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Pernambuco, 25 de fevereiro de 2024

Agronegócios

Perdas agrícolas na produção e na logística: números expressivos.

Desde o final de 2022 a discussão sobre a duplicação da BR 232 entre São Caetano e Salgueiro foi intensificada, afinal é bom lembrar que fez parte do programa de governo de um dois candidato, Danilo Cabral, que tratou do trecho entre São Caetano e Serra Talhada e Miguel Coelho falando de São Caetano à Custódia

Postado em 11/01/2024 2024 19:24 , Agronegócios. Atualizado em 11/01/2024 19:26

Domingo, 07 de janeiro de 2024, tivemos a oportunidade de participar de uma caminhada, entre o Posto 411 e uma chácara à margem da Barragem do Jazigo, sentido Recife, em homenagem aos 80 anos do Sr. José Bento, pai do amigo Francisco Mourato e pessoa muito querida neste Sertão. No primeiro momento a conversa era animada e todos distraídos que nem se davam conta do que ocorria no cenário ao redor. Ao passar a ponte sobre o Rio Pajeú, próximo da derivação da estrada que dá acesso à Floresta, contemplávamos com maior acuidade a paisagem sempre surpresos com a resposta imediata da caatinga que em duas semanas, com algumas chuvas, voltou a cor verde embelezando os vales e morros ao redor. Sempre um espetáculo único que logo a seguir virão as flores e as sementes.

Grãos de milho por tudo que era lado

Em algum momento, mesmo trafegando pelo acostamento da margem esquerda da rodovia, Francisco chamou a atenção para a quantidade de grãos de milho que se via. Ao levantarmos a vista para o lado direito da pista, onde os caminhões e carretas trafegam, o susto foi maior. Naquele momento, um pouco mais de seis horas da manhã, estimei que não havia menos do que vinte grãos por metro linear, o que resulta em vinte mil grãos a cada quilômetro ou aproximadamente ou quatro quilos de grãos deixados para os pássaros. O que não deixa de ser algo positivo e a natureza agradece.

Imaginando-se uma carreta com quinze toneladas de grãos entre Uruçuí (Piauí) e São Bento do Una (Pernambuco) trafegando uma distância de um mil e cem quilômetros, teria havido uma perda estimada em quatro toneladas de grãos. Certamente o que se viu foi uma exceção mas, o fato é uma perda superior a vinte por cento da carga que havia sido registrada. Mesmo que houvessem passado duas carretas ao mesmo tempo, a perda seria significativa.

A produção agrícola é uma equação complexa. Imagine o que renderia um hectare de milho conduzido com a devida densidade de plantas, sem que houvesse falta de água, de fertilizantes, onde as pragas e doenças tivessem sido controladas e colhidas no momento correto. No mundo real, porém, vamos derivar esta expressão matemática. Somando-se as perdas por déficit hídrico, excesso de temperatura, adubação incompleta, não combate às pragas e doenças sairíamos de uma produtividade potencial de doze toneladas por hectare para uma colheita de três, em situação positiva. No semiárido, este número tem sido bem mais modesto, é bom lembrar.

Há de se imaginar que o grão que se encontra no silo estaria a salvo, até que a logística de transporte inicia seu trabalho. A primeira onda de perda fica com o produtor, a segunda, entre o que foi armazenado e o processamento, será dividida entre o empresário do abatedouro, da fábrica de cerveja ou de flocão de cuscuz e o consumidor.

Este relato reflete bem o desafio de se chegar com o alimento ao prato e a sobrevivência daqueles envolvidos na cadeia produtiva. Nos libertar do mito de Sísifo é o que a ciência, o conhecimento, as políticas públicas corretas têm a ajudar, caso contrário os empresários envolvidos estarão ao longo da vida a tentar chegar com a pedra ao cume do morro sabendo que ela inevitavelmente rolará abaixo em algum momento, recomeçando-se o exercício do ponto zero.

O que nos diz a logística e seus modais

Desde o final de 2022 a discussão sobre a duplicação da BR 232 entre São Caetano e Salgueiro foi intensificada, afinal é bom lembrar que fez parte do programa de governo de um dois candidato, Danilo Cabral, que tratou do trecho entre São Caetano e Serra Talhada e Miguel Coelho falando de São Caetano à Custódia. A partir de maio de 2023 reacendeu a discussão sobre a reinclusão do eixo Salgueiro-Suape ao projeto da Ferrovia Transnordestina, o que havia sido removido em dezembro de 2022 em um arranjo entre a concessionária que até o momento não cumpriu o acordo com o governo federal em uma decisão tão absurda que não seria exagerado os pernambucanos passarem a lembrar como o dia da desgraça.

Voltando ao caso do milho transportado desde Uruçuí e São Bento do Una ou Igarassu, onde estão localizadas as granjas e cervejarias, havendo uma ferrovia em funcionamento boa parte do que se perde nas estradas, elevando-se a competitividade das empresas que usam essa matéria prima, e consequentemente reduzindo o preço do cuscuz, dos ovos, do frango e até da cerveja.

Quanto mais próxima a produção, menor a perda

A ferrovia e a rodovia duplicada resolveriam todas nossas agruras? De modo algum. Afinal, as distâncias entre o cerrado piauiense, o agreste e a Zona da Mata continuarão as mesmas. Qual seria uma outra opção? Não é fácil de notar que a produção no terreiro reduz substancialmente os custos e é exatamente este fato que levou as empresas como a Mauriceia, de Glória do Goitá, e a Coringa, de Arapiraca, em Alagoas tivessem parte de suas operações transferidas para suas subsidiárias no oeste da Bahia, onde se encontra o milho e o farelo de soja à porta.

Desta caminhada de Seu José Bento duas lições ficam claras para o futuro da economia pernambucana. O primeiro é que a duplicação da BR 232 e o alcance da rodovia Transnordestina à Suape são estratégicas e primeiras opções na hierarquia de prioridades. Cabe aos formuladores de políticas, empresários e da sociedade estarem atentos ao que representam. A segunda é que a agricultura de Pernambuco necessitará de mudanças substanciais na próxima década. Não há como conviver sem uma política de valorização voltada à produção de alimentos e, principalmente de agregação de valor ao que for colhido. Os resultados, à exceção das regiões onde a irrigação é privilegiada, são poucos expressivos e não podem ser debitados apenas na instabilidade climática. Existem opções em que o conhecimento prevalece, as tecnologias são aplicadas e as infraestruturas disponíveis são empregadas de modo simultâneo. É seguir o caminho.