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Pernambuco, 20 de maio de 2024

Coluna Psicanálise no Cotidiano

Conectados, mas isolados: o dilema da era digital

A nomofobia é o medo de ficar sem o celular ou desconectado da internet, e vai além da dependência tecnológica. Ela pode ser um indicativo de uma luta interna contra o isolamento e a desconexão em um mundo que valoriza a hiperconectividade.

Postado em 23/04/2024 2024 18:58 , Coluna Psicanálise no Cotidiano. Atualizado em 25/04/2024 11:34

Colunista

 

A era digital transformou radicalmente a maneira como interagimos com o mundo e conosco. A onipresença da tecnologia digital trouxe consigo um paradoxo complexo: apesar de estarmos mais conectados do que nunca, muitos experimentam um sentimento de isolamento, como se estivessem sozinhos em uma multidão virtual. Esse paradoxo revela-se nas sutilezas do dia a dia, nas interações que, apesar de virtuais, carregam consigo a carga emocional e psicológica do contato humano. A F.o.M.O (Fear of Missing Out) e a nomofobia são sintomas contemporâneos desse paradoxo, refletindo uma ansiedade que surge da necessidade incessante de estar online e da aversão ao desligamento digital. Esse fenômeno evidencia não apenas a nossa dependência da tecnologia, mas também a nossa constante busca por conexão e validação, mesmo que muitas vezes de forma superficial e fugaz.

A F.o.M.O é um fenômeno que transcende a simples preocupação de estar por fora dos eventos sociais; ela reflete uma ansiedade mais profunda sobre o próprio lugar do indivíduo no mundo. As redes sociais, com suas vitrines de experiências idealizadas, exacerbam esse medo, criando uma pressão constante para participar e compartilhar. Por trás dessa pressão, muitas vezes, estão questões mais profundas relacionadas à autoestima e à busca por um senso de identidade e pertencimento. Fazer psicanálise pode ajudar a desvendar as camadas mais profundas desse fenômeno, revelando como ele pode estar enraizado em questões mais profundas do psiquismo humano, como a relação com a própria imagem e a necessidade de aprovação social.

A nomofobia é o medo de ficar sem o celular ou desconectado da internet, e vai além da dependência tecnológica. Ela pode ser um indicativo de uma luta interna contra o isolamento e a desconexão em um mundo que valoriza a hiperconectividade. Neste caso, o olhar psicanalítico pode oferecer insights sobre como essa dependência pode ser uma tentativa de preencher um vazio emocional ou de lidar com a ansiedade de separação. A psicanálise nos convida a olhar para além dos sintomas, buscando compreender as motivações inconscientes que nos levam a buscar compulsivamente a conexão digital, mesmo que isso signifique sacrificar nossa saúde mental e emocional.

Além disso, a psicanálise também fornece uma compreensão mais aprofundada dos impactos do uso excessivo de telas na saúde mental, considerando como a interação digital influencia a construção da identidade e a percepção da realidade. Ao promover a reflexão sobre essas interações, o processo analítico pode ajudar os indivíduos a estabelecer limites saudáveis e a buscar atividades que reforcem o senso de identidade e fortaleçam a autoestima fora do ambiente digital. Além disso, as sessões de psicanálise podem ser uma aliada valiosa na busca por um equilíbrio entre o mundo digital e o mundo real, permitindo que o paciente desenvolva estratégias para lidar com a tecnologia de forma mais consciente e saudável.

Em resumo, a psicanálise nos convida a uma reflexão profunda sobre nossa relação com a tecnologia e os desafios psicológicos que ela apresenta. Ao enfrentar esses desafios, podemos descobrir caminhos para uma existência mais autêntica e gratificante, onde a conexão digital serve como um complemento às experiências valiosas do mundo físico. O desafio é reconhecer que, embora as telas possam nos conectar com o mundo, elas não devem construir barreiras em torno de nossa experiência humana. A psicanálise, com suas técnicas e teorias, pode ajudar a navegar por essas águas, proporcionando um entendimento mais rico e uma vida mais equilibrada, onde a tecnologia serve como uma ponte e não como um destino.

 

 

 

Daniel Lima, psicanalista.

Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF.

www.psicanalisedaniellima.blogspot.com

daniellimagoncalves.pe@gmail.com

@daniellima.pe