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Pernambuco, 16 de maio de 2024

Agronegócios

Tecnologia intensiva na agricultura do semiárido. Fato ou mito?

O discurso vigente

Postado em 16/05/2024 2024 12:49 , Agronegócios. Atualizado em 16/05/2024 12:49

Colunista

Cresci com a sensação de que as regiões secas estariam  condenadas ao atraso de forma permanente e irreversível. As secas, as migrações, as doenças, as perdas, a pobreza faziam parte do cotidiano. O interessante é que no meio disto tudo sempre havia exemplos a serem admirados. Cidadãos que prosperavam e gozavam de um padrão bem acima da população. Com filhos que conseguiam ir estudar nas capitais, ingressaram nas universidades, poucos retornavam mas os que o faziam estavam destinados a serem as lideranças das comarcas ou dos rincões do interior brasileiro.

Aos jovens de origem humilde sobrava muito pouco. Uma fração ínfima conseguia saltar este muro, com esforços sobre humanos para, quase sempre serem atraídos pelo sistema dominante que o atraía, normalmente via matrimônio para fazer parte dos escolhidos. Aqueles que seriam os formuladores de políticas, os empresários, os prefeitos e mesmo o clero.

Mantinha-se a população quieta, pacata em suas esperanças, considerando que o pão-de-cada-dia seria uma dádiva e para tanto, acostumar-se com aquele ambiente simplório e de dificuldade ainda era a melhor opção. Deus assim o proveu e sempre assim será.

As tentativas de transformações via a educação e o ensino quase sempre eram rechaçadas. A região não precisa de tanta gente letrada. Uma ideologia proveniente do padrão de colonização que o povo foi exposto ao longo de séculos. Tentativas de mudança sempre ocorreram mas de alcance limitado e, na maioria dos casos, visando tão somente a preservação do status quo. Isto é, deixa como está e toquemos a vida.

As mudanças em curso    

Registre-se tentativas louváveis de facilitar o aprendizado das crianças nordestinas por educadoras e educadores que se destacaram a exemplo de Paulo Freire. Este educador e filósofo empreendeu um movimento reconhecido em todo o mundo em desenvolvimento como uma aceleração à liberdade. Aqui, ainda hoje há quem o considere um apóstata, um ser a ser excomungado, um radical, um perturbador. Na realidade, todo processo de liberação perturba e causa desconfortos. Meio século após o trabalho deste libertador, uma outra onda foi posta em prática: a disseminação da educação de nível e médio pelo interior do vasto Brasil.

Dezenas de novas universidades, campus, institutos, escolas técnicas abriram suas portas e, de uma hora para outra cursos como engenharia mecânica, economia, biologia, medicina encontravam-se na tua cidade e jovens poderiam ter acesso de modo bem mais fácil. Uma conquista titânica. O cultivo e a valorização do conhecimento.

Um novo cenário

Por incrível que pareça em alguns setores da sociedade esta ação não foi totalmente absorvida e continuou sendo algo distante. Em particular no que diz respeito ao desenvolvimento rural no pequeno e médio imóvel. Políticas públicas relevantes foram construídas e mantidas ao longo das últimas duas décadas, a exemplo do crédito rural universalizado. Já outras entraram em permanente retrocesso e desprezo, como é o caso da assistência técnica e a extensão rural, o que faz uma grande falta.

Eletricidade, telefonia, internet, energias renováveis, educação à distância, comércio eletrônico tem sido tão marcante que os jovens começam a ver que há um futuro para eles no campo. Normalmente o que havia de positivo na vida rural era ofuscado pelos aspectos negativos e irremediavelmente levavam os jovens a abdicarem por completo a vida ao lado dos pais que, em boa parte dos casos também queriam se livrar de suas posses e irem para as cidades. Ali, idosos e jovens seriam tragados por uma vida que não os pertenciam e quase sempre restava a amargura, as dores e sonhos perdidos.

Mudanças incrementais ou aceleradas?

Há se insistido que, em primeiro lugar, o ambiente do semiárido não é tão ameaçador como foi apresentado. Mesmo em um período de sete anos de secas, entre 2012 e 2018 já não se registrou saques, invasão dos ´flagelados` às feiras e mercados e, em alguns casos, a produção agropecuária cresceu neste período. O exemplo da produção de leite no Nordeste é o caso que mais chama a atenção.

Chegou o momento de todos mudarem a narrativa para a região árida e semiárida e à exemplo do que se vê em várias atividades como a saúde, a construção o comércio e a educação e na agropecuária, fica claro  que  há uma mudança radical em curso e, onde a velocidade ainda for lenta cabe-se criar condições de aceleração. Importante não esquecer, além dos ganhos citados, que houve uma revolução silenciosa, de modo quase imperceptível, foi colocado na mão de cada pessoa uma biblioteca virtual, uma bolsa de valores, um ambiente de comércio, de aprendizado e de convivência que foi o telefone celular. Imaginem o que faria Paulo Freire no dia de hoje.

Neste sentido,  há a necessidade de se criar um consenso de que mudanças incrementais sempre serão bem vindas mas a partir dos ativos, culminando com o conhecimento e a inteligência disponíveis nos jovens que hoje estão na idade escolar, há condições de se prever mudanças profundas, radicais e consistentes nos aspectos sociais e econômicos da sociedade do semiárido brasileiro.

As lições estão postas

Não são poucos os que se aperceberam deste movimento. Empresários de diversas matizes conseguem perceber o que está em jogo e querem se fazer presente neste movimento virtuoso e transformador. Que se aproveite a inquietude de pioneiros que por falta de opções, não poucas vezes, foram arremessados a práticas violentas e antissociais. Ninguém se assuste. Não foi diferente em outras regiões e países. O oeste americano, ao final do século XIX era literalmente uma terra sem lei, que o diga o filme “Django ´unchained”, quando dos grilhões foram libertados. O movimento de libertação em curso no Nordeste tem outro padrão e se dará pela educação e formação profissional da nova geração que luta por uma luta de conforto e que sente que ela pode ser alcançada sem que tenha que, necessariamente, se afastar de sua terra, de sua cultura e dos seus.

 

1Professor Titular da UFRPE-UAST

Serra Talhada, 15 de maio de 2024.