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Pernambuco, 21 de maio de 2024

Agronegócios

Surpresa e imprevisibilidade climática

Desde o início do ano passado, as alterações térmicas no Pacífico à altura do Peru indicavam que havia uma forte ocorrência do fenômeno El Niño e, consequentemente, um ou mais anos secos prevaleceram sobre o Semiárido brasileiro.

Postado em 18/04/2024 2024 19:01 , Agronegócios. Atualizado em 18/04/2024 19:01

Colunista

Boas chuvas, até o momento

Em uma cena típica de Glauber Rocha, o matuto, com as mãos para o céu, gritaria em todo o volume: Deus é o maior. Somente ele poderá prever o que ocorrerá nesta terra ou qualquer lugar. Esta é a reação da maioria dos sertanejos ao perguntarmos como está o andamento de nosso inverno. Complementa ainda dizendo que a maioria dos letrados andou falando que haveria o risco de seca para 2024, sem o devido respeito do divino. Grupo no qual me incluo. Desde o início do ano passado, as alterações térmicas no Pacífico à altura do Peru indicavam que havia uma forte ocorrência do fenômeno El Niño e, consequentemente, um ou mais anos secos prevaleceram sobre o Semiárido brasileiro.

Felizmente a previsão falhou e mais um ano de chuvas ao redor da média ocorre na região. Não há como negar que a familiar, embora nem indesejável seca pode retornar e estabelecer-se a qualquer momento, por enquanto ela preferiu adiar a visita ao Semiárido nordestino e repousar em outras regiões.

A temperatura das águas do Pacífico não é o suficiente para se prever seca no Nordeste   

As previsões de seca não foram feitas por instituições incapazes ou profissionais amadores. Se no caso do Semiárido elas não se cumpriram, não o mesmo não deve ser dito das nações da América Central e México que testemunharam uma intensa seca no segundo semestre de 2023 com danos significativos à produção de alimentos como o feijão e o milho.

Já em relação ao Brasil os impactos foram menores, mesmo havendo a ocorrência de veranicos em áreas do Centro-oeste, Sudeste e Sul. Apesar das previsões catastróficas em relação à redução das safras publicadas por várias associações representantes de produtores, a produção total do país voltou a crescer, indicando que neste caso, a CONAB e o USDA estavam certos em suas estimativas. O argumento de acesso ao seguro, à renegociação de dívidas  e de créditos fica difícil de se sustentar quando contrário às expectativas, se confirma o crescimento da produção de cereais, no Brasil.

O ponto fundamental a se considerar é que o fenômeno El Niño em si não é suficiente para se estimar a ocorrência ou não de secas no Semiárido brasileiro. Estudos mais profundos devem ser realizados de modo a contar com variáveis que possam auxiliar com mais acurácia a prvisão de safras no país e, em particular nas regiões suscetíveis à secas.

Mais articulação, mais investimentos

Mas se ainda há necessidade de mais dados e mais refinamento na análise dos mesmos, visando-se contar com previsões mais precisas que se faça. Em primeiro lugar há de se considerar que ainda há um longo caminho à frente para se contar com parcerias efetivas entre dezenas de instituições que coletam dados meteorológicos. Unificar as bases de dados, os modelos estatísticos usados é fundamental. Sem que o compartilhamento de esforços e inteligência seja resolvido haverá sempre uma subutilização das informações obtidas.

O segundo passo tem a ver com recursos para custeio direcionados às instituições responsáveis pela coleta das informações. É comum se testemunhar esforços dos governos federais e estaduais dirigidos à aquisição de novas estações meteorológicas automáticas mas ao se acompanhar o uso verifica-se que um número significativo está avariado ou algum impedimento que evita que a rede de instrumentos instalada em alguns estados da região seja superior a de alguns estados dos Estados Unidos por exemplo.

Sobram duas questões a serem abordadas: uma análise sobre a disponibilidade de recursos humanos devidamente capacitados para a função esperada em termos de número e qualificação. Se supõe que em ambos os casos há algo a ser feito mas qualquer avanço em termos de contratação antecede uma imersão no dia a dia das instituições e ver como se distribui a mão de obra disponível. Constatando que unidades como o IMET, o INPA, as instituições estaduais de monitoramento de água e clima e os laboratório e grupos de pesquisa em algumas universidades e instituições de pesquisa necessitam de uma maior aporte técnico que se faça, o mais rápido quanto possível.

Não posso adiantar se há déficit em termos de infraestrutura física, deve ser o mínimo possível, uma coisa porém é certa, a defasagem instrumental, softwares e aplicativos em não poucos casos, limita o desempenho dos grupos, o compartilhamento de dados, a análise e a previsão, ao final.

Este comentário diz respeito a uma área importante, previsão meteorológica, muito embora a necessidade de se avançar na gestão de secas, é um pouco mais complexo mas protele-se ou não.

Rede Nacional de Satélites

O risco de se ver ilhada a partir do debacle econômico ocorrido nos Estados Unidos e alguns países ocidentais em 2008, fez com que nações como a Rússia, a China e a Índia corressem em montar sistemas de satélites e domínio de dados e imagens que se contrapusesse ao ao GPS – Global Positioning System, dos Estados Unidos.

Atualmente há pouco a se questionar sobre a efetividade e avanço dos novos sistemas quer para fins pacíficos ou bélicos. É neste sentido que o Brasil deve insistir em apoiar a criação de seu sistema próprio, algo evidente e que já passou pelo crivo do Congresso, de forma que em um prazo que não exceda dez anos o Brasil tenha seus primeiros satélites em órbita. Não há mais o que ser adiado e dentre as enormes oportunidades e aplicações o quesito previsão climática é estratégico para o desenvolvimento da região semiárida. Resumindo toda esta história, o fato é que já se conta com milho verde, plantado no Sertão de Pernambuco, nos mê de fevereiro contra qualquer previsão lógica àquela época