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Pernambuco, 21 de junho de 2024

Coluna Psicanálise no Cotidiano

O amor na contemporaneidade: entre a idealização e a liquidez

Uma das características do amor na contemporaneidade é a sua liquidez. As relações amorosas tornaram-se mais fluidas e instáveis, com um aumento na disposição para o término e a substituição rápida de parceiros.

Postado em 04/06/2024 2024 18:20 , Coluna Psicanálise no Cotidiano. Atualizado em 04/06/2024 14:18

Colunista

 

O amor é um tema central na vida humana, permeando a história, a cultura e as relações sociais. Na contemporaneidade, porém, o conceito de amor passou por transformações significativas, especialmente com o advento da sociedade líquida, termo cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever uma sociedade caracterizada pela fluidez e pela falta de formas sólidas e duradouras. Nesse contexto, o amor romântico se destaca como um dos principais modelos de amor, sendo disseminado pela indústria do entretenimento e muitas vezes idealizado como a forma mais completa e desejada de amor. A busca pelo amor ideal muitas vezes ignora a complexidade das emoções humanas e a necessidade de crescimento e adaptação conjunta dos parceiros. A idealização pode levar a uma constante sensação de inadequação, onde a realidade amorosa raramente atende às expectativas criadas por narrativas fictícias.

Uma das características do amor na contemporaneidade é a sua liquidez. As relações amorosas tornaram-se mais fluidas e instáveis, com um aumento na disposição para o término e a substituição rápida de parceiros. Na cultura do amor líquido, a ideia de compromisso e estabilidade nas relações perde espaço para a busca constante por novas experiências e satisfações imediatas, refletindo uma sociedade marcada pela individualização e pela valorização do prazer pessoal. Essa volatilidade emocional é muitas vezes exacerbada pela cultura de consumo, que promove a ideia de que tudo, inclusive os relacionamentos, pode ser facilmente substituído.

Além disso, a influência da tecnologia e das redes sociais tem impactado significativamente a forma como vivenciamos o amor. O contato virtual facilita a conexão entre as pessoas, mas também pode contribuir para relações mais superficiais e descartáveis, em que a busca pelo próximo melhor parceiro é constante. As redes sociais também têm um papel importante na exposição das relações amorosas, muitas vezes transformando-as em espetáculo público, o que pode influenciar a forma como percebemos e vivenciamos o amor. A era digital trouxe consigo a paradoxal proximidade distante, onde estamos conectados a todo momento, mas frequentemente ausentes na presença física e emocional.

Apesar das transformações, o amor romântico continua a exercer uma forte influência na cultura contemporânea. Idealizado como o ápice do relacionamento amoroso, o amor romântico é frequentemente associado à felicidade e à realização pessoal, sendo um tema recorrente na música, na literatura e no cinema. No entanto, essa idealização do amor romântico pode contribuir para expectativas irreais e insatisfação nas relações reais, já que a realidade nem sempre corresponde ao ideal propagado. A desconexão entre o amor idealizado e o amor vivido pode gerar um ciclo de busca incessante por um ideal inatingível.

Diante desse cenário, é importante refletir sobre as diferentes formas de amor e como elas se manifestam na sociedade contemporânea. O amor pode assumir diversas formas e significados, e é fundamental reconhecer a complexidade e a diversidade das experiências amorosas. A busca por relações mais autênticas e significativas, que valorizem a conexão emocional e a intimidade, pode ser uma forma de contrapor a liquidez e a superficialidade das relações amorosas na contemporaneidade. É essencial cultivar a resiliência emocional e a capacidade de navegar pelas incertezas das relações, valorizando o amor como uma construção contínua e dinâmica.

 

Daniel Lima, teólogo, filósofo e psicanalista.

Psicanalista membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF.

Pós-graduado em ciências humanas: sociologia, história e filosofia.

Pós-graduado em psicanálise e teoria analítica.

www.psicanalisedaniellima.blogspot.com

daniellimagoncalves.pe@gmail.com

@daniellima.pe