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Pernambuco, 13 de junho de 2024

Coluna Psicanálise no Cotidiano

A Importância da Conscientização sobre Violência Sexual

A conscientização sobre a violência sexual é vital em várias frentes: prevenção, identificando sinais precoces de abuso e protegendo potenciais vítimas; rompendo o silêncio, encorajando as vítimas a buscar ajuda e compartilhar suas experiências; e advocacia e mudança social, mobilizando a sociedade para exigir políticas mais eficazes e apoio às vítimas

Postado em 28/05/2024 2024 19:00 , Coluna Psicanálise no Cotidiano. Atualizado em 29/05/2024 14:41

Colunista

A conscientização sobre a violência sexual é um imperativo social e psicológico. Este texto explora como as teorias psicanalíticas de Michael Balint e Donald Winnicott podem ajudar a compreender as vítimas de violência sexual e a relevância da conscientização nesse contexto.

As vítimas de violência sexual enfrentam uma dor profunda e multifacetada. A agressão invade não apenas o corpo, mas também a psique, deixando cicatrizes emocionais duradouras. Michael Balint, em sua teoria da técnica, lembra-nos que cada paciente é único e que a quantidade de excitação emocional que podem tolerar varia. Para as vítimas de violência sexual, essa quantidade de excitação é frequentemente reduzida, tornando o processo analítico desafiador. A conscientização sobre essa realidade é crucial para adaptar a técnica psicoterapêutica e oferecer suporte adequado.

Balint introduziu o conceito de “falha básica”, uma noção que ressoa profundamente com as vítimas de violência sexual. Essa falha refere-se à incapacidade de amar e se envolver plenamente com a vida, como se algo essencial estivesse ausente ou danificado. Para muitas vítimas, o trauma sexual cria uma ruptura em sua capacidade de confiar, amar e se conectar com os outros.

A agressão sexual invade não apenas o corpo físico, mas também o psiquismo da vítima, gerando uma sensação avassaladora de vulnerabilidade e traição. A falha básica se manifesta como uma ferida profunda na capacidade de confiar e se entregar emocionalmente. A vítima pode se sentir inadequada, desconfiada e incapaz de experimentar o amor genuíno. A conscientização sobre essa dinâmica é crucial. O objetivo terapêutico não é apenas aliviar os sintomas, mas também permitir que a vítima experimente um “novo começo”. A jornada envolve reconstruir a integridade, enfrentando a dor, explorando as feridas e permitindo que o verdadeiro self se reafirme. O terapeuta desempenha um papel vital como um contêiner seguro, oferecendo apoio e compreensão enquanto a vítima explora suas emoções e busca reconciliar a falha básica.

Donald Winnicott, renomado psicanalista britânico, concentrou-se na importância do ambiente para o desenvolvimento saudável do self. Para as vítimas de violência sexual, sua teoria oferece insights valiosos sobre a luta interna entre o verdadeiro self e o falso self adaptativo. O verdadeiro self é a essência autêntica de uma pessoa, que emerge naturalmente com espontaneidade e criatividade, representando desejos, necessidades e emoções genuínas. No contexto da violência sexual, o verdadeiro self da vítima é frequentemente ferido e reprimido, deixando-a desconectada de suas emoções e desejos mais profundos.

O falso self é uma máscara desenvolvida como estratégia de sobrevivência quando o verdadeiro self não é aceito ou valorizado. As vítimas de violência sexual frequentemente constroem um falso self para se protegerem, incluindo a negação do trauma, a minimização da dor e a adoção de comportamentos que não refletem suas verdadeiras necessidades. A violência sexual cria uma ruptura profunda entre o verdadeiro self e o falso self, resultando em uma sensação de fragmentação, perda e alienação de sua própria essência. A jornada terapêutica envolve a reconexão com o verdadeiro self, onde o ambiente terapêutico seguro e empático permite que a vítima comece a explorar suas emoções reprimidas, desejos autênticos e identidade genuína.

A conscientização sobre a violência sexual é vital em várias frentes: prevenção, identificando sinais precoces de abuso e protegendo potenciais vítimas; rompendo o silêncio, encorajando as vítimas a buscar ajuda e compartilhar suas experiências; e advocacia e mudança social, mobilizando a sociedade para exigir políticas mais eficazes e apoio às vítimas. Como psicanalistas, devemos aplicar as teorias de Balint e Winnicott para compreender e apoiar as vítimas. Somente através da conscientização e da ação podemos criar um mundo onde a violência sexual seja erradicada e onde as vítimas possam encontrar cura e transformação.

A conscientização eficaz começa com a educação inclusiva e acessível a todos, promovendo um diálogo aberto sobre o tema e enfrentando estigmas sociais. A influência sobre políticas públicas e legislação é fundamental para garantir que as leis protejam as vítimas e punam adequadamente os agressores. A implementação de programas educacionais e de apoio é crucial. Comunidades devem ser capacitadas para oferecer suporte às vítimas, criando redes de apoio que forneçam recursos como aconselhamento, terapia e assistência legal. A conscientização deve visar o empoderamento das vítimas, dando-lhes voz e meios para superar o trauma e reconstruir suas vidas com dignidade e força.

Somente através da conscientização e da ação podemos aspirar a criar um mundo onde a violência sexual seja erradicada e onde as vítimas possam encontrar não apenas cura, mas também transformação. Um mundo onde cada indivíduo possa viver com segurança, respeito e liberdade. Este é o chamado à ação que devemos atender com urgência e comprometimento, pois cada passo em direção à conscientização é um passo em direção a um futuro mais justo e compassivo para todos.

 

Daniel Lima, teólogo, filósofo e psicanalista.

Psicanalista membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF.

Pós-graduado em ciências humanas: sociologia, história e filosofia.

Pós-graduado em psicanálise e teoria analítica.

www.psicanalisedaniellima.blogspot.com

daniellimagoncalves.pe@gmail.com

@daniellima.pe