta a tomar seu devido lugar quando os assuntos giram em torno das relações internacionais e do interesse econômico da nação.

O importante é reconhecer que desde há alguns anos o Brasil é considerado uma nação estratégica para a paz e o bem-estar mundial. A produção de alimentos é um dos atributos mais notáveis de uma nação e ainda mais quando milhares de cidadãos de outros países e regiões tornam-se consumidores de seus produtos. O país alcançou um estágio em que as estimativas de safras anuais são vistas não apenas com um mero dado estatístico mas como alívio para a segurança alimentar de locais que lamentavelmente não desenvolveram a capacidade de produzir o suficiente ou que optaram por investir em outras áreas econômicas, a exemplo da indústria.

Quanto a este ponto é bom chamar a atenção para o fato de que o Brasil tem mostrado força na produção, faltando ter o mesmo desempenho no quesito agregação de valor dos produtos agropecuários, além do fato de que há anos o país testemunha um processo de desindustrialização insustentável. Os produtos da agricultura e da pecuária por si só não conseguem substituir o setor industrial e, para tanto, se faz necessário que uma moderna política seja posta em prática imediatamente. É necessário enfatizar que não se pretende demonizar os concorrentes, mas é importante que fique claro que o país invista na capacitação de sua mão de obra para que se torne competitivo com outros países  que fizeram o dever de casa em apoio à educação e nos resultados que uma boa política pode resultar.

        

Apesar do catastrofismo de alguns e de aproveitadores de outro, o país é admirado por todo o mundo

Apesar da realidade, desenvolveu-se o costume de chorar e reclamar de tudo e de todos. Isto se reflete em uma parte da nossa intelectualidade rural que sem o menor fundamento teoriza a perseguição de países concorrentes ou não aos nossos avanços. Esta é uma hipótese que não se sustenta e álibi de um conjunto de pessoas que tentam vendar o caos para colher benefícios. O lobismo e as consultorias especializadas vivem desta doutrina. São pessoas que, pela formação, conhecem o que está ocorrendo no mundo mas se aproveitam da ignorância local para semear o medo e se apresentarem como super-heróis.

Há um segundo grupo de empresários que por deficiência técnica ou estratégica se desfizeram de suas empresas e tão logo têm o dinheiro em suas contas, passam a alardear que estrangeiros estão ´comprando´ o país e que este em muito breve se verá privado de seu patrimônio e de sua liberdade. Sem mencionar o que receberam em suas transações, ainda têm a coragem de atribuir seu insucesso às práticas nocivas do comunismo internacional. Esquecem de suas deficiências e do fato de enquanto se deitaram em berço esplêndidos seus concorrentes se qualificaram e conseguem colocar produtos similares em seu próprio quintal com qualidade igual ou superior e preços mais reduzidos.

Ainda há um terceiro grupo que, sem parar para análise, reproduzem as baboseiras dos dois primeiros sem nenhum constrangimento. São os principais clientes da imprensa marginal especializada na difusão de notícias falsas. O mais crítico é que este segmento não é constituído apenas por pessoas comuns, mas por pessoas da academia e da mídia que por algum problema têm dificuldade em se manter atualizados e ver os fatos como se apresentam.

Nem todas as regiões são iguais

Em um país com a dimensão do Brasil é claro que diferenças evidentes existem entre as regiões e biomas. Não se pode esperar que, do ponto de vista da agropecuária, o mesmo conjunto de tecnologias adotadas com sucesso no Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste possa ser transferido automaticamente para o Norte e o Nordeste. A região Sul do país sempre contou com agricultores qualificados frutos de um histórico de vários séculos de alguns países europeus ou asiáticos, destacando-se os italianos, alemães, japoneses, espanhóis, poloneses que migraram para o Brasil e para as Américas na primeira metade do século XX.

Tanto o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste detêm de terras férteis e dispõem de um regime pluvial especial. Não é à toa que essas regiões podem se dar ao luxo de aproveitarem bem precipitações médias de 1.500 mm por ano. O relevo plano ou levemente ondulado e os solos facilmente trabalháveis fizeram com que a agricultura comercial se desenvolvesse naquilo que se vê.

Norte e Nordeste merecem ser entendidos e observados com outros vieses. Em primeiro lugar, contam com uma rica biodiversidade em suas florestas, a Amazônia e a Caatinga. A primeira conhecida mundialmente e vista como fundamental para o planeta terra. Ao se coletar os dados que mostram a capacidade de fixação de Carbono, das florestas tropicais qualquer estudioso se depara com a importância estratégica deste bioma, apesar dos riscos permanentes a partir de ameaças externas e internas.

Já no caso da Caatinga, há algo que não está consolidado na visão da maioria das pessoas no planeta mas nela repousam os recursos genéticos capazes de manter a produção agrícola mundial em um momento de risco devido ao aquecimento do planeta, de modo geral, e da demanda por cultivares de cereais, pulses e demais matérias primas adaptadas a um clima mais hostil e incerto.

Vamos definitivamente enfrentar as limitações do semiárido

Mas não se pode esperar que o patrimônio existente na Caatinga seja a caverna de Ali Babá. Há de se cuidar do que se tem e no caso específico do semiárido além de duas bacias hidrográficas, a do Rio São Francisco e do Rio Parnaíba a serem mais eficientemente utilizadas. O Submédio São Francisco é um exemplo de sucesso sobre todos os parâmetros de avaliação mas o mesmo não se pode dizer do alto, do médio e do baixo São Francisco. A situação do aproveitamento das águas do Rio Parnaíba é ainda mais limitante e considerando o volume de água disponível, a área irrigada pode ser considerada como ínfima.

Por outro lado, vamos ao Semiárido que tem como principal fonte hídrica as chuvas e as águas pluviais. Esta região foi historicamente conhecida como o problema da nação, uma região sob o risco permanente de secas, de baixa produtividade para a maioria das culturas e responsável pela maior taxa de pobreza da nação.

Chegou o momento de se redefinir a narrativa. Sepultar a teoria da pobreza irremovível e passar a ver a região como passível de ser apta ao uso das tecnologias que têm modificado a economia mundial: a internet, as energias renováveis, os novos materiais, a inteligência artificial desde que acopladas e bem estruturadas a atividades econômicas na saúde, educação, comércio, serviço e na agropecuária.

Tomando-se em consideração que parte do dever de casa foi feito, que se deixe claro que uma dose maior de ousadia não fará mal a ninguém e servirá de antídoto a toda desculpa ao caráter de pobreza irremediável. Todos os que apostam neste jogo serão removidos das decisões estratégicas do Semiárido. Não se sabe em quanto tempo mas, este dia não demorará muito, fiquem atentos. Feliz Ano Novo.

     

Serra Talhada, 27 de dezembro de 2023