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Pernambuco, 21 de junho de 2024

Coluna Psicanálise no Cotidiano

O amor como arte em Erich Fromm

Um dos principais aspectos do amor para Fromm é a ideia de que amar é um ato de doação. Ele argumenta que o verdadeiro amor não é possessivo, mas generoso.

Postado em 11/06/2024 2024 19:19 , Coluna Psicanálise no Cotidiano. Atualizado em 11/06/2024 19:19

Colunista

O conceito de amor desenvolvido por Erich Fromm em sua obra “A Arte de Amar” oferece uma perspectiva profunda e multifacetada sobre a natureza das relações humanas. Fromm vê o amor como uma arte que exige conhecimento, esforço e prática contínua. Diferente da visão contemporânea que muitas vezes associa o amor a uma emoção espontânea e passiva, Fromm argumenta que o amor verdadeiro é uma atividade ativa que envolve compromisso, responsabilidade, cuidado, respeito e conhecimento. Sua abordagem desafia a superficialidade das concepções modernas de amor e propõe uma forma de relacionamento mais madura e autêntica. Ele sugere que o amor é uma escolha consciente, um ato de vontade que transcende o mero desejo e a paixão momentânea, proporcionando uma base mais sólida e duradoura para as relações humanas.

Fromm destaca que o amor não é apenas um sentimento, mas uma prática que deve ser desenvolvida e cultivada. Ele argumenta que, assim como qualquer outra arte, amar requer esforço consciente e disciplina. O amor verdadeiro, segundo Fromm, é uma capacidade que precisa ser trabalhada diariamente. Isso envolve a superação do egoísmo e a capacidade de se preocupar genuinamente com o bem-estar do outro. Ele critica a tendência contemporânea de ver o amor como algo que simplesmente acontece, sem necessidade de esforço ou dedicação. Para Fromm, o amor envolve um constante trabalho interior e uma disposição para enfrentar os desafios e dificuldades inerentes a qualquer relação humana. Esta visão contrasta com a ideia de que o amor deve ser sempre fácil e sem conflitos, propondo uma abordagem mais realista e comprometida.

A visão de Fromm sobre o amor como uma arte contrasta fortemente com a concepção de “amor líquido” proposta por Zygmunt Bauman. Enquanto Baumandescreve o amor moderno como frágil, efêmero e sujeito à lógica do consumo, Fromm vê o amor como uma força poderosa e transformadora que pode proporcionar estabilidade e profundidade às relações humanas. Fromm acredita que o amor verdadeiro é um antídoto contra a alienação e a superficialidade da vida moderna, oferecendo uma base sólida para a construção de relações duradouras e significativas. Ele propõe que, em uma sociedade onde as relações são frequentemente descartáveis e utilitárias, o amor pode atuar como uma resistência contra a desumanização e o individualismo exacerbado. Fromm defende que o amor, em sua essência, é uma força revolucionária que pode transformar tanto os indivíduos quanto a sociedade como um todo.

Um dos principais aspectos do amor para Fromm é a ideia de que amar é um ato de doação. Ele argumenta que o verdadeiro amor não é possessivo, mas generoso. O amor genuíno implica em dar sem esperar nada em troca, em contribuir para o crescimento e a felicidade do outro. Essa perspectiva vai contra a visão utilitarista e transacional do amor que prevalece em muitas sociedades contemporâneas, onde as relações são frequentemente vistas como meios para satisfazer necessidades pessoais e obter benefícios. Fromm sugere que a verdadeira alegria do amor está em dar, e não em receber, e que essa generosidade é o que torna o amor autêntico e gratificante. Ele nos convida a refletir sobre nossas próprias motivações e a buscar um amor que transcenda o egoísmo e o interesse próprio.

Fromm também enfatiza a importância do conhecimento no ato de amar. Conhecer a si mesmo e ao outro é essencial para o desenvolvimento de um amor autêntico. Isso envolve a capacidade de ver além das aparências e compreender as necessidades, desejos e temores profundos do parceiro. Para Fromm, o amor verdadeiro é baseado em um conhecimento profundo e mútuo, que permite uma conexão genuína e significativa entre as pessoas. Esse conhecimento é fruto de um esforço contínuo e de uma comunicação aberta e honesta. Fromm acredita que sem esse entendimento profundo, o amor pode facilmente se tornar superficial e insatisfatório. Ele argumenta que o autoconhecimento é o primeiro passo para amar verdadeiramente, pois somente ao entender nossas próprias necessidades e limitações podemos realmente compreender e aceitar o outro.

Além disso, Fromm destaca a importância do respeito no amor. Respeitar o outro significa reconhecer e valorizar sua individualidade e autonomia. Isso implica em permitir que o outro seja quem é, sem tentar moldá-lo de acordo com nossas próprias expectativas e desejos. O respeito é fundamental para a construção de uma relação baseada na igualdade e na reciprocidade, onde ambos os parceiros podem crescer e se desenvolver plenamente. O respeito, juntamente com o cuidado, a responsabilidade e o conhecimento, compõe os pilares do amor verdadeiro segundo Fromm. Ele sugere que o respeito é a base para uma relação saudável, pois permite que os parceiros se sintam valorizados e livres para serem autênticos. Sem respeito, o amor pode facilmente se transformar em controle e dominação, prejudicando ambos os envolvidos.

Em conclusão, a concepção de amor de Erich Fromm oferece uma alternativa poderosa e inspiradora às visões contemporâneas que muitas vezes reduzem o amor a um simples sentimento ou a uma transação utilitarista. Fromm nos desafia a ver o amor como uma arte que exige dedicação, esforço e crescimento contínuo. Sua visão enfatiza a importância da generosidade, do conhecimento e do respeito nas relações amorosas, proporcionando um caminho para a construção de conexões humanas mais profundas e significativas. Ao adotar essa abordagem, podemos encontrar no amor uma fonte de transformação pessoal e social, capaz de enriquecer nossas vidas e nossas comunidades. Fromm nos convida a refletir sobre nossas próprias práticas amorosas e a buscar um amor que seja, ao mesmo tempo, uma expressão de nossa humanidade mais elevada e um compromisso com o bem-estar e a felicidade dos outros.

Daniel Lima, teólogo, filósofo e psicanalista.

Psicanalista membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi – GBPSF.

Pós-graduado em ciências humanas: sociologia, história e filosofia.

Pós-graduado em psicanálise e teoria analítica.

www.psicanalisedaniellima.blogspot.com

daniellimagoncalves.pe@gmail.com

@daniellima.pe