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Pernambuco, 21 de setembro de 2021

Agronegócios

Chega o verão e a previsão de tempo nunca foi tão importante. Por Geraldo Eugenio

A umidade baixa, o calor aumenta e a água evapora 

Postado em 02/09/2021 2021 14:55 , Agronegócios. Atualizado em 02/09/2021 14:57

Colunista

Geraldo Eugênio  Foto: Divulgação

 

Primeira semana de setembro de 2021. Vocês provavelmente notaram como o clima mudou durante a última semana. Todos os dias as temperaturas máximas elevam-se em um ou dois graus centígrados. As noites também são menos frias e a umidade já desceu dos 40%.   Além da sensação de calor, dos lábios secos e da vontade e necessidade de se beber água. Como teste, basta deixar um copo de água cheio em um canto da casa e ver como ele se encontra antes de dormir e ao acordar se tendo uma ideia do que é a perda de água para o ar rarefeito e quente, a evaporação. Este é o nosso sertão e o que sente nossas plantas, a criação, a caatinga, os pássaros, os microrganismos do solo, os insetos, a vida como um todo. Um ciclo que não se detém, mas que para o qual se pode estar mais bem preparado. A seca é nossa irmã. Vamos nos preparar para sua visita.

 

As pastagens secam e a cor da paisagem começa a mudar

Aqueles que estão no campo a céu aberto sentem bem mais. O verde muda de cor a cada dia e nossas serras vão adquirindo aquele tom cinza. A cor dos Sertões de Euclides da Cunha, de Conselheiro, de Padre Cícero e Lampião. A mudança de cor reflete a ação de defesa de nossa vegetação. Não podendo bombear a água que gostaria para a atmosfera, esta reduz a área de exposição, perdendo as folhas e as vezes até o caule e escondendo no solo tórrido o que resta de raízes e suas sementes, que revestidas de uma proteção mágica resistem aos meses de sol intenso, anos a fio.

Imagem Divulgação

 

Nem todos se preveniram

Chega a hora da prova dos nove e aí se testemunha quem armazenou o alimento para seu rebanho durante os meses úmidos ou quem, por alguma razão, vai encontrar sua irmã de mãos abanando. A sensação de medo e pavor se estampa na face do produtor que não conta com silagem, fardos de feno, uma boa capineira em uma área irrigada ou uma área de palma forrageira. Neste exato momento, encarar a produção de carne ou leite tendo que comprar uma saca de milho a R$ 110 e a de soja a R$ 180 é muito difícil. As contas não fecham, o leite e a carne, apesar da alta recente não remuneram os custos e dia a dia o produtor vai usando a pouca economia que lhe restou. E esta realidade que deve ser evitada. Para tanto, contar com os elementos que indiquem uma boa capacidade de previsão de clima e da quantidade de alimento que se poderá dispor para os animais nos próximos meses é essencial.

Com o que se conta

Esta coluna aborda os esforços de três grupos de pesquisa, em universidades públicas diferentes, direcionados a previsão climática, uso eficiente de água e convivência com a seca. O primeiro é o LAPIS – Laboratório de análise e processamento de imagens de satélite, da UFAL – Universidade Federal de Alagoas, liderado pelo meteorologista, Prof. Humberto Barbosa. O LAPIS publica semanalmente um mapa colorido do semiárido brasileiro tendo como base um índice chamado NDVI que mostra uma estimativa de como está o acúmulo de cobertura vegetal e, consequentemente, da quantidade de forragem disponível aos animais. A partir de agora, início de setembro, se entra em um período em que as tonalidades deste mapa se deslocam do verde ao vermelho em uma velocidade assustadora e é esta taxa de mudança de cor que auxilia a tomada de decisão. 

 

Departamento de Engenharia Nuclear UFPE

O segundo é o grupo liderado pelo Prof. Rômulo Menezes, do Departamento de Engenharia Nuclear, da UFPE, que vem ao longo dos anos trabalhando equações e modelos a partir de dados acumulados ao longo de décadas que permitem prever qual a quantidade de forragem disponível que se disporá em qualquer ambiente, região, município, até a nível de propriedade, nos próximos meses. Avanços significativos foram observados nas atividades desta equipe nos últimos anos. 

UFRPE – UAST

O terceiro, mais recente, é um grupo liderado pelo  Prof. Thiéres Freire  da Silva, da UFRPE-UAST – Unidade Acadêmica de Serra Talhada, que tem se dedicado em entender com precisão, o consumo de água por parte das forrageiras adaptadas ao semiárido, a exemplo da palma forrageira e com a informação sobre a água acumulada ou disponível, calcular um valor estimado de produção de forragem que indique o rebanho bovino ou caprino/ovino que um produtor poderá manter, sem correr o risco de ter que vender seus animais a preços irrisórios ou vê-los perecer nos próximos meses.



Equipes de alto nível 

Conta-se com várias outras equipes de alto nível a exemplo da Embrapa Semiárido, da APAC – Agência Pernambucana de Água e Clima, e do INSA – Instituto Nacional do Semiárido, por exemplo. O fundamental é que essas informações sejam compatibilizadas de modo que se possa ofertar ao produtor conhecimento de fácil entendimento e que passe a fazer parte do seu cardápio diário de aprendizado e atenção.

A coluna da semana traz instrumentos disponíveis aos formuladores de políticas, tomadores de decisões, produtores e a sociedade de modo geral, na convivência com os períodos de secas mais intensas que persistem por anos. Ocorreram avanços e que esses sejam utilizados no melhor formato.

 

Quem é Geraldo Eugênio: Engenheiro Agrônomo, com mestrado na Índia e doutorado e pós-doutorado nos na Texas A&M University, Estados Unidos, é ex-pesquisador do IPA e Professor Titular em Agricultura e Biodiversidade na UFRPE – UAST, Serra Talhada, PE. Foi Secretário de agricultura de Pernambuco, Presidente do IPA, do ITEP e Diretor Executivo da Embrapa. Nos últimos anos tem acompanhado de forma direta políticas, tecnologias e iniciativas inovadoras aplicadas à gestão de secas, no Brasil e no exterior. Considera essencial entender melhor o Sertão, visualizando-o como um grande ambiente de negócios e sucesso.