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Pernambuco, 26 de fevereiro de 2024

Economia

Soluções para o desenvolvimento de Pernambuco passam pelo semiárido

A instalação de uma conexão rodoferroviária e investimentos em energia renovável é biotecnologia aplicada à seca são caminhos possíveis para desenvolver a região que representa cerca de 90% do território de Pernambuco.
Por Rafael Dantas – Revista Algomais 

Postado em 28/01/2024 2024 19:27 , Economia. Atualizado em 28/01/2024 19:29

Pernambuco construiu uma robusta trajetória econômica a partir do litoral, na Região Metropolitana e Zona da Mata, e encaminhou o desenvolvimento em direção ao Sul, com o Complexo de Suape e, ao Norte, com o polo automotivo de Goiana. Mas tem um forte déficit de investimentos no seu interior. Mesmo com experiências exitosas na economia, como na fruticultura irrigada do Vale do São Francisco e na indústria de confecções, o futuro do Sertão e do Agreste, imersos em grande parte no Semiárido, precisa ser uma das prioridades para o Estado nas próximas décadas. Essa foi uma das constatações da mais recente reunião da Rede Gestão, que tem discutido um novo modelo de desenvolvimento para o Estado no âmbito do projeto Pernambuco em Perspectiva — Estratégia de Longo Prazo.

Diferente das abordagens tradicionais sobre o Semiárido, o engenheiro agrônomo e professor da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco – Campus Serra Talhada), Geraldo Eugênio, destacou as oportunidades que estão no horizonte de cidades promissoras do interior, como Serra Talhada. Ao mesmo tempo em que abrange potenciais relevantes para o Século 21, como a geração de energias renováveis e mão de obra qualificada em decorrência da interiorização das universidades, ele destaca que a região inevitavelmente continuará a conviver com desafios históricos naturais como é o caso da escassez hídrica.

“Se existe uma realidade incontestável é que a seca é nossa irmã. A única certeza que tenho é da seca, que ela vem. Pode demorar um ano ou dois, mas vem. No final do ano passado, os principais laboratórios do mundo da meteorologia atentaram para o fato que virá um ciclo de El Niño e que a gente entrará em um novo período de seca. Se houve um alerta, temos que estar preparados. Seca é para ser gerida como qualquer empreendimento”, explicou o docente.

“O grande diamante dessa história (do semiárido) são os genes que conferem às plantas resistência às mudanças climáticas, a falta d’água. Na agricultura mundial, quem cultiva trigo, cevada, soja, está necessitando disso.”Geraldo Eugênio

No entanto, além da necessidade de preparar a região para os novos ciclos de maior escassez de água, Geraldo aponta para um novo horizonte. Diante do cenário de aquecimento global, as lições do semiárido mais populoso do mundo podem trazer oportunidades para Pernambuco e para além das nossas fronteiras. “Nós temos um planeta em processo acelerado de mudanças climáticas. Onde é que está a chave dessa história em relação ao futuro da agricultura mundial? Nas áreas áridas e semiáridas”. O docente destaca que essas regiões não abrigam apenas plantas retorcidas e pequenos animais, mas alguns conhecimentos fundamentais para o mundo mais quente e seco com o qual passamos a conviver.

“São milhões de anos de evolução, aonde os genes que fazem com que a vida ocorra mesmo com sete, oito ou nove anos de seca, estão ali. Temos o Semiárido de um milhão de quilômetros quadrados, eu imagino que podemos ter um grande Centro de Biotecnologia Aplicada à Tolerância à Seca e à Alta Temperatura. Isso é mais que fundamental”, afirmou Geraldo Eugênio. “O grande diamante dessa história são os genes que conferem às plantas resistência às mudanças climáticas, à falta d’água. Na agricultura mundial, quem cultiva trigo, cevada, soja, está necessitando disso”.

Além da organização desse centro, ele faz ainda duas propostas relacionadas à escassez hídrica. A primeira é a criação de uma Instituição de Gestão das Secas. Essa entidade abrigaria informações históricas relacionadas ao fenômeno natural, bem como sobre as intervenções que foram feitas.

Outra defesa do pesquisador é acerca da conexão em rede com organizações de outros lugares áridos e semiáridos do mundo. “Da mesma forma que temos uma coalizão mundial para a Amazônia, obrigatoriamente estaríamos à frente em uma Coalizão Internacional para o Semiárido visando à mitigação e à solução das mudanças climáticas. De seca entendemos e estamos com o produto que o mundo vai precisar”, alertou o professor da UFRPE.

BASE INTELECTUAL DA REGIÃO

Para fixar essas iniciativas num planejamento estratégico para o Estado, diante de uma oportunidade global, Pernambuco não precisaria dar os primeiros passos mas, sim, aprofundar os investimentos em ciência na região. Serra Talhada, no coração do Sertão do Pajeú, por exemplo, já possui a Universidade Federal Rural de Pernambuco desde 2006. A UPE também está na região desde 2013.

A reitora eleita para os próximos anos da UFRPE, Maria José de Sena, que participou da reunião, destaca que o mais difícil já foi alcançado, que é a formação e fixação de pesquisadores na região. “Tem solução, tem perspectiva. É preciso que o Estado como um todo, Pernambuco e o Brasil, entenda o potencial que temos no Semiárido desse País. Sou uma esperançosa. Lá já existe uma semente plantada, com uma raiz profunda, que é uma UFRPE, que é uma UPE e outras instituições. O intelecto já tem. Temos 200 professores doutores e pós-doutores lá”.

Perto de iniciar o seu terceiro mandato na reitoria, a partir do mês de maio, ela promete intensificar a atuação na região. “O Brasil não está discutindo ainda a seca que está vindo aí. Mas o mundo já está. Parece até que não estamos acreditando no que a ciência está dizendo. Vamos ser bastante agressivos, vamos dizer que é preciso aproveitar esse potencial. Temos grandes possibilidades de desenvolvimento no Sertão do Pajeú. O mais difícil e caro já temos, que é o bojo intelectual. Quando investimos em educação, investimos em perspectiva”, declarou Maria José de Sena.

O conjunto de pesquisas desenvolvidas e de profissionais formados na região em menos de duas décadas tem transformado a cidade. Além do polo educacional, que atrai jovens da região, outros setores passaram a receber investimentos mais robustos, como o da saúde.

INFRAESTRUTURA PARA INTEGRAÇÃO COM O INTERIOR

Enquanto a pauta da biotecnologia associada ao semiárido é uma agenda quente do Século 21, Pernambuco tem ainda o desafio de superar gargalos básico de infraestrutura, como estradas e conexão ferroviária. Em sua apresentação, o professor Geraldo Eugênio sugere uma visão ousada, de estado, para avançar com a duplicação da BR-232 de São Caetano até Salgueiro.

“Isso é essencial para o nosso Estado, é uma coluna vertebral que conecta centros de desenvolvimento regional, como Belo Jardim, Pesqueira, Arcoverde, Serra Talhada e Salgueiro. Se observarmos 30 quilômetros de norte a sul ao longo dessa BR-232, existem mais de 70 a 80 municípios”. Ele informou que nesse trecho há tráfego intenso em toda a extensão, principalmente entre Arcoverde e São Caetano.

Além dessa obra, Geraldo agregou ainda a proposta de duplicar a BR-236, que conecta Salgueiro até Parnamirim e Araripina, no extremo noroeste de Pernambuco. Essa região já possui forte influência do Cariri Cearense. Com esse esforço de infraestrutura, o Estado teria uma completa integração Leste-Oeste-Noroeste. “Funcionaria como eixo de atração do Sertão do Araripe com Pernambuco. Além disso, aproxima o Estado do Cerrado Brasileiro que é o celeiro nacional. O grande motor da economia nacional hoje se chama Cerrado Brasileiro, o centro do Brasil. Já estamos muito próximos, precisamos nos integrar a ele”.

A conexão rodoviária do Estado teria ainda como desafio a duplicação da BR-116 e da BR-428, que ligariam Salgueiro a Cabrobó e Petrolina, no sudoeste pernambucano. “Pernambuco não pode conviver com a ausência de uma estrada duplicada até Petrolina, que é uma das áreas de maior avanço tecnológico em agricultura em todo o mundo. É um hub que não encontra tecnologia agrícola superior nem na Califórnia, nem em Israel, nem na Espanha, nem onde quer que seja. Se nós quisermos conservar Petrolina como parte de Pernambuco, temos que valorizar isso que nós temos. Não tem como pensar o Estado em 15 anos, sem imaginar que esse desenho todo de rodovias esteja completo”.

Com esses investimentos, estaria pavimentada a requalificação da espinha dorsal do Estado, reduzindo os custos e o tempo de deslocamento de mercadorias e pessoas entre as principais microrregiões. O pesquisador avalia que essa infraestrutura melhoraria a integração entre Petrolina e o Recife, além de otimizar a conexão com os sertões da Bahia e do Ceará.

TRANSNORDESTINA

Além dessa infraestrutura rodoviária, Geraldo enfatizou a relevância da retomada das obras da Transnordestina entre Salgueiro e Suape. Mais do que conectar a região, essa estrutura ferroviária é considerada fundamental para o desenvolvimento do principal porto pernambucano.

O pesquisador considera que o ponto mais dramático da odisseia que envolve a construção dessa ferrovia foi em dezembro de 2022, quando a empresa concessionária retira o trecho de Salgueiro a Suape do projeto da Transnordestina. Além disso, lamentou o silêncio absoluto da elite pernambucana na época, que não se manifestou de forma contrária. A mobilização acontece apenas meses após o anúncio da exclusão.

“Ela é tão grave quanto a separação do São Francisco ou a retirada de Alagoas de Pernambuco, um desastre! Temos uma elite na lona, sem visão de estado. Visão estratégica zero”, criticou Geraldo. “Não tem como a gente imaginar ter um porto desse, com todo respeito, muito superior ao de Pecém em todas as condições de logística, de atracamento, de profundidade, de facilidade, e manter-se calado sobre o cancelamento do trecho pernambucano da ferrovia”.

Além da relevância para Suape de se conectar a Elizeu Martins, no Piauí (região que abriga jazidas de minério de ferro), o pesquisador lembrou que no ano passado outra região entrou no radar do setor. “Há uma mineração de cobre que está no Agreste de Alagoas, numa cidade chamada Craíbas, ao lado de Arapiraca, que talvez tenha mais valor do que a que está no Piauí”. Com a exploração do minério, abre-se uma nova possibilidade para a ferrovia até Suape, visto que o Porto de Maceió não teria as características de infraestrutura necessárias para exportar essa carga.

“A Transnordestina é fundamental para Pernambuco porque retira o Porto de Suape do isolamento e da dependência do petróleo (da refinaria) e do polo automotivo. Sem malha ferroviária não existe porto de dimensões globais e regionais. Além disso, a ferrovia atrai as cargas do interior como grãos, carne e minérios. Nós não temos tido a oportunidade de ser mais intensos nesse comércio com o exterior por causa da logística”, analisa Geraldo.

O INTERIOR E AS ENERGIAS RENOVÁVEIS

Além da biotecnologia, do investimento em formação e da conexão rodoferroviária do território, como eixos estratégicos no cenário de desenvolvimento do Estado, outra agenda com forte potencial do interior é a das energias renováveis. Após saltar na frente na região, com a instalação de um polo industrial em Suape durante os mandatos do ex-governador Eduardo Campos, Pernambuco foi ficando atrás dos estados vizinhos nessa agenda. Isso se mostra de forma mais clara atualmente, com a chegada dos grandes investimentos na produção de hidrogênio verde no Nordeste.

Diante da falta de alternativa de construção de novas hidrelétricas, o caminho para o crescimento da geração de energia para o País, nas próximas décadas, é no avanço dos parques eólicos e solares, para os quais o Nordeste guarda o maior potencial. Em sua apresentação, Geraldo destaca que a construção da ferrovia poderia acelerar a instalação dessa indústria de energias renováveis no Sertão pernambucano e nos demais estados da região. “A Transnordestina reduziria os custos e o tempo da instalação dos equipamentos eólicos e voltaicos. O noroeste de Pernambuco, no triângulo com o Piauí e o Ceará, que já conta com quantidade significativa de torres instaladas, tem capacidade de gerar 4 GW por ano de geração de energia. Isso equivale a um terço de Itaipu (Usina Hidrelétrica instalada entre o Brasil e o Paraguai)”.

No debate da Rede Gestão, o engenheiro elétrico Pedro Jatobá, defendeu a necessidade de repensar o desenvolvimento da região, com destaque para os potenciais atuais do Sertão pernambucano e diante das tendências para as próximas décadas no mundo. Ele mencionou, por exemplo, que existe atualmente uma aproximação da produção energética com a agricultura, devido à capacidade de produzir fertilizantes por meio do hidrogênio verde. Mas ele sugere uma discussão mais ampla, que vá além do potencial energético da região.

“É impossível não pensar no que está acontecendo na Amazônia, onde criou-se um movimento mundial de defesa, muito bem articulado e pensado, tanto que eles discutem o programa Amazônia 4.0, que é o modelo de desenvolvimento que se dá para a região diante da nova situação do mundo. O que eu ouvi aqui é mais do que suficiente para a gente pensar num Semiárido 4.0 e divulgá-lo. Não vamos nos livrar nunca da seca. Vamos ter que conviver com ela e usar tecnologia e conhecimento para tirar todo o valor do que ela pode ter. Temos que ter um projeto para o Semiárido 4.0”, sugeriu Pedro Jatobá.

PERNAMBUCO EM PERSPECTIVA – ESTRATÉGIAS DE LONGO PRAZO

O consultor Francisco Cunha ressaltou que a formulação de um novo modelo para o desenvolvimento de Pernambuco passa, necessariamente, por uma nova mentalidade em relação ao Semiárido, que ocupa 90% do nosso território, segundo dados do relatório do PBMC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas).

“Entendemos que o projeto de desenvolvimento, que foi gestado em meados do século passado pelo Padre Lebret, esgotou-se na medida em que praticamente foi implantado, principalmente nos governos Jarbas Vasconcelos e Eduardo Campos. Enfrentamos agora, neste século, uma necessidade de mudança de mentalidade, inclusive diante da realidade da crise climática. Nunca tinha ouvido falar que o Semiárido era a solução. Sempre apareceu como problema a ser enfrentado. Para pensar o futuro de Pernambuco, precisamos pensar bem o Semiárido. Com o esgotamento do antigo modelo de desenvolvimento, com certeza o próximo precisa ter como protagonista os 90% do nosso território que é o Semiárido”, declarou Francisco Cunha.

O projeto Pernambuco em Perspectiva tem discutido mensalmente com especialistas de diferentes áreas as estratégias de longo prazo para o desenvolvimento do Estado. O conteúdo debatido nas reuniões da Rede Gestão, além da cobertura da Algomais, será condensado em uma publicação específica com o objetivo de fomentar o debate público sobre o desenvolvimento de Pernambuco, de forma analítica e propositiva.

O recado do primeiro encontro do ano do projeto Pernambuco em Perspectiva é da urgência do investimento em uma maior integração dentro do Estado, por meio da ferrovia e da requalificação rodoviária. Mais que essa conexão, todavia, o debate sugere uma aposta nas necessidades globais do Século 21, associados aos potenciais da região semiárida que são a geração de energia e da biotecnologia aplicada à seca e às altas temperaturas.

Por Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais

Fonte | Revista Algomais