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Pernambuco, 26 de fevereiro de 2024

Agronegócios

A reconstrução de Pernambuco

Dois estados da federação têm em comum uma relação atávica com a liberdade. Pernambuco e o Rio Grande do Sul. Apesar da distância, da formação étnica, dos costumes, das expressões idiomáticas e termos em uso, o pernambucano se assemelha muito ao gaúcho.

Postado em 18/01/2024 2024 12:19 , Agronegócios. Atualizado em 18/01/2024 12:43

Colunista

Uma geografia única

Alguém que se detém a estudar a história do glorioso estado de Pernambuco se depara com uma situação curiosa. Pernambuco foi muito maior. Ao sul contava com o estado de Alagoas e ao oeste crescia em direção ao sul da Bahia acompanhando as pegadas do São Francisco. É como se tivesse uma grande cauda descendo em direção a Minas Gerais. Com certeza aquele formato tinha dificuldade em ser mantido. Do ponto de vista político o município que se encontrasse no extremo dificilmente seria contemplado com a atenção que mereceria. Dias menos dia alguma reconfiguração territorial seria feita. O mais provável seria uma permuta de terras com o estado da Bahia. Não foi bem isto o que ocorreu e, desde 1824 Pernambuco conta com seus noventa e oito mil quilômetros quadrados no desenho que lhe coube, um retângulo irregular com aproximadamente cento e trinta quilômetros de norte a sul e setecentos e cinquenta quilômetros de leste a oeste.

O preço da liberdade

Dois estados da federação têm em comum uma relação atávica com a liberdade. Pernambuco e o Rio Grande do Sul. Apesar da distância, da formação étnica, dos costumes, das expressões idiomáticas e termos em uso, o pernambucano se assemelha muito ao gaúcho. Orgulhoso de seu estado até em excesso, amante de seus símbolos a exemplo de suas bandeiras e de seus hinos. Talvez sejam as duas unidades da federação em que seus hinos são referenciados, conhecidos e cantados.

Esta situação é tão interessante que se pode encontrar o hino de Pernambuco gravado em vários ritmos, do forró ao frevo, passando pela marchinha, talvez até pelo bolero. Coisa de gente com excesso de autoestima, se é que isto existe. Aí entram também o senso de grandiosidade. Tudo aqui é maior e melhor, mesmo que na prática a realidade fique um pouco distante da versão. Trata-se de algo tão cômico que em recente peça publicitária do governo do estado enaltecendo a redução do IPVA, algo que ainda não posso informar quão verídico, concluir que apesar de Pernambuco contar com o menor valor do tributo na região, seus motoristas têm o maior sorriso.

Uma pena que este ufanismo não se aplique ao futebol. Das grandes equipes que foram o Náutico, o Santa Cruz e o Sport, restam as sombras, as resenhas passadas e as lamentações por ver a situação de lamúria em que se encontram nossos clubes. O mesmo pode ser dito do Retrô, do Salgueiro, do Afogados. De fato, não se sabe o que restou que mereça se comemorar por dois domingos seguidos. Quando o torcedor conta com uma semana alegre, quase sempre a próxima partida é um filme de suspense.

O fato é que  não se sobrevive apenas do passado e há a necessidade de constante alimentação de ânimos e de resultados positivos de forma que as pessoas sintam orgulhosas de se dizerem pernambucanas.

A secessão anunciada

Não entendam como  teoria conspiratória ou catastrofismo, tão em voga, mecanismos de secessão modernos não se dão apenas pelos limites geográficos de um país, estado ou município. Provavelmente o mais importante é o grau de influência que a ´sede` exerce sobre o território. Em outras palavras, do índice de coesividade existente entre as diversas regiões. No caso de Pernambuco, pelo fato de se ver circundado por cinco estados há sempre o risco de alguma região está sendo ´conquistada` por forças não convergentes. No caso específico há um grau de dispersão muito forte do Sertão Central e do Sertão do Araripe, sendo atraídos pelo estado do Ceará e do Sertão do São Francisco, pela Bahia. Um dos exemplos claros deste movimento é a exportação de frutas do Vale do São Francisco que se dá prioritariamente pelos portos de Salvador e Pecém, no Ceará. Apesar de cidades como Serra Talhada, Salgueiro, Araripina e Petrolina se constituírem em bastiões em defesa do território pernambucano, elas também sofrem ataques diários de seus vizinhos, especialmente os de ordem econômica. Pode parecer algo simplório mas a médio e longo prazos esta dispersão pode se avolumar chegando ao ponto de comprometer a integridade territorial de Pernambuco.

A oportunidade da reconstrução do estado

Retorna-se a questão da necessidade imperiosa da integração do território pernambucano no eixo Leste-Oeste, bifurcando-se a partir de Salgueiro em duas derivadas . A primeira, com destino a Araripina e a segunda, à Petrolina. Primeiramente vem a questão rodoviária e a importância de se iniciar a duplicação da BR 232 até Salgueiro, de imediato. Lembrando que não dá para protelar o restante desta obra.

A outra linha integradora é construída pela ferrovia Transnordestina em seu traçado original em que tem como marco zero, Eliseu Martins, no estado do Piauí, avançando-se à leste até o porto de Suape. As ferrovias no Brasil e, em se tratando da Transnordestina, têm sido motivos de negócios poucos claros, protelações, quebra de contrato, entre algumas maldades semeadas pelas empresas concessionárias.

O ideal é que Pernambuco canalize suas energias para estas duas grandes  iniciativas. Não faz sentido ficar perdendo tempo com migalhas e distrações. Em alguns momentos houve falha grosseira de liderança e as oportunidades deixaram de ser aproveitadas. O estado deve arregimentar seu empresariado, seus formuladores de políticas e seus líderes e demais segmentos da sociedade na defesa na defesa da territorialidade, da integração e da prosperidade dos e das pernambucanas.

O dever de casa não se encerra neste dois quesitos, mas sem eles a obra ficará incompleta em qualquer dimensão de tempo e importância. O Semiárido deve ser visto com um olhar mais realista. Até então prevalece a ideia de uma região pobre, pouco dinâmica e demandante de apoio externo. Vale a pena mudar o padrão de discussão e apresentá-la como uma região de oportunidades econômicas, ambientais, sociais e, inclusive, no que se refere a integração do estado.