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Pernambuco, 11 de junho de 2024

Agronegócios

O Araripe verde é uma maravilha

Uma volta ao passado

Postado em 23/05/2024 2024 17:00 , Agronegócios. Atualizado em 23/05/2024 16:53

Colunista

Visitar o Araripe sempre é um momento de prazer. Acompanhar a paisagem e em particular a Serra que lhe acompanha a partir do momento que se penetra no Sertão oeste de Pernambuco é compartilhar de uma visão majestosa de umas das mais belas regiões do estado. Neste momento, já em fins de maio, a vegetação continua verde e exuberante indicando que a estação chuvosa foi auspiciosa. Não é à toa que foram registrados 800 mm de chuvas em algumas estações meteorológicas do município.

O passado em referência volta a umas primeiras, senão o teste inicial em busca do cultivo da soja no Araripe, ocorrido em 1996, quando unidades de demonstração de sorgo e soja foram instalados na Estação Experimental do IPA de Araripina. Daquela data até hoje as tentativas se repetiram, o aprendizado foi grande e, finalmente, empresários de segmentos como a avicultura e a indústria de alimentos passaram a ver a região do Araripe como uma opção de produção de grãos. Destacando-se o milho e a soja.

Sempre haverá questionamentos sobre a viabilidade dessas culturas no semiárido mas é  importante lembrar que os avanços tecnológicos observados nas práticas agrícolas nas últimas três décadas foram marcantes e a cada dia genótipos mais tolerantes aos estresses hídricos e de temperatura e insensíveis ao fotoperíodo são desenvolvidos, se dando o que se deu com a soja que saiu do Rio Grande do Sul e hoje vêm campos de soja em Roraima.

A busca por oportunidade  

Nos últimos três ou quatro anos tem se observado o interesse por imóveis no Sertão do Araripe para fins agrícolas ou de geração de energia nos estados do Piauí, Ceará e Pernambuco. Empresários que antes se encontravam em Mato Grosso procuram investir na região e com isto vários parceiros se sentem atraídos para a região.

Em consequência,  o preço dos imóveis sobe, a especulação se torna aguçada e todos os proprietários ficam à espreita do que pode acontecer. Algo semelhante ao que se deu nas áreas piauienses da Chapada quando da instalação dos primeiros parques eólicos.Na realidade, o que ocorre no Araripe tem se observado em outras áreas como o Sertão do São Francisco, entre os municípios de Belém do São Francisco e Jatobá passando por Floresta e Petrolândia. Ao que parece, com o uso intensivo das terras dos Cerrados, o Semiárido passou a ser uma opção para a expansão da agricultura brasileira. Não deixando de avaliar os pós e os contras de uma iniciativa desta natureza.

Dificilmente haverá retorno

Alguns consideram esta busca de oportunidades do Sertão do Araripe como mera friovolice e que não passa de modismo. Logo, tal qual em situações anteriores, a fumaça baixa e tudo retornará ao que era antes. Não acho que esta seja uma aposta sensata. Ao despertar uma região para duas oportunidades, raramente se consegue conter o que saiu do pote de surpresas. Alguns desses empresários do Centro-oeste e Sul do país  falam claramente em transferir suas empresas ou parte de suas operações para a região, fixando-se em Juazeiro do Norte, Crato ou Araripina.

A sustentabilidade é algo a ser buscado prioritariamente

O clamor para que ao se desenvolver a agropecuária na serra do Araripe se dê de modo sustentável e que de uma hora para outra não se tenha um planalto inóspito como ocorreu em várias áreas do Centro-oeste demandando recursos substanciais na recuperação de nascentes, matas ciliares e nascentes de rios e córregos.

O emprego de práticas como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta é fartamente documentado e faz parte dos modelos operacionais do modelo operacional de qualquer empresa que pretenda se estabelecer  e ser bem-sucedida. Não há como, em bom juízo, se planejar atividades agrícolas na Chapada do Araripe sem que esteja relacionada com a gestão hídrica do Cariri cearense ou da aplicação do código florestal vigente no que diz respeito às áreas de preservação permanente e reservas legais. Desastres ambientais construídos pela ação antrópica têm sido relatados com uma frequência assustadora e, portanto, não será diferente nesta região sertaneja.

Custa acreditar como tão pouco se sabe sobre a região

O que deixa um perplexo é o pouco conhecimento, não apenas no Nordeste, mas em Pernambuco sobre o potencial e a realidade da Chapada do Araripe. Normalmente as leituras se distanciam da realidade sobrando para uma interpretação que nem sempre se assemelha à realidade atual. Se por um lado há uma certa complacência com o uso da caatinga como lenha e carvão, não ocorre o mesmo quando se discute o uso da terra para fins agrícolas se reveste de um quase tabu ao não se admitir que as áreas permissíveis possam ser usadas no cultivo de grãos, no reflorestamento mesmo quando práticas como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária-floresta mostram quão acertada foram as opções eleitas pelos produtores brasileiros em sua grande maioria.

Retornei de Araripina para Serra Talhada, ontem, encontrei todo o sertão verde e viçoso. Chequei os dados pluviométricos de Araripina onde se encontra registrado que desde janeiro de 2024 já choveram oitocentos milímetros. Haverá anos que esta mesma precipitação não ultrapassará a metade deste valor, entretanto, pelas médias ocorridas nos últimos anos, dificilmente um empreendedor em busca de novas áreas agrícolas deixará de considerar o Araripe como uma opção. Uma coisa é certa, o Araripe é uma região com um potencial turístico, agrícola, mineral sub avaliado. Cenário que muda a cada instante, basta acompanhar o que está em curso na região.

 

1Professor Titular da UFRPE-UAST