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Pernambuco, 21 de setembro de 2021

Educação

O que faremos com o que a pandemia fez com a gente!? Relatos de um professor

“Já escrevi em colunas anteriores e ratifico: temos a oportunidade de nos redimir diante de um contexto de crise. As gerações anteriores perderam essa oportunidade. Guerras sucessivas, pandemias históricas, crises econômicas e sociais e quando o ciclo ameniza ou fecha, a vida acelera, pega um ritmo ainda mais intenso”.

Postado em 10/08/2021 2021 18:00 , Educação. Atualizado em 10/08/2021 13:03

Colunista

Prof. Diedson Alves Mestre em Ciência da Educação

 

Numa sociedade do desempenho, da produtividade onde, segundo o coreano Byung-chul Han, apelidou de “sociedade do cansaço”, no qual perdemos o espírito contemplativo sobre o outro, pois, nos tornamos uma empresa em busca de excelência e resultados. Aí vem uma pandemia, ameaçando nossa própria existência, que nos faz refletir sobre quem somos. Numa busca incessante da resposta para a seguinte pergunta: Qual o verdadeiro significado da vida?

Até então grandes epidemias, catástrofes mundiais, guerras, conflitos locais… Eu, enquanto professor de história, por mais que houvesse consistência nas leituras, enredo nas pesquisas, aprofundamento diante dos fatos, a vivência de viver, de estar inserido efetivamente numa pandemia, trago outras leituras do mundo.

Já escrevi em colunas anteriores e ratifico: temos a oportunidade de nos redimir diante de um contexto de crise. As gerações anteriores perderam essa oportunidade. Guerras sucessivas, pandemias históricas, crises econômicas e sociais e quando o ciclo ameniza ou fecha, a vida acelera, pega um ritmo ainda mais intenso. 

Agora diante da conjuntura de reabertura, protocolos mais brandos, retorno às aulas presenciais, várias flexibilizações, uma adaptação ao novo normal.  Que legado humano fica do afastamento social, do ápice da pandemia?  Que não acabou, mas dá fortes sinais de encolhimento diante das medidas preventivas e, principalmente, da vacinação.

Diante disso, trago o conceito, do escritor brasiliense João Doederlein, que considerado mais completo sobre a palavra mais dita, mais popularizada e que a maioria de nós buscou interiorizá-la e colocar em prática: a resiliência, em que “não é sentir pelo outro, mas sentir com o outro quando a gente lê o roteiro de outra vida. É ser ator em outro palco, é compreender, é não dizer “eu sei como você se sente”, é quando a gente não diminui a dor do outro, é descer até o fundo do poço e fazer companhia para quem precisa. Não é ser herói, é ser amigo, é saber abraçar a alma”.

Enfim, no contexto de incertezas voltamos a atenção para nós mesmos, pois diante do olhar para o outro nos encontramos. Assim, nossa ratificação de seres humanos consiste na capacidade de nos sentir tocados pela postura de alteridade.

Estamos num mosaico de aflições, de crise e num contexto de oscilações, a filosofia se estabelece, ficamos mais sensíveis, nos interrogamos mais e buscamos respostas, até então passadas despercebidas, diante da acelerada vida contemporânea: prazos, compromissos, horários marcados, resultados e mais resultados.



O pensamento de Sócrates, que inaugura a filosofia ocidental, nos faz vasculhar nosso interior na busca de respostas  jamais interrogadas: Conhece-te a ti mesmo, percorrer os nossos labirintos mais profundos, nossa mais profunda essência, viver momentos de solidão, de profundo encontro consigo mesmo.

Isso me faz lembrar Nietzsche: “A solidão modifica as vozes”, pois, nesse profundo diálogo que estabeleço entre mim chego a aplicar eu a mim mesmo. E chego à maiêutica que a vida sem despertar é um desperdício. Vivo um processo de desabrochar da minha próxima essência, da minha própria existência.

Que a solitude, na atual conjuntura, tenha nos encontrado de modo a transcender nossa própria existência e entender que estar diante da própria companhia nos traz uma realização enorme, um prazer profundo e descobertas que sem esse momento jamais seria possível. Isso me faz lembrar da crônica Solidão Amiga onde Rubem Alves cita Carlos Drummond de Andrade

(…) Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhes damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:


Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta, na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada,

aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba de mim!

 

Que essa tenha sido a grande contribuição milionária deste momento de isolamento, transformar o encontro consigo mesmo  em grande prazer e alegria. Parece contraditório, irônico até dizer que estar só é estar muito bem acompanhado, inspirado em Mario Quintana, no qual  “viajar é mudar o rumo da solidão”,  rumo este positivo, harmônico, provocativo e enriquecedor, ou seja, uma solitude plena que nos fortalece, que nos rejuvenesce e faz nos conhecermos melhor, para assim entendermos o verdadeiro significado da existência humana.

 

Quem é  Diedson Alves: Mestre em Ciência da Educação pela UDE – Universidade de La Empresa em
Montevideu URU (2012), convalidado pela UTP – Universidade de Tuiuti do
Paraná; Graduado em Licenciatura Plena em História pela UPE – Universidade
de Pernambuco (2001) – Especialista em Psicopedagogia pela FACINTER –
Faculdade Internacional de Curitiba (2002) e Ensino de Sociologia pela UCAM –
Universidade Cândido Mendes- RJ (2019). Docente em História pelo IF-Sertão
Pernambucano (Campus Petrolina) e da Rede Particular de Ensino da Região do
Vale do São Francisco. Palestrante por meio do projeto DIÁRIO DE UM
PROFESSOR – UM ESTALO DE RAZÃO .
e-mail: diedsonalves@yahoo.com.br
Instagram: @diedsonalves
Instagram: @serendstudios