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Pernambuco, 21 de maio de 2024

Bem Estar

Além das telas: uma perspectiva psicanalítica sobre saúde mental na era digital

A psicanálise sugere que, ao nos perdermos em um mundo virtual, podemos estar tentando preencher um vazio interno, uma lacuna que a realidade física parece incapaz de satisfazer. Esse comportamento pode ser um sinal de alerta, um convite para explorar o que realmente buscamos através dessa conexão constante.

Postado em 16/04/2024 2024 18:12 , Bem Estar. Atualizado em 16/04/2024 17:24

Colunista

 

A era digital trouxe consigo uma revolução na forma como interagimos com o mundo e com nós mesmos. A psicanálise, com sua ênfase na introspecção e no inconsciente, oferece uma lente valiosa para examinar as consequências do uso excessivo de telas na saúde mental. À medida que mergulhamos mais fundo na compreensão dessas dinâmicas, torna-se evidente que a tecnologia pode tanto enriquecer quanto empobrecer nossa experiência humana.

Esse apego às telas pode ser interpretado como um mecanismo de defesa contra a ansiedade existencial, uma forma de negação da finitude e da solidão inerentes à condição humana. A psicanálise sugere que, ao nos perdermos em um mundo virtual, podemos estar tentando preencher um vazio interno, uma lacuna que a realidade física parece incapaz de satisfazer. Esse comportamento pode ser um sinal de alerta, um convite para explorar o que realmente buscamos através dessa conexão constante.

A relação entre o self e o outro também é profundamente afetada pelo uso excessivo de telas. A psicanálise nos ensina que o espelho digital pode distorcer a maneira como nos vemos e como percebemos os outros. As redes sociais, em particular, podem criar uma versão idealizada do self que, embora sedutora, é muitas vezes uma representação superficial e inautêntica de quem realmente somos.

A dependência de telas também pode ser vista como uma manifestação de impulsos regressivos, um desejo de retornar a um estado de dependência infantil onde nossas necessidades são atendidas instantaneamente. A psicanálise nos encoraja a reconhecer e trabalhar esses impulsos, promovendo um crescimento emocional que nos liberta da necessidade de gratificação constante e imediata.

A psicanálise também destaca a importância do tédio e da capacidade de estar sozinho. Em contraste com a estimulação constante das telas, o tédio pode ser uma força criativa, um espaço para a reflexão e o desenvolvimento do pensamento independente. A capacidade de tolerar o tédio é essencial para o desenvolvimento de um self autônomo e resiliente.

Além disso, a psicanálise nos lembra da importância dos sonhos e da vida interior. O uso excessivo de telas pode sufocar a capacidade de sonhar e fantasiar elementos cruciais para o bem-estar psíquico. Ao reduzir o tempo de tela, podemos reacender a chama da imaginação e reestabelecer uma conexão mais profunda com nosso mundo interior.

Portanto, a psicanálise nos oferece uma oportunidade de reavaliar nossa relação com a tecnologia. Ao entender as motivações inconscientes por trás do uso excessivo de telas, podemos começar a fazer escolhas mais conscientes sobre como interagimos com o mundo digital. Isso não significa rejeitar a tecnologia, mas sim integrá-la de uma maneira que enriqueça, em vez de diminuir, nossa experiência humana. A jornada para um equilíbrio saudável entre o mundo virtual e o real é contínua, mas a psicanálise fornece as ferramentas para navegar esse caminho com maior autoconsciência e propósito.

 

Daniel Lima, psicanalista.

www.psicanalisedaniellima.blogspot.com

daniellimagoncalves.pe@gmail.com

@daniellima.pe