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Pernambuco, 30 de abril de 2026

Cultura

Os sertões e suas riquezas de cenários e personagens

O conhecimento dos Sertões tem mostrado que há algo diferente de todos os lugares. Apesar da paisagem seca, cinza e quente entre os meses de setembro e dezembro, não são poucos os personagens que habitam a mente do nordestino e continuam sendo objeto de admiração ou até desconforto para alguns, mas que estão sempre presentes.

Postado em 17/10/2021 21:12

Colunista

 

Antônio Conselheiro imagem ilustrativa reprodução net

Hoje, pretende-se trabalhar com quatro personagens e o que eles representam. O primeiro é Antônio Conselheiro, um sertanejo de Quixeramobim, CE, vagante, desprovido de qualquer vaidade ou bem que pelas circunstâncias de uma vida extremamente dura, andou por vários vilarejos e pequenos distritos do Ceará, indo para as margens do Vaza-Barris, onde estabeleceu o Arraial de Canudos com dezenas de milhares de crentes desesperados pela secas do final do século XIX, por índios abandonados, escravos falsamente alforriados e o povão pobre em geral, estabelecendo uma comunidade em que pregava a solidariedade e que a exercia baseado no evangelho em sua tradução literal.

Um movimento ousado que incomodou um Brasil que se tentava recriar saindo da monarquia para uma república indefinida e na qual a participação do povo era tão insignificante quanto no regime anterior. Foi então que Antônio Conselheiro caiu como uma luva como o anti-herói, o louco, o pervertido, piolhento e sujo que atentava contra o novo regime e junto com seus miseráveis deveriam ser eliminados. Depois de alguns revezes prevaleceu a força, o governo, e sua cabeça pôde, finalmente, ser enviada para estudos um tanto bizarros por especialistas em Salvador.



Aparentemente, findou-se a discussão. Talvez, se não fosse por Euclides da Cunha com os Sertões e Mario Vargas Llosa com a Guerra do Fim do Mundo, duas obras que nenhum nordestino deveria deixar de ler, pouco se saberia sobre o personagem e sua obra. Ao se visitar Canudos e o local onde foi o Arraial, hoje um parque temático sob a responsabilidade da UNEB – Universidade Estadual da Bahia, vendo as reentrâncias do terreno, alguém se sente nas emboscadas e no que foi o corpo a corpo entre os penitentes e os soldados.

O parque é objeto de visitas por centenas de curiosos e por quem se propõe andar nos sertões da infindável Bahia. O povo do local não o esqueceu e ainda se ouve estórias que nos faz sentir orgulhosos desse pregador e seus seguidores.

Padre Cícero

Padre Cícero

O segundo dos nossos quatro heróis é Padre Cícero Romão Batista, o Padim Pade Ciço, de Crato que se tornou de Juazeiro do Norte. Esse foi um fenômeno. Além de um líder religioso carismático, um homem culto para seu ambiente, político habilidoso e em um outro formato, que conseguiu e consegue atrair romeiros de todos os estados do Nordeste. No início do século XX esses viajantes utilizavam-se dos burros ou andavam a pé, vindos de longas distâncias para ouvir seus sermões e homilias, pedir a benção e reverenciar o santo padre, coronel e político que marcou uma época na província do Ceará, e de modo mais enfático, no agradável Cariri. Hoje, Juazeiro do Norte é uma das principais cidades do Nordeste e o Cariri cearense uma próspera região que continua atraindo turistas de todos os estados do país e turismo internacional.

Lampião e sua vida controversa

O nosso terceiro herói, viveu no Sertão do Pajeú, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião é tão controverso quanto Antônio Conselheiro, mas, é parte da história do homem comum e não é à toa que em toda cidade da região existe uma pousada, mercearia, restaurante, posto de serviço, quitanda, motel ou o que quer que seja que leve seu nome. Visitar os Cânions do Rio São Francisco, uma das mais encantadoras paisagens brasileiras, onde o Velho Chico margeia os estados de Sergipe e Alagoas, nos deixa admirados.

Lampião e Maria Bonita

Durante esta visita é possível conhecer a grota de Angicos, local onde se deu a morte do Rei do Cangaço. São centenas de turistas que, diariamente, guiados por jovens vestidos à caráter, repetem os acontecimentos dos últimos dias de nosso herói, a traição, o papel do coiteiro e a emboscada.

O Lua, o Rei do Baião

O nosso quarto personagem é mais recente: o Lua, Luiz Gonzaga – o Rei do Baião. O sertanejo que no primeiro momento não foi reconhecido por nós nordestinos e colocou o baião nas salas, gafieiras, bailes e no mundo cult de um Rio de Janeiro, capital cultural do país, e tornou conhecido o ritmo do Forró, como um movimento que perdura há 70 anos, com suas variações e adaptações, mas que chega com força na terceira década do século XXI. A influência de Luiz Gonzaga sobre a música nordestina é impressionante. São dezenas de renomados cantores e compositores que ainda se inspiram em suas músicas, em sua poesia cabocla e no seu modo simples e até ingênuo de ser.

Divulgação

A força do turismo temático

Os comentários sobre esses quatro lendários nordestinos se correlacionam ao fato de que, apesar de vários esforços, pouco se tem registrado dessa riqueza histórica que possibilitem valorizar o turismo dos locais onde nasceram, viveram e foram emboscados Antônio Conselheiro e Lampião, o que seria  referência no planejamento de programas turísticos dirigidos ao conhecimento de um Brasil que se estende da metade do século XIX aos dias de hoje.

O caso de Lampião é típico. Serra Talhada que tanto exemplo tem dado de empreendedorismo, arrojo, crescimento, nunca conseguiu atrair turistas para conhecer o sertão onde ele nasceu, a vegetação que conheceu nos primeiros anos de sua vida, o relevo da região de São Miguel e a base de sua formação. Neste aspecto, Sergipe conseguiu ser mais hábil, desenvolveu o turismo para os Cânions do São Francisco e Grota de Anjicos, ponto turístico internacional que também beneficia o estado de Alagoas, a exemplo do município de Piranhas e do distrito de Entremontes, na valorização de sua hotelaria, bordados e culinária.

O que se pretende aqui é deixar claro que há espaço para parques temáticos dedicados à vida e ação dos nossos personagens não apenas nos locais onde pereceram, mas onde nasceram e passaram grande parte de suas vidas. Há um potencial turístico a se explorar e com isto dinamizar vários setores da economia regional, entre esses, o agronegócio.

A culinária, por exemplo, é o grande aliado deste movimento. Em cada local em que um parque temático dedicado a um dos personagens em referência fosse instalado, o cardápio, as bebidas e as frutas e sobremesas são distintas realçando os sabores, cores e odores locais. 

Beiju de Tapioca

Como o alimento e o artesanato, em grande monta, estão associados aos produtos da agricultura, da pecuária e do extrativismo local haveria um fortalecimento da economia beneficiando a população local. 

Ganhariam nossos produtores de leite de vaca e cabra, de galinha caipira de rapadura, de milho verde, fubá, xerém e pamonha, mas também ganharia o fabricante de alpercatas, os artesãos, os bares e restaurantes, bem como o crescimento da demanda para dois grupos de profissionais: o agente turístico e o chef ou especialista na culinária regional.

O transporte seria ainda mais dinamizado e os serviços correlatos cresceriam. Daqui a pouco, além do cuscuz com leite haveria necessidade de sites específicos, mapas temáticos, cardápio e guias bilingues.

Como podemos observar, esta é uma viagem, mas uma daquelas de quem sente que o Sertão de 2040 será completamente diferente do que foi há 20 anos. Que cada um se sinta engajado a fazer sua parte e chegaremos lá.