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Pernambuco, 21 de maio de 2024

Coluna Psicanálise no Cotidiano

O trauma da violência sexual: uma análise psicanalítica com base em Ferenczi e Winnicott

A psicanálise de Ferenczi e Winnicott nos oferece uma compreensão profunda do trauma da violência sexual e do caminho para a recuperação. Ao abordar o trauma com empatia, compreensão e um ambiente de suporte, podemos ajudar as vítimas a reconstruir suas vidas.

Postado em 14/05/2024 2024 17:57 , Coluna Psicanálise no Cotidiano. Atualizado em 14/05/2024 17:59

 

A violência sexual é uma das experiências mais traumáticas que um indivíduo pode sofrer, deixando marcas profundas que podem perdurar por toda a vida. A psicanálise, particularmente as teorias de Sandor Ferenczi e Donald Winnicott, oferece uma perspectiva única para entender e tratar as consequências psicológicas do trauma sexual.

Sandor Ferenczi, em sua abordagem psicanalítica, enfatizou a gravidade do trauma sexual e seu impacto no desenvolvimento psíquico. Ele argumentava que o trauma resulta em uma fragmentação do self, onde a vítima se sente desconectada de si mesma e do mundo ao seu redor. Ferenczi via a necessidade de uma terapia que restaurasse a sensação de integridade e segurança, permitindo que a vítima reconstruísse sua identidade e recuperasse o controle sobre sua vida.

Donald Winnicott contribuiu para a compreensão do trauma com seus conceitos de “verdadeiro self” e “falso self”. Ele acreditava que um ambiente acolhedor e confiável é essencial para o desenvolvimento do verdadeiro self. Quando esse ambiente é violado por abuso sexual, o falso self pode emergir como uma defesa contra a dor do trauma, levando a uma desconexão com a realidade e com o próprio self autêntico.

Ferenczi desenvolveu a teoria da “confusão de línguas” entre adultos e crianças, onde o abuso sexual é visto como uma imposição da linguagem adulta de paixão sobre a linguagem infantil de ternura. Isso resulta na introjeção do agressor, onde a vítima internaliza e identifica-se com o agressor, muitas vezes levando a sentimentos de culpa e vergonha.

Tanto Ferenczi quanto Winnicott reconheceram a importância do ambiente no processamento do trauma. Um ambiente de apoio pode atenuar os efeitos do trauma, enquanto um ambiente negligente ou abusivo pode exacerbá-los. A capacidade de resiliência e recuperação está intimamente ligada à qualidade das relações interpessoais e ao suporte emocional disponível para a vítima.

A abordagem terapêutica de Ferenczi era centrada na empatia e na validação das experiências do paciente. Ele acreditava que o terapeuta deveria ser um aliado ativo na luta do paciente contra o trauma, oferecendo um espaço seguro para a expressão de sentimentos e memórias reprimidas. Essa postura empática é essencial para ajudar as vítimas de violência sexual a se sentirem compreendidas e apoiadas em sua jornada de cura.

Winnicott via a terapia como um espaço onde o paciente poderia experimentar o cuidado e a atenção que talvez não tenha recebido anteriormente. Para sobreviventes de violência sexual, isso significa a oportunidade de reconstruir o verdadeiro self em um ambiente de aceitação e compreensão. A terapia oferece um caminho para a recuperação da integridade e para o desenvolvimento de relacionamentos significativos e autênticos.

A psicanálise de Ferenczi e Winnicott nos oferece uma compreensão profunda do trauma da violência sexual e do caminho para a recuperação. Ao abordar o trauma com empatia, compreensão e um ambiente de suporte, podemos ajudar as vítimas a reconstruir suas vidas. É um trabalho desafiador, mas essencial, que requer dedicação, paciência e, acima de tudo, esperança na resiliência do espírito humano.

 

Daniel Lima, teólogo, filósofo e psicanalista.

Psicanalista membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF.

Pós-graduado em ciências humanas: sociologia, história e filosofia.

Pós-graduado em psicanálise e teoria analítica.

www.psicanalisedaniellima.blogspot.com

daniellimagoncalves.pe@gmail.com

@daniellima.pe