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Pernambuco, 11 de junho de 2024

Agronegócios

Novas opções sempre serão bem vindas, D. Mariquinha

Uma tentativa que não se esgota

Postado em 06/06/2024 2024 22:03 , Agronegócios. Atualizado em 06/06/2024 22:19

Colunista

O mercado está à espreita desde que se consiga ler as tendências. O que não é fácil, convenhamos. Voltando ao semiárido com disponibilidade de água capaz de sustentar uma atividade agrícola irrigada, não são poucos os cultivos explorados nas áreas irrigadas do Nordeste. Desde  a manga, a uva e o melão, aquelas consideradas carros chefes sem desprezar a importância de ações como a goiaba, os citros, a melancia, as pimentas, a banana e dezenas de hortaliças.

No São Francisco, por exemplo, se buscou de forma intensiva a adaptação de frutas temperadas, a exemplo da pera, da maçã, do caqui e até de frutas vermelhas como o mirtilo. Não tem sido fácil reproduzir o que foi obtido com a uva, normalmente plantada em ambientes temperados e secos, mas que conta com uma fisiologia que faz a planta se adaptar a situações de latitudes tropicais, desde que se conte com água suficiente e de boa qualidade. Os demais frutos temperados basicamente não se tornaram opções de cultivo à exceção de áreas experimentais ou de cultivo restrito.

Seriam os temperos uma opção?

A história é, em parte, ditada pela gula e pela aparência. Comer bem e parecer bonito e elegante são atributos que definem a evolução do ser humano desde a caverna. A conquista de Constantinopla em 1453 obstruiu a rota da seda que também era o canal de escoamento da pimenta, do cravo, da canela e de tantas outras especiarias. Também é importante lembrar que não foi por outra razão, senão o açúcar, que os holandeses e franceses tentaram estabelecer colônias no Brasil. Os primeiros se estabeleceram nas províncias de Pernambuco e da Paraíba por aproximadamente trinta anos. Uma saga tão rica que dela se deriva a colonização dos sertões ou a chegada de vinte e três judeus holandeses que ao fugirem de Pernambuco após a retomada das terras por Portugal, vagaram pelos mares, foram saqueados e resultaram chegando a ilha de Manhattan, contribuindo com a fundação da cidade de Nova York.

Esta longa conversa é para lembrar que as especiarias ou temperos possam se constituir em uma ótima opção para as pequenas áreas irrigadas do semiárido brasileiro. Além dos citados não devem deixar de ser consideradas opções como o coentro, o gengibre, a páprica, o manjericão, o cominho, o tomilho e o orégano. Típicos produtos artesanais, facilmente conserváveis,  de fácil manuseio e transporte.

A pitaya, mais um cacto Saindo dos temperos, vejam-se as opções frutícolas. Aqui há de se destacar o crescimento da área plantada com pitaia na última década. A pitaia é um fruto produzido por três espécies de cactos, originária da América Central e do México, tal qual a palma forrageira, nossa conhecida rainha do semiárido seco. A pitaya também conhecida como fruta do dragão, por sua casca escamosa se destaca pela beleza de suas cores em cores verdes ou amarela e polpas que variam do vermelho intenso ao branco gelo.

Além do sabor agradável, vale destacar a beleza de sua polpa em sobremesas acompanhadas de sorvetes brancos, cremes ou vermelhos contrastando com o fruto. Vale ainda chamar a atenção para produtos como a geleia, o licor, o suco e o uso na cosmética. A pitaya precisa ser mais bem conhecida e creio que ao se fazer presente não deverá parar de crescer como opção nas mesas de restaurantes. Seja no café da manhã, no almoço, no jantar ou no chá dos clientes e mercados mais sofisticados.

Dona Mariquinha e sua plantação de pitais

A disponibilidade de água na crescente que começa em São José do Belmonte, passando por Mirandiba, Carnaubeira da Penha, Floresta, Serra Talhada, Betânia e Flores já foi objeto de comentários dessa coluna. Como também foi mencionado em uma crônica o surgimento de um pólo irrigado tendo como base a cultura da goiaba no município de Mirandiba. Para surpresa, em visita ao Sertão, alguém há de se deparar à margem da BR 232 com o cultivo de pitaia na Fazenda São João, propriedade de D. Mariquinha.

Uma artista, acostumada a vida de Recife, com seus encantos, sua cultura e sua história, Dona Mariquinha se refugiou em Mirandiba durante os anos mais sombrios da pandemia e, em busca de algo ficou encantada com a pitaia, originária de áreas tão áridas quanto o seu Sertão.

Tornou-se uma produtora criteriosa e colecionadora ávida. Seu pomar conta com mais de trinta tipos de pitaya vindas dos mais diversos centros, além do mais preparou uma jovem, a Débora, que advogada se tornou especialista em horticultura, como gerente de seu cultivo. Na condição de agrônomo e professor de agricultura e biodiversidade, fiquei deslumbrado em ver no jargão técnico, um banco de germoplasma de pitaya estabelecido em pleno sertão a partir do bom gosto e da dedicação de Dona Mariquinha.

Foi uma tarde de sábado digna de reconhecimento. Pessoas boas, boa conversa, um almoço tão sertanejo que não poderia deixar de ter a buchada, uma deliciosa cachaça e podendo ainda degustar do licor e da geleia produzidos na fazenda.

Obrigado, amigo Ivanildo por nos fazer conhecer pessoas tão distintas e auxiliar na certeza de que as opções estão disponíveis desde que a natureza seja observada em suas nuances e atributos. Por falar nisso, D. Mariquinha, estive comentando com uma colega professora a possibilidade de em algum momento contarmos com uns alunos aprendendo e ao mesmo tempo ajudando a Senhora e Débora na condição desse jardim.