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Pernambuco, 21 de setembro de 2021

Agronegócios

O admirável mundo novo do agronegócio chega ao Sertão

O avanço da digitalização no Brasil tem colocado à disposição da sociedade uma série de tecnologias nas últimas duas décadas. E na agricultura, no campo, essas inovações também estão sendo observadas no dia a dia das atividades agropecuárias do Sertão e Agreste pernambucano

Postado em 11/08/2021 2021 13:31 , Agronegócios. Atualizado em 11/08/2021 13:34

Colunista

Em março de 2020 encontrava-se em curso uma situação em que poucos davam conta, a maioria das pessoas mesmo em cidades menores e mais distantes possuíam um telefone celular, em grande parte, smartphones, e um percentual superior a 50% estava conectado à internet. Esta infraestrutura, construída ao longo das duas últimas décadas com base em investimentos privados, é notável.

Smartphones e tablets como novas frramentas no agronegócio – crédito gov.br

Dois pontos merecem reflexão. Primeiro, cada telefone na mão do cidadão foi adquirido por ele ou ela. Em segundo lugar, as contas pelo uso da internet invariavelmente, não contando as necessidades do serviço público e dos governos, paga com recursos do bolso de cada um. Logo, esta rede impressionante de pontos conectáveis foi posta a funcionar como coletividade a partir do investimento individual. Uma grande conquista.

Deste grande número de usuários, alguns usavam seu celular em transações comerciais, obtenção de dados, comunicação com a clientela, compras e vendas online, educação à distância, mas uma outra grande parte ainda não havia conhecido a magia que possuía em suas mãos e seu telefone não passava de um aparelho tal qual os dos anos 80 ou utilizados para acessar sites nem sempre educativos ou que trouxessem uma vantagem competitiva à suas atividades profissionais ou pessoais.



A pandemia e a quarentena que se seguiu a ela foi determinante na mudança de hábitos. A mobilidade foi bruscamente diminuída, apesar do boicote de agentes do governo e autoridades sanitárias com conhecimento duvidoso que insistiam em pregar que conserva a distância mínima e manter-se em isolamento não levaria a nada, e parte das atividades do dia a dia passaram a ser realizadas a partir de casa. Desde a leitura do jornal, à aquisição de uma peça de roupa, como também a compra semanal de hortifruti.

Aí se deu a entrada direta do mundo digital no agronegócio e não somente o elo final da cadeia, o consumidor, mas todos aqueles que vêm antes tiveram que se adaptar à nova realidade, cada um a seu modo.

 

Um exemplo marcante que gostaria de registrar, ocorreu em Serra Talhada, bem antes da pandemia. O ITEP – Instituto Tecnológico de Pernambuco contava com uma série de Centros Tecnológicos, dentre esses, o do Pajeú. Local também utilizado como incubadora de startups. Em 2015, dentre as empresas incubadas havia uma, cujo nome não recordo, especializada em conectar os restaurantes e bares de Serra à clientela. Isto é, havia no Sertão, um precursor do Ifood e de tantas outras empresas de serviço de ´delivery` que surgiram. Em outras palavras, a semente estava posta, bastava haver sido melhor tratada e, provavelmente, Pernambuco contaria com uma de seus mais importantes exemplos de sucesso, ‘made in Serra’. 

Digitalização na agricultura 

Uma série de tecnologias postas à disposição da sociedade nas últimas duas décadas estão sendo utilizadas no setor do agronegócio no Brasil e no exterior. E, no Sertão e Agreste pernambucano não seria diferente.

Imagens de satélite já auxiliam nas previsões e monitoramento climático, na estimativa de umidade do solo, na identificação de estresses hídricos, doenças, pragas e na nutrição das plantas, estimando a colheita, as perdas e prevendo o calendário de atividades agrícolas. Também fornece dados quanto à situação das plantações e pastagens e dos danos causados por secas, enchentes, tornados e furacões em suas áreas ou em outras regiões e países competidores.

O VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado) popularmente conhecido como drones encontram-se em utilização visando a obtenção de imagens com maior acurácia que a imagem por satélite, chegando a precisão de centímetros, podendo facilitar o manejo de planta a planta quando se trata de pomares, por exemplo. 

Uso de drones na agricultura- crédito Imagem de viya0414 por Pixabay

Os drones também têm sido parceiros nas aplicações de fertilizantes, defensivos, controladores de crescimento das plantas, resultando em uma maior economia de produtos, precisão na aplicação, maior segurança para com os trabalhadores e consumidores. Em caso da pecuária os drones estão sendo utilizados na vigilância e no manejo de rebanhos, na demarcação territorial dos imóveis, no transporte de equipamentos, medicamentos e no auxílio aos primeiros socorros.

Câmeras espectrais e imagens de raios x  também são equipamentos estratégicos na fenotipagem das plantas de modo a se identificar alterações no padrão sanitário antes que o olho humano possa notar alguma diferença; na identificação facial de rebanhos, auxiliando de modo consistente e com alta precisão troca, perdas ou desaparecimento de animais, bem como na identificação de colaboradores, visitantes ou intrusos nos imóveis rurais e ambientes de trabalho.

Os computadores portáteis e a Inteligência Artificial

Os atuais celulares passaram a ser computadores portáteis, compatibilizando em um único equipamento, o telefone, a câmera fotográfica, a copiadora, a calculadora, o GPS, a biblioteca, a análise e transferência de imagens, o monitoramento das atividades na fazenda ou com os rebanhos, o arquivo de dados e documentos, o rádio, os jornais e revistas diárias, além de facilitar o contato com os extensionistas, consultores e professores. Também se constitui em um potente companheiro da educação e formação profissional contínua.

Outro grande avanço é o uso da inteligência artificial por meio dos robôs que facilitam, por exemplo, o trabalho de preparo do solo, semeio, plantio de mudas, tratos culturais de capina e poda, a colheita, a ordenha, a descorna e tosa de animais bem como atividades mais complexas como seleção de frutos individuais ou de cachos aptos a serem colhidos, como é o caso das videiras, de uma mangueira, pinha, ou mesmo melão e melancia. 

Além do mais, com o GPS estarão diretamente ligados à operação de máquinas agrícolas, manejo de sistemas de irrigação, identificação de pragas e doenças entre os cultivos e rebanhos. Uma atividade estratégica será a de uso de robôs na manutenção à distância de máquinas e equipamentos bem como na recuperação da infraestrutura predial, cercas, estradas, reservatórios e sistemas de irrigação.

A IOT e a racionalidade na agropecuária

A Internet das Coisas (IOT) associada à racionalidade das operações do dia a dia vem se tornando importante para o agronegócio, em tempos escassos de energia e água, por exemplo. Mas vai além disso. Com a IOT é possível acompanhar o desempenho na gestão da frota de máquinas e veículos quanto ao uso de combustíveis, otimização de peças e pneus, auxílio à manutenção pela identificação prévia de problemas e desgastes na peças e sistemas, facilidade na comunicação e no diálogo entre produtores, agentes de extensão agropecuária, técnicos especializados em assistência técnica, agentes bancários, de comércio e professores e instrutores nos cursos de capacitação à distância.

Imagem Divulgação

Desafios para o mundo Agro 4.0

O principal desafio para a digitalização no agronegócio talvez seja o de convencer os gestores das mudanças radicais que ocorreram e que não há caminho alternativo a não ser o domínio das tecnologias digitais e a associação com conhecimentos correlatos e complementares com diversas áreas de engenharias. 

As contribuições dadas às atividades agrícolas e pecuárias por parte da Engenharia Mecânica e Engenharia Química foram significativas. Hoje serão outros os conhecimentos que serão demandados na construção das novas plataformas e bibliotecas virtuais, a exemplo da eletroeletrônica, da comunicação digital, dos novos materiais, da computação e do domínio de idiomas. 

A agricultura passou a ser um dos segmentos mais demandadores de tecnologia. Esta tendência será acelerada, inclusive a partir dos polos mais dinâmicos da agricultura irrigada, a exemplo do Médio São Francisco e do Parnaíba. O futuro reserva surpresas e sonhos. Estejam atentos a testemunhá-los e há incontáveis aplicações a serem postas em prática e, assim, podemos contar com o adiamento das previsões de Malthus quanto a possibilidade do homem não ser capaz de se alimentar a si próprio.

Um exemplo que tudo é possível

Há duas semanas, no dia 11 de julho de 2021, visitei um plantio de milho do agricultor Gleiton Medeiros, um jovem produtor sergipano que resolveu estabelecer-se no Sertão de Alagoas, entre os municípios de Batalha e Belo Monte. Minha surpresa não foi para menos. Afinal o histórico da produção e produtividade de milho em Alagoas e Pernambuco não é das mais louváveis.  Há pouco tempo suas produtividades oscilavam ao redor de 700 a 900 quilos por hectare, chegando a valores de 300 quilos em anos secos. A conversa que se ouvia era que cultivar milho no semiárido continha um risco tão elevado que não valeria a pena insistir, já que não tinham sido poucos os movimentos de incentivo à expansão dessa cultura nos dois estados por vários governos e em diversas ocasiões.

O que encontrei foi uma área de aproximadamente 450 hectares, sob condição de sequeiro, em fase de pendoamento e emissão das espigas. Plantas vigorosas, uma população de 55 mil plantas por hectare, devidamente adubadas e com o adequado controle de pragas e doenças. Ao final de nossa visita, o Gleiton parou em um imóvel da propriedade para mostrar-me dois drones que, por intermédio de uma empresa de Minas Gerais, estavam sendo utilizados na aplicação de defensivos. 

De um lado um jovem operador que se denominou piloto de drone explicou-me o funcionamento do equipamento, de como repunha as baterias, carregava o tanque e aplicava. Por outro, um produtor, orgulhoso do que havia realizado até o momento, dissertando sobre as vantagens do uso dos drones, quanto a precisão, eficiência, rapidez, não compactação do solo e economicidade, uma vez que o piloto liberava a aplicação do produto apenas nas áreas identificadas como necessárias.

Segundo o produtor Gleiton Medeiros a expectativa de produtividade, caso ocorra a continuidade das chuvas e considerando a umidade existente no solo, a colheita deve ficar entre 90 e 100 sacas de milho por hectare, ou seja 5.400 a 6.000 quilos.

A pergunta a seguir é simples. Como, sob condições de chuva, alguém pode presumir uma produtividade de 6.000 quilos por hectare em uma cultura de milho no Sertão de Alagoas?

Este tipo de resultado não ocorre todos os anos, é óbvio, mas o que se viu ali foi o uso do que existe de mais moderno em termos tecnológicos aplicados à atividade agrícola no Sertão. Não é à toa que o Gleiton pensa em expandir a área de milho e diversificar com outros cultivos. Que o faça. O Agreste e Sertão de Alagoas, Pernambuco, Paraíba necessitam de exemplos edificantes como este para que passamos a reconhecer e não subestimar as limitações, mas acreditar que a ciência pode ser um determinante na transformação de um semiárido quase sempre desacreditado em um ambiente de produção, negócio e prosperidade.

Como se vê, não foi apenas uma ou poucas tecnologias que levaram o senhor Gleiton a este resultado. Também não foi o ambiente institucional, mas o tirocínio de um produtor que começou a ver a mudança ocorrida no estado de Sergipe nos últimos vinte anos e sobre a possibilidade de se reproduzir, mesmo que não sejam nas mesmas bases, em outras áreas do Nordeste. 

De modo geral os solos de Pernambuco não são tão férteis nem o clima o mais previsível, mas os ganhos no melhoramento genético resultando na obtenção de novos híbridos de milho têm mudado a face da produção deste cereal em várias regiões e países. Que se atualize o Zoneamento Agroecológico e se identifique as áreas aptas e que também venha a nossa vez. Primeiro foi Sergipe, seguido de Alagoas e, agora, que se e apoie os trabalhos que vêm sendo realizados pelos empresários da AVIPE no sentido de atender parte da demanda da avicultura pernambucana por milho em cultivos realizados no próprio estado.

 

 

Geraldo Eugênio é Engenheiro Agrônomo, Professor Titular-livre em Agricultura e Biodiversidade na UFRPE – UAST (Universidade Federal Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica de Serra Talhada) e colaborador do Jornal do Sertão. Antes de retornar ao Sertão como Professor, colaborou com diversas instituições e funções, tais como: Pesquisador e Presidente do IPA, Secretário da Agricultura de Pernambuco, Superintendente de Pesquisa e Desenvolvimento e Diretor executivo da Embrapa, Superintendente de P&D e presidente do ITEP e parceiro da empresa Inovate Consultoria & Projetos.