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Pernambuco, 21 de setembro de 2021

Agronegócios

O negócio de beira de estrada e o que se vê na BR 232

O longo caminho para o oeste

Postado em 05/08/2021 2021 16:45 , Agronegócios. Atualizado em 05/08/2021 17:27

Colunista

Geraldo Eugênio Foto: Divulgação

 

A BR 232 sai do litoral e avança pelo interior de Pernambuco, atravessa todo o Agreste, e nas entranhas do Sertão ao chegar em Salgueiro. São 513 quilômetros bem rodados em que o viajante a partir de Pombos tem como apreciar a diversidade da vegetação, do clima e do relevo do semiárido. Ao chegar em Salgueiro, um tanto exausta, a atleta entrega seu bastão à BR 316 que alcança Araripina e se atreve a penetrar o nosso Piauí. O interessante dessa estrada é que nela estão expressas as vocações agropecuárias de cada região, município e distrito.

 

Três paradas obrigatórias

Neste longo trecho da BR 232, três locais apresentam algo especial e atrativo ao viajante. O primeiro, ainda em um Agreste que muito se assemelha ao Sertão seco é Encruzilhada de São João, distrito de Bezerros; o segundo é o município de Sanharó, e o terceiro é o distrito de Tenório, em Custódia.

 

 

O café da manhã, as bolachas e a pamonha

Durante muito tempo a referência de café da manhã para quem viajava de Recife ao interior do estado era o restaurante Água de Coco,  na Encruzilhada de São João. Nele se deliciava uma macaxeira papinha, um cuscuz com seu sabor típico, acompanhado de queijo de coalho, carne de sol, ovos fritos e café com leite. O entreposto foi crescendo, as empresas se dividindo, novas sendo criadas e conta-se no momento com um conjunto de aproximadamente dez restaurantes na ala Sul da estrada.  Em frente aos restaurantes multiplicaram-se as barracas especializadas em bolachas caseiras, tipo água e sal, suíça, canela, sete capas, provenientes de fábricas do município de Bezerros. Complementando o comércio, há sempre uma ou duas barracas que também oferecem pamonhas doces e ás vezes salgadas, durante todo tempo.

Divulgação

Os lácteos e a carne de sol

Seguindo-se o percurso  Oeste  nosso viajante passa Caruaru, São Caetano, Tacaimbó, Belo Jardim, alcançando Sanharó. Aí está o grande comércio de lácteos e carne de sol. São dezenas de lojas e restaurantes que além de um bom prato oferecem o que a região tem de especial: queijo de coalho, queijo de manteiga, manteiga cremosa e de garrafa, carne de sol bovina e suína e vários embutidos. Para quem vem do Sertão, depois de um longo e cansativo percurso dificilmente deixa de dar uma parada para um lanche e trazer as iguarias para sua família e amigos. Boa qualidade e bom preço, além de representar a típica vocação pecuária do Agreste.

 

O mel e as plantas ornamentais

A viagem se adentra ao Oeste, passa por Pesqueira; Arcoverde; Cruzeiro do Nordeste, distrito de Sertânia, indo encontrar uma terceira parada obrigatória no distrito de Tenório, pertencente à Custódia. Quem anda pela BR 232 há algum tempo há de lembrar de quão precárias e humildes eram as casas e as barracas à beira da estrada, em Tenório. Alguns litros de mel expostos em prateleiras de vara de jurema ou dependurados nos caibros da barraca coberta por palha. Neste pólo turístico comercial se testemunha uma grande mudança. Além do mel foi incorporada a oferta de cactos ornamentais: coroa-de-frade, xique-xique, mandacaru e outras espécies próprias da caatinga. Hoje se nota a prosperidade dos habitantes de Tenório por suas casas de alvenaria; suas barracas ainda modestas, mas muito mais organizadas; no número de veículos nos alpendres e aparência dos moradores do distrito.

 

O agronegócio na beira da estrada

Esses locais são três grandes promotores da cultura regional, de seus produtos, de sua culinária e de alguma forma, guardiães da vegetação. Afinal, é sempre bom lembrar que as abelhas necessitam do néctar que se encontra nas flores e sem a vegetação nativa não há o marmeleiro e outras espécies provedoras de alimentos, cor e atração às abelhas. Vale chamar a atenção para a persistência dos pontos de comércio citados e da importância que representam para os agricultores, pecuaristas, processadores da agroindústria familiar e dos transeuntes que têm a BR 232 como parte de suas ocupações. Sugere-se um melhor apoio ao comércio de beira de estrada, de modo que se possa multiplicar esses sítios e agregar mais valor aos produtos locais. Encruzilhada, Sanharó e Tenório estão dando o exemplo. Que se multiplique.

 

Quem é Geraldo Eugênio: Engenheiro Agrônomo, com mestrado na Índia e doutorado e pós-doutorado nos na Texas A&M University, Estados Unidos, é ex-pesquisador do IPA e Professor Titular em Agricultura e Biodiversidade na UFRPE – UAST, Serra Talhada, PE. Foi Secretário de agricultura de Pernambuco, Presidente do IPA, do ITEP e Diretor Executivo da Embrapa. Nos últimos anos tem acompanhado de forma direta políticas, tecnologias e iniciativas inovadoras aplicadas à gestão de secas, no Brasil e no exterior. Considera essencial entender melhor o Sertão, visualizando-o como um grande ambiente de negócios e sucesso.